Autoridade quando o assunto é sexualidade, a historiadora Mary Del Priore lançou recentemente o livro Histórias e Conversas de Mulher, no qual conta e analisa a história das lutas femininas ao longo dos últimos séculos, sobretudo no Brasil. Editado pela Editora Planeta, o livro segue a linha de seu último best-seller, Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo Na História do Brasil, de 2011.

Divido em três partes, o livro da Doutora em história social pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado em Ciências Sociais pela Escola de Altos Estudos (França) discute a importância da mulher nas famílias, os filhos, e a questão dos padrões de beleza e do corpo feminino. 

No livro, marcado pela minuciosa pesquisa histórica – feita com a ajuda de registros médicos e eclesiásticos -, Mary chega ao coração de questões seculares que continuam atuais. “Escolhi temas que atravessam quinhentos anos de história – casamento, maternidade, trabalho, solidão, envelhecimento e corpo – para mostrá-los em suas transformações cronológicas: éramos assim e ficamos assim. O que falta para nos encontrarmos como brasileiras e cidadãs. Onde reside nossa singularidade?”, questionou, em entrevista ao Portal Virgula.

A autora critica a atual postura de boa parte das próprias mulheres na sociedade: “Há uma desvalorização grosseira das conquistas das mulheres por elas mesmas. Esse comportamento ajuda, certamente, a que se continue a cavar um grande fosso entre homens e mulheres”.

Leia a entrevista completa:

No imaginário internacional, a brasileira é uma mulher confortável com o próprio corpo. Você acha que essa imagem reflete a realidade?

Com 61% dos brasileiros acima do peso, acho que tais mitos terão que ser repensados. Vejo, contudo, uma busca pelo bem estar e aprimoramento da autoestima. Isso é positivo quando não é a qualquer custo, até mesmo o da própria vida. Há dezenas que morrem nas mesas de cirurgiões plásticos inescrupulosos.

As cantoras Preta Gil e Gaby Amarantos foram criticadas por participar do quadro ‘Medida Certa’, do Fantástico, sendo que antes criticavam a ditadura dos padrões estéticos. Você acredita que há aí uma contradição?

Não acompanhei o programa, mas gosto muito de Gaby Amarantos, que sempre se disse feliz com suas formas e tem sobre a vida um princípio interessante. Ela diz detestar “coitadismos”. Ou seja, mulheres que se fazem de vítimas e não têm coragem de combater por seus princípios. É, sem dúvida, uma mudança em sua agenda! Mas como já disse alguém, hoje a arte se confunde com entretenimento e consumo. Parece que ambas as artistas caíram nessa definição.

Na sua opinião, quais serão os desafios que as novas gerações enfrentarão no que se refere às lutas femininas? 

Antes encerrada em espaços estritos e secretos, onde se exercia o controle disciplinar e repressivo sobre a sociedade, a sexualidade tornou-se pública. Hoje, o sexo se ostenta. Em toda a parte, a maior dose de superexposição é possível por meio de redes e da mídia e o exibicionismo é uma das motivações para seu uso. Divulga-se o ego, sem meios termos. Vivemos numa sociedade narcisista e confessional. Sociólogos explicam que a relação sexual e amorosa democratizou-se. Cada qual busca no encontro com o outro – por vezes, encontros em série – a realização de um projeto de vida e de uma invenção de si. Nada disso é fácil de viver. Mas, asseguram os especialistas, é um mundo de liberdade e invenção.

Muitos dos registros históricos que você resgatou foram feitos por homens. O sexismo e o machismo aparecem neles de alguma forma?

Trabalhei muito sobre fontes eclesiásticas e médicas que são fascinantes por demonstrar as raízes do patriarcalismo e do machismo em nossa sociedade. Mas não descurei em mostrar como as mulheres introjetam esse patriarcalismo e se beneficiam dele. Tudo indica que o problema não é na rua, mas em casa. É lá que elas escondem os sentimentos masculinizados. Muitas protegem filhos que agridem outras mulheres. Não os deixam arrumar o quarto: “Homem não nasceu para isso”! A ideia é tornar marido e filhos dependentes delas em assuntos domésticos, pois muitas são dependentes financeiras deles. Outras calam sobre comentários machistas dos companheiros, incentivam piadas e estereótipos sobre a “burrice” feminina, cultivam cuidadosamente o mito da virilidade. Gostam de se mostrar frágeis, pois acreditam que eles, assim, sentem-se mais potentes. E de ser chamadas de xuxuzinho e tudo o mais que seja convite a comer.

