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O machismo é algo enraizado na sociedade e disso ninguém tem dúvidas. Com os últimos episódios que temos visto, como o caso do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro, ou até o caso de assédio por parte do cantor Biel, muitas mães vêm manifestando nas redes sociais a responsabilidade de ser mãe de um menino e educá-lo em uma sociedade como a que vemos hoje.

Desde sempre, meninos e meninas têm obrigações distintas e brinquedos diferentes. Meninas brincam de bonecas, têm uma cozinha e todas as coisas consideradas de “menina”. Meninos devem brincar de carrinhos, super-heróis e jamais usar rosa. Algo que tem tudo a ver com a questão de igualdade entre os sexos, e que, mesmo você achando que não, tem tudo a ver com a cultura do estupro.

“Nenhum país do mundo alcançou a igualdade entre mulheres e homens, nem entre meninas e meninos, e as violações aos direitos das mulheres e meninas ainda são um ultraje. Por isso, temos que aproveitar as lições aprendidas e a certeza de que a igualdade a favor das mulheres leva ao progresso de todas e de todos. Temos que avançar com determinação e coragem”, Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora-executiva da ONU Mulheres, no movimento #ElesPorElas.

Depois de ver alguns desabafos nas redes sociais, o Vírgula conversou com muitas mães para ver como elas lutam contra o machismo já enraizado, seja na educação de meninas ou meninos, e como lutam contra o estereótipo de que meninos são heróis e meninas são princesas. Vem ver o depoimento inspirador de algumas delas:

Bruna Saniele, produtora de TV, 34 anos, mãe da Ana Sílvia, 2 anos, e do Lucas, de 2 meses

“Acho que quando as pessoas falam que criar menino é mais fácil já pensam que não tem que ensinar igualdade para eles, que pelo fato dos homens conseguirem tudo com mais facilidade, não precisamos mostrar que essa realidade tem que ser diferente. Não acho que ser mãe de menino é mais fácil, mas acho que ser homem é, sim, mais fácil. Como mãe de um menino e uma menina vejo como missão educá-los para um mundo mais igualitário e ‘feminista’. Lá em casa brinquedo não tem sexo […]. Tento inclusive comprar brinquedos antigamente considerados “de meninos” para a minha filha porque sempre os achei mais interessantes”.

“Acho que o principal conselho que eu poderia dar para os pais é: sejam humildes para tentar entender as mudanças, que serão positivas. Primeiro temos que nos livrar da herança machista para criar meninas questionadoras e meninos que não se colocam em um local superior”.

Bruna e os filhos

Reprodução/Facebook

Mariela Mei, 32 anos, escritora e artesã, mãe do Vinícius, de 8 anos

“Não há dificuldade maior ou menor em criar menino. Há a dificuldade de desconstruir toda essa bagagem social e criar um ser humano, livre da classificação de gênero”

Mariela e Vinícius
Arquivo Pessoal

“Meu filho tem muitas coisas cor de rosa e quando alguém o questiona sobre ser ‘cor de menina’, ele diz que isso não existe. […] Certa vez eu e Vinicius, com 5 anos, estávamos escolhendo uns bichinhos de plástico brilhantes que ficavam na seção de menina da loja de brinquedos. A prateleira estava localizada perto da fila do caixa, e dois meninos que aguardavam com seus pais começaram a rir e debochar do meu filho, chamando-o de menininha. Eu fiquei extremamente incomodada porque os meninos tinham mais ou menos 10 anos, debochavam de um menino de 5 e os pais só olhavam, como se aquilo tudo que os filhos faziam fosse o correto e esperado. Vinicius olhou para os meninos, olhou para os brinquedos, escolheu o que queria e saiu andando contente. E eu soube naquele momento que ele cresceria um ser humano melhor”.

Nathalia Cristina Gonçalves, 20 anos, cabeleireira, mãe do Pedro Gabriel, 1 ano

Arquivo Pessoal

“Quero que meu filho entenda que ele vive em um mundo em que todos são iguais. Mulheres, homens, negros, brancos e pardos têm o mesmo direito e qualquer coisa. Quero que ele saiba respeitar qualquer um! Não explico ao meu filho tipos de brinquedo, se é de menino ou menina, ele simplesmente brinca. Se um dia o brinquedo preferido dele for uma Barbie, eu vou comprar. Gênero só mostra o quão machista é a sociedade”.

Carolina Utida Mormino Elias, 33 anos, metalúrgica, mãe do Nicolas, de 4 anos

Carolina                                      Arquivo Pessoal

“Sempre fomos muito claros com o Nicolas, mesmo sendo criança. Ensinamos à ele os princípios do que Deus criou e deseja, mas deixamos claro que existem opções diferentes (inclusive em nossa família) que devem ser respeitadas. Não me incomodo com isso e se o Nicolas resolve dar uma olhadinha nos brinquedos considerados exclusivos de meninas eu deixo sem problemas. Já aconteceu de ele preferir um carrinho de supermercado em vez de um carrinho de corrida e eu comprei o que ele escolheu, afinal quando ele crescer não fará compras em supermercado? Nunca aconteceu de ele escolher uma boneca em uma loja de brinquedos, mas se uma amiguinha está brincando com ele e tem uma boneca não vou proibi-lo de brincar só porque é “coisa de menina”. Ele vai ser pai quando crescer, vai cozinhar, lavar, cuidar de filhos. O que importa é ele estar feliz!”.

