(Por Gabriela Rassy) – Cada vez mais, o meio ambiente está entrando na pauta de baladas e festivais em toda parte. No dia 28 de setembro, acontece o About Us Festival, na Chácara do Jockey, em São Paulo. O evento de arte e música carrega a bandeira “viver a experiência da sustentabilidade na prática”. Tenda sensorial, centro de triagem, oficinas de compostagem, arte e arborização são algumas das atrações do festival que contará com a presença de Ben Harper, Dave Matthews Band e Vanessa da Mata, entre outros.

Infelizmente, nesse caso, o preço da sustentabilidade ainda é bem salgadinho: os ingressos custam entre R$ 161 e R$ 575 para a etapa paulistana do evento (em Manaus, a outra etapa, ficam entre R$ 80,50 e R$ 345). Mas a sócio-diretora da Mondo, empresa responsável pelo evento, Anne Crunfli, acredita que os valores são justos. “É um evento com várias atrações, vários artistas e todo sustentável. Tudo que a gente oferece, as tendas, as oficinas, valem o preço”. Além disso, o tema do evento exige materiais reutilizáveis, desde o menor dos parafusos. “Ainda não temos uma cultura voltada para a sustentabilidade, então o nosso pedido não é uma coisa que eles (as empresas) estão acostumados a fazer, o que encarece o produto”, explicou Anne.

Sustentável

No clima de responsabilidade social e preocupação com o meio ambiente, algumas mentes criativas passaram a usar a sustentabilidade como tema para baladas fechadas e até montar um negócio em cima disso. A primeira idéia nesse sentido foi o projeto Sustainable Dance Club ou SDC (Balada Sustentável), que oferece eco-produtos, como pistas de dança que geram energia para a balada, e consultoria para casas que queiram virar “verdes”. Desenvolvido por duas empresas holandesas, a Enviu – de inovação em sustentabilidade – e o escritório de arquitetura Döll, a idéia é proteger o planeta sem deixar de se divertir.

“O SDC deseja fazer as baladas em todo o mundo mais sustentáveis, aplicando soluções técnicas e princípios de gestão empresarial”, explicou a porta voz do SDC, Vera Verkooijen ao Virgula. E, se a sua idéia de balada não é refletir sobre o planeta, ótimo, por que a deles também não é. “Nós queremos que as pessoas curtam uma boa noite de balada. Nós deixamos os baladeiros conscientes, mas não forçamos a mensagem”, disse Verkooijen.

Watt Club

O primeiro evento ligado ao projeto aconteceu em outubro de 2006, em Roterdã, segunda maior cidade da Holanda. Chamado The Critical Mass, a festa atraiu baladeiros conscientes e não-conscientes de todas as partes e se tornou referência no estilo sustentável de diversão. Em junho de 2007, os organizadores repetiram a dose e decidiram expandir o evento esporádico a um novo conceito de balada: em 2 de setembro próximo será inaugurado o Watt Club, também em Roterdã. A festa de abertura terá como atração principal o show de Iggy Pop.

O dono da Watt acredita que uma conduta sustentável de negócio significa que pessoas, planeta e lucro estão balanceados. Assim, a casa terá uma moderna pista de dança, chamada Sustainable Dance Floor, que converte os movimentos das pessoas na pista em energia e a usa para mudar a aparência do chão.

Quem for de bicicleta não paga

Em Londres existe uma outra tendência de balada sustentável. O Bar Surya, projeto do Club4Climate, tenta tornar a balada mais ecologicamente correta com a utilização de dutos de ar, para reduzir o uso do ar condicionado, e privadas que reduzem o consumo da água. Além disso, lá são vendidos alimentos e bebidas orgânicos. A tecnologia usada na pista de dança é chamada de piezoelétrica. Nela, cristais de quartzo e cerâmica são capazes de produzir energia quando são pressionados. Para entrar na Eco-Balada é necessário assinar um manifesto com os 10 princípios contra o devastamento e a destruição do planeta. Quem for a pé ou de bicicleta não paga a entrada.

O Surya, porém, já provocou algumas reações negativas graças às atitudes de seu dono, um corretor imobiliário milionário que se autodenomina Dr. Earth (dr. Terra). Ele usou o selo SDC sem autorização e também o logo da ONG Friends of the Earth, para a qual fez uma proposta nada ecológica: fazer uma ilha de festas na Grécia (que só tem acesso por via aérea, ou seja, mais poluente). A proposta foi recusada pela ONG. "Dizer às pessoas que elas podem salvar o mundo indo de avião para festas em uma ilha é um golpe ecológico", disse a diretora de finanças do Friends of the Earth, Ruth Ruderham, em uma declaração oficial.

Enquanto isso, por aqui…

No Brasil ainda não existem projetos no estilo SDC de baladas sustentáveis, mas algumas casas, eventos e até bandas fazem o possível para reduzir o impacto ambiental. Seja com o plantio de árvores, com a reciclagem do lixo produzido ou mesmo com a preservação da área original. É o caso da Chácara Santa Cecíclia, inaugurada em novembro de 2002. A casa é um mix de restaurante, balada, bar, espaço de eventos, além de ser uma reserva ecológica de 600 m² no meio da cidade.

A gerente de marketing da Chácara, Sandra Santorsula, acredita que as ações desenvolvidas fazem do espaço uma balada sustentável. “Na Chácara não existe desperdício, ou seja, só o que é absolutamente necessário é descartado, os demais insumos são encaminhados para ONGs e entidades de reciclagem. Além disso, toda água utilizada para lavagem, manutenção dos espaços e limpeza, é proveniente de um reservatório de chuva”, disse Santorsula ao Virgula.

A rave XXXperience, em parceria com a ONG Rede em Ação, faz ações de combate à fome, a cruzada pela educação no país e a luta ambiental. “Na parte ambiental, já fazemos a triagem do lixo em todos os eventos e os recursos arrecadados com a venda vão para o fundo social”, explicou Bruna Armani, Relações Públicas do Grupo No Limits, que produz a festa. “Ainda não existe um planejamento específico para que de fato chamemos de sustentável, mas estamos buscando parcerias para deixar redondo este processo, ou seja, a reciclagem, a venda e por fim a aplicação destes recursos no meio-ambiente”, disse.

Algumas baladas de São Paulo já estão preocupadas com a questão. O Vegas, por exemplo, recicla há três anos todas as latas usadas durante a noite e, há duas semanas, mudou a iluminação de uma de suas pistas para lâmpadas que consomem menos energia. “Estamos com um projeto de verificar o impacto ambiental causado pelo Vegas, para compensar a emissão de CO2 com o plantio de árvores em toda a Rua Augusta”, disse Facundo Guerra, um dos sócios do Vegas.

A Clash, desde sua inauguração há 1 ano e meio, faz sua parte com a reciclagem de todo o material usado na casa e com o reaproveitamento da água da chuva. “Estamos estudando outras ações ambientais, como a compensação da emissão de carbono, mas ainda falta analisar se é viável ou não ao clube”, disse o sócio da balada, Gabriel Gaiarsa.

Como ter uma balada sustentável?

As diretrizes de como se tornar um clube sustentável segundo a Enviu são:

– 30% menos impacto ambiental do que clubes comuns;

– Sustentabilidade intergrada tanto na construção quanto na organização;

– Instalação de 3 mostruários da SDC que mostram a sustentabilidade para o público (Pista de dança sustentável/Bar do desperdício zero/Parede de água etc);

– Plano de comunicação sobre como informar o público sobre sustentabilidade;

– Plano de negócios sustentável com metas e avaliação anual;

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