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Nola Boo, que trabalhava no ramo da joalheria, largou tudo para ser camgirl em tempo integral. “Me apaixonei pela ideia”, conta

De frente para as câmeras, o nome que carimba o RG simplesmente deixa de existir. Heterônimos e fantasias assumem o comando dos shows que rolam online, onde tudo – ou quase tudo – pode rolar. Sem frescura, censura, roupas ou hipocrisia, a rotina de garotas que ganham a vida como camgirls mistura um pouco de glamour, grana, arte e tabu, já que esse universo ainda é visto com maus olhos por quem está do lado de fora dos chats.

Em salas de bate-papo abertas, como as do MyFreeCam.com, usuários do mundo inteiro podem participar de sessões com duração de 3h, em média. Nesse meio tempo, modelos interagem e criam um espetáculo único para os espectadores – eles são os responsáveis pelas gorjetas e fazem a roda do lucro girar nessa brincadeira, uma vez que as sessões são gratuitas. O que rola lá dentro fica à critério das camgirls, sempre. Ninguém é obrigado a tirar a roupa, usar brinquedos eróticos ou convidar outras pessoas para participar das “sessions”.

“É muito mais que sexo ou fetiche. Funciona como um bar, onde todos querem se divertir e dar risada. Criamos uma comunidade onde todos são amigos, mas nós ficamos com o centro das atenções. Prefiro esses chats gratuitos, porque aí todo mundo pode interagir e se conhecer melhor. No privado você fica mais restrito”, explica a camgirl Gween Black, que está há três anos no MFC.

Entre amigos e espetáculos

Para Gween, tudo não passa de encenação, como o trabalho de um ator. Antes de começar, a ela estuda o personagem, prepara maquiagem, figurino e só então começa a sessão, que pode envolver piscina de tinta guache, torta na cara e outras palhaçadas  e gracinhas que são a marca registrada de Gween.

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Formada em contabilidade, Gween Black só sentiu a veia artística aflorar como camgirl, há três anos. “A nossa autoestima fica incrível nesse trabalho”

Começar não é o problema, muito pelo contrário. Para trabalhar no site, ela só precisou completar um cadastro, mandar algumas fotos, assinar um contrato de liberação de imagem e voilà, estava habilitada para criar shows que, em sua opinião, elevam a pornografia ao status de arte.

“Na arte, corpos nus sempre foram retratados. Em todas as épocas, pessoas que trabalhavam como modelos ou produziam conteúdo erótico sofriam preconceito, sendo que não é nada mais que outra forma de expressão artística. Quando o assunto é pornô, muitas pessoas têm uma opinião equivocada. Todo mundo gosta, mas ninguém admite em publico”, observa.

Apesar de não esconder de ninguém o que faz, justamente para enfraquecer o tabu erótico, Gween sabe que seu trabalho não é querido por todos. Nesses anos, amigos e conhecidos se afastaram, sem grandes explicações. O motivo, naturalmente, está no desconforto que as pessoas sentem perto da garota, como se ela não vivesse um personagem em frente à webcam.

“Nosso trabalho mexe muito com a insegurança das pessoas. Existem alguns casais de amigos que claramente não ficam confortáveis quando estou por perto, mas isso é uma questão deles, não minha. Se meu trabalho é um impedimento para a amizade, prefiro nem ter aquela pessoa por perto, não vale a pena. O mesmo para os que usam a gente de troféu, como se eu não fosse um ser humano,. Gween Black não é real”, diz ela.

O que ninguém conta

O trabalho de Gween foi a grande inspiração da camgirl Nola Boo, que prontamente se apaixonou pela ideia de representar um papel sensual para a webcam e sua audiência anônima. Apesar da liberdade artística do meio, nem tudo é mil maravilhas na vida dessas garotas. Os perrengues também vão além do preconceito daqueles que estão no círculo social de Gween e Nola.

Nos chats e sessões gratuitas, sempre tem aquele troll que, cedo ou tarde, resolve sair das sombras e dar as caras. Para quem não está familiarizado com o termo, trata-se do tipo de sujeito que participa de uma sessão para xingar ou atrapalhar os demais, inclusive as camgirls. “No chat, quem dita as regras somos nós. Não somos obrigadas a manter ninguém na sala”, explica Nola, que não tem problema banir os encrenqueiros. “Foi babaca? Tchau”, completa Gween.

Além dos trolls, a veterana explica que precisa encarar a função de “terapeuta” durante as sessões, outra parte complicada da carreira sobre a qual ninguém fala. O público que consome esse tipo de produto erótico é composto predominantemente por homens, mas nem todos estão afim de sacanagem ou coisas do gênero. Muitas vezes, o que motiva a busca por camgirls é, pasme, a solidão da solteirice.

Em alguns casos, são usuários que acabaram de terminar um namoro ou casamento de muitos anos, que não têm com quem falar sobre dúvidas, angústias e outros assuntos mais íntimos e complicados. Nola também observa os chats como uma possibilidade de interação para aqueles que não levam uma vida social tão animada e falante, na vida real. Era de se imaginar, né?

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Toda ação fica à critério das modelos. Nas salas de bate-papo gratuitas, pode rolar sacanagem, conversa animada ou só uma sessão especial de palhaçadas, para descontrair

Vale qualquer coisa?

Nos chats privados as coisas podem ficar um pouco mais excêntricas, para dizer o mínimo. Um tópico do Reddit, em abril, reuniu vários relatos de mulheres que trabalham como camgirls, garotas de programa, acompanhantes de luxo, entre outras profissões do mundo sexo, com os pedidos mais bizarros que elas receberam de seus clientes.

Uma camgirl usuária da rede social explicou que, de tempos em tempos, um cliente aparece e pede para que ambos simulem uma troca de tiros, especificando as palavras que a modelo deve usar na hora de dar início ao combate. Outra garota relatou que, certa vez, um visitante do chat pediu que ela levasse seu notebook até o banheiro e ficasse debaixo d’água o máximo de tempo possível. Depois de 45 segundos, ela descobriu que ele havia abandonado a sala.

Gween prefere fazer sessões abertas, então não lida com muitos pedidos e desejos “fora do comum” dos clientes. Nola, porém, já viu algumas curiosidades no mundinho fechado dos chats privados, mas faz questão de encarar cada desejo e fetiche sem julgamentos ou preconceito.

“Eu sou uma pessoa tranquila, mente aberta, e já tive alguns pedidos e revelações bem inusitados no chat privado. Um cara, uma vez, pediu que eu fingisse que estava dirigindo e atropelando ele, por exemplo”, lembra ela. Bizarrices à parte, todas ações durante os shows ficam à critério das modelos, que podem ou não topar a brincadeira.

No fim das contas, é importante entender que a decisão de se tornar camgirl é coisa séria, já que fotos e prints das sessões sempre vão rolar na internet. Em algum momento, algum conhecido vai topar com uma foto sua, pode ter certeza. Dá para segurar essa barra e conviver com a ideia de ter “caído” voluntariamente na rede? Se sim, é só se entregar e entrar nesse palco virtual de cabeça erguida!

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