Helena Dias, jornalista, mãe do Benício, 3 anos

helena e benicio                                      Reprodução/Instagram

“Aqui, se meu filho me vê varrendo a casa, ele pede pra me ajudar e alguma maneira. Dou um paninho para ele passar na mesa, por exemplo. Às vezes, gosta de brincar que ele é o pai e que cuida de um bebê (qualquer boneco); troca a fralda, dá mamadeira. Ele cresceu vendo o pai fazer isso, né?”

“Uma história interessante foi quando o levamos na exposição da Frida Kahlo. Depois de ver os autorretratos dela, ele disse que achou a Frida feia, porque ela tinha bigode e não usava batom. Explicamos que cada um usa o que acha melhor, o que faz se sentir bem. Nem toda mulher gosta de batom. Teve outro dia, quando chegou um professor de música novo na escola, ele comentou que o professor era menino, mas usava brinco. Explicamos a mesma coisa. Cada um usa o que gosta”.

Giovana Marques, 38 anos, professora, mãe da Maria Flor, 8 anos, e do Vicente, 10 meses

giovana e família

Arquivo Pessoal

“Criar filhos é muito complexo, sendo menina ou menino. Penso que todos somos educadores e educação é feita 24 horas por dia, com nossa fala, nossa presença, nossas atitudes, nossa cultura, nossas escolhas, etc. Achar que criar meninos seja mais fácil me parece uma maneira muito superficial e delicada de pensar a criação”.

Quando a Maria Flor fez 4 anos e quis o tema Peter Pan, fizemos em uma casa de festas que insistiu que o tema fosse Tinker Bell. Expliquei, pedi umas alterações, mas não conseguiram atender. No último aniversário, que teve como tema Menino Maluquinho, foi outro problema. As pessoas sempre falavam “nossa, que legal, Menina Maluquinha, né?”. Até que uma hora ela me perguntou “por que as pessoas estão perguntando isso se nem existe essa personagem?”. Um adereço da mesa não chegou a tempo porque a pessoa encarregada em fazer ficou na dúvida se queríamos isso mesmo já que era ‘de menino’”.

Silmara Meira da Cunha, gerente de Comunicação Digital, 42 anos, mãe do Murilo, 7 anos, e do Artur, de 6 anos

sil                                           Reprodução/Instagram

“Acredito nesse movimento de acabar com a cultura do estupro. Isso é tão antigo e ainda não conseguimos evoluir nesse ponto. Fiquei pensando que, se quisermos resolver esse problema, temos que começar na raiz, na base, ou seja, enquanto as crianças são pequenas e estão sendo orientadas para a vida, criando seus valores e aprendendo de verdade a respeitar o próximo. Esse respeito deve ser algo enraizado, algo que aconteça de forma natural”.

“O que tento passar para os meus dois filhos meninos é que eles têm que respeitar as outras crianças, sejam elas meninas ou meninos. Tento não rotular brincadeiras como ‘de meninas’ ou ‘de meninos’ e nem dividir grupos, como meninas só brincam com meninas e meninos com meninos”.

“O Murilo me pediu uma corujinha de pelúcia, bem fofinha por sinal. Talvez se eu tivesse preconceito com ‘coisas de menino’ e ‘coisas de menina’ não tivesse deixado comprar de tão fofinha”.

Mariana Corrêa Barra, 34 anos, analista de projetos, mãe do Cainã, de 2 anos e meio

Mariana e filho

Reprodução/Facebook

“Eu me preocupo bastante com questões de gênero e como isso se refletirá na criação do Cainã. Eu e meu marido nos policiamos para mostrar situações de diversidade pra ele, sem censuras. Não gostamos muito do rótulo de brinquedos de menina e de menino. Ele tem carrinhos, mas também boneca, panelinha, coisas que ele demonstrou interesse na escola com coleguinhas”.

“Me preocupo também que ele tenha liberdade plena para escolher ser o que ele quiser profissionalmente e não me preocuparia se ele escolhesse uma profissão geralmente rotulada como feminina. Ele verá poucas mulheres em posição de liderança, por exemplo, e continuaremos vivenciando a vulnerabilidade da condição da mulher em todos os sentidos. Espero passar valores pra ele que permita que ele se autoavalie sempre.”

“Ele já me perguntou porque eu não uso cueca e não tenho piu-piu. Também gosta de pegar meu sapato de salto e passear pela casa, como faz também com a bota de trabalho do pai. Está despertando para as diferenças aos poucos”.

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