O título de cachorra é um elogio. Acreditam que a feminilidade é um estado natural, a ser conservado, e que todas as despesas aí investidas, até cirurgias que acabem por desfigurá-las, são um bom negócio. São coniventes com a propaganda sexista e com a vulgaridade da mídia. Na TV, aceitam temas apelativos e não se incomodam que estes encham a cabeça das filhas. Conclusão: há uma desvalorização grosseira das conquistas das mulheres por elas mesmas. Esse comportamento ajuda, certamente, a que se continue a cavar um grande fosso entre homens e mulheres, perceptível na questão salarial. É compreensível. Afinal, o chefe teve uma mãe machista! Ora, vivemos um tempo de transformações: na família, no trabalho, nas instituições. Nele, importa eliminar as pendências entre homens e mulheres, mas, sobretudo, aquelas enraizadas dentro de nós.

Quanto tempo levou o processo de pesquisa para este livro?

O livro resultou de muitos anos de pesquisa, vários artigos e livros acadêmicos sobre o tema da mulher e suas lutas, vidas e formas de resistência no passado. Durante dez anos escrevi para O Estado de São Paulo artigos que me permitiram pensar as trajetórias femininas na contemporaneidade. A obra atual resultou do encontro destas duas formas de pesquisa: o ontem e o hoje. Escolhi temas que atravessam quinhentos anos de história – casamento, maternidade, trabalho, solidão, envelhecimento e corpo – para mostrá-los em suas transformações cronológicas: éramos assim e ficamos assim. O que falta para nos encontrarmos como brasileiras e cidadãs. Onde reside nossa singularidade? As mulheres do século XXI são feitas de rupturas e permanências. As rupturas empurram-nas para frente e as ajudam a expandir todas as possibilidades, a se fortalecer e a conquistar.

As permanências, por outro lado, apontam fragilidades. Criadas em um mundo patriarcal e machista, não conseguem se enxergar fora do foco masculino. Vivem pelo olhar do homem, do “outro”. Independentes, querem uma única coisa: encontrar um príncipe encantado. Têm filhos, mas se sentem culpadas por deixá- los em casa. Em casa, querem sair para trabalhar. Se cheinhas, querem emagrecer. Se magras, desejam seios, nádegas e o que mais tiverem direito… em silicone. Desejam o real e o sonho, de mãos dadas. São várias mulheres em uma. Buscar o próprio rosto entre tantos outros é o desafio. Mas o maior desafio mesmo é mostrar que elas podem ter um rosto só. O livro não oferece respostas fechadas, mas, deseja, apenas, convidar a pensar nossos rumos.

Recentemente, o grupo feminista internacional FEMEN virou alvo de críticas, particularmente no Brasil. A seu ver, existe uma militância feminista bem-sucedida na sociedade hoje?

As FEMEN surgiram na Europa como grupos com agenda muito definida: luta contra o radicalismo religioso, sobretudo em países de forte tradição muçulmana, luta contra a pauperização das mulheres, numa Europa em crise e contra a violência perpetrada contra o sexo feminino e sua vulgarização pela mídia. Acho fundamental que aproveitemos os itens dois e três, pois o Brasil continua muito violento, machista e pobre. As mulheres negras ainda são as mais atingidas em todos os itens: desemprego, baixa escolaridade e vítimas de violência. Mas acho que a melhor luta seria a de pensarmos em projetos comuns que valorizem nosso sexo.

E a luta pode ter um sentido. Há palavras cuja grafia parecem misteriosamente encarnar um. Assim, “independência”, menos do que lembrar o feriado de Sete de Setembro, significa para muitas de nós autonomia, liberdade em relação a alguém ou alguma coisa, ausência de subordinação e imparcialidade diante de críticas. Lendo a lista de sinônimos, fica-se com a impressão de que ela é quase como o grito do Ipiranga: é independência ou morte! Mas, mesmo que um sentimento vital nos empurre nesta direção, ser independente é bem mais complexo do que apenas respirar. Podemos, por exemplo, nos enganar sobre o grau de independência que desejamos ter. Sabemos, também, que mesmo os imbecis querem ser independentes, ou que há milhares de maneiras de se sentir independentes.

Conclusão? É mais importante defender um valor e um significado para sua independência do que simplesmente decretar “independência ou morte”. Dessa perspectiva, ser independente significa bem mais do que ser livre para viver como se quer: significa, basicamente, viver com valores que façam a vida ser digna de ser vivida. Não basta um estado de espírito. Não basta, como diz o samba, “vestir a camisa amarela e sair por aí”. Tampouco basta sentir-se autônomo, fazendo parte do bando. É preciso algo mais. Ora, um dos valores que vêm sendo retomados pelos filósofos e que cabem como uma luva nessa questão é o da resistência. Na raiz da palavra resister e se encontra um sentido: “ficar de pé”. E ficar de pé implica manter vivas, intactas dentro de si, as forças da lucidez. Essa é uma exigência que se impõe tanto em tempos de guerra quanto em tempos de paz. Sobretudo nesses últimos, quando costumamos achar que está tudo bem, que está tudo “numa boa”; quando recebemos informações de todos os lados, sem tentar, nem ao menos, analisá-las, e terminamos por engolir qualquer coisa.

'As mulheres não respeitam as próprias conquistas', diz historiadora Mary Del Priore

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