Juliana Paes na série 'Dois Irmãos', da TV Globo

TV Globo Juliana Paes na série ‘Dois Irmãos’, da TV Globo

A minissérie Dois Irmãos, da TV Globo, tem levantado uma discussão interessante sobre a preferência de mães por um de seus filhos, o que isso pode causar e até sobre certa obsessão que mães podem ter por suas “crias”. No caso da série, tudo é extremamente doentio, exagerado e causa uma rivalidade absurda entre os gêmeos Omar e Yaqub, deixando claro que isso foi desencadeado pela preferência de Zana – vivida pela atriz Juliana Paes na fase jovem e por Eliane Giardini quando mais velha -, por Omar, o gêmeo mais fanfarrão.

Na vida real, as coisas podem ser ligeiramente diferentes. Mas se você conversar com mães que têm mais de um filho por aí – nem precisam ser gêmeos, tá? – vai escutar quase sempre que não existe preferência, que amor de mãe é igual para todos os filhos. A verdade é que conversando com a psicanalista Cristiane Maluf Martin sobre o assunto, preferência e amor não são tão interligados assim.

“Ter um filho favorito não é um pecado, é até normal, apesar da maioria das mães não assumirem. A questão não é amar mais ou menos. Existe uma afinidade que varia de acordo com a fase e interesses da criança. Ressalto que os pais devem ter consciência dessa preferência, que existe, para não se sentirem culpados, pois essa culpa poderá prejudicar a dinâmica familiar como um todo, por exemplo, dando mais atenção para um filho do que para o outro”, explicou a especialista.

Juliana Paes em 'Dois Irmãos', da TV Globo

TV Globo Juliana Paes em ‘Dois Irmãos’, da TV Globo

Em entrevista ao Notícias da TV, Juliana Paes falou sobre o amor de sua personagem pelos filhos e fez um paralelo com a sua vida, já que ela é mãe de dois meninos. “Às vezes, a gente tem, sim, mais afinidade com um filho do que com o outro. Às vezes, tem um olhar para um filho que não tem para o outro. Isso é preferir? Isso é amar mais? Eu não sei. Eu acho que é possível você amar igualmente, desejar a mesma coisa e se dedicar tanto para um filho quanto para o outro, sem desmerecer. Mas afinidade é diferente de amor. De certa forma, eu entendo a personagem”, afirmou na ocasião.

Para construir Zana e seus olhares mais amorosos para Omar e cheios de culpa para Yaqub, Juliana se inspirou na própria avó, que costumava dizer que preferia o pai da atriz e tinha olhares muito mais especiais para ele.

A psicanalista Cristiane Maluf afirma que o amor de mãe é “incondicional”, mas pontua que tudo que é em excesso é prejudicial. “Pode trazer consequências negativas para o desenvolvimento do filho. Geralmente são mulheres inseguras, com baixa autoestima, que necessita estar no controle da vida do outro filho (a), para não se dar conta do próprio vazio”, disse ao Virgula.

Inspirados por Dois Irmãos, obra baseada no livro de Milton Hatoum, confira alguns dos tópicos abordados pela psicanalista durante a entrevista exclusiva, que ajudam a desvendar um pouco da relação entre pais e filhos.

Juliana Paes em cena de 'Dois Irmãos', da TV Globo

TV Globo Juliana Paes em cena de ‘Dois Irmãos’, da TV Globo

Você é uma mãe que tem comportamento excessivo em relação ao filho? Como perceber?

Cristiane Maluf, psicanalista: “As mães erram tentando acertar e, geralmente, reproduzem os comportamentos dos modelos que aprenderam com as próprias mães, porém, na maioria das vezes, acabam sufocando seus filhos, impedindo-os de crescer e seguir seus caminhos, pois acabam criando uma relação de co-dependência onde ela sofre e faz sofrer.”

O que fazer para melhorar esse comportamento?

Cristiane Maluf, psicanalista: “O mais indicado é buscar ajuda profissional e iniciar um processo psicoterapêutico, para se conhecer e entender  a co-dependência.”

Mães exageradas e super protetoras, por exemplo, podem criar filhos mais ansiosos. Verdade ou mentira?

Cristiane Maluf, psicanalista: “A superproteção infantil pode ser caracterizada quando os pais querem escolher o próprio caminho dos filhos, não respeitando a autonomia deles. A criança, quando se e sente asfixiada pelos pais, fica insegura, submissa. Para o bom desenvolvimento da personalidade e de caráter, a criança tem que aprender a lidar com as próprias frustrações. A super proteção pode bloquear a aprendizagem e o desenvolvimento devido à lentidão do crescimento do cérebro. Pais super protetores são, em geral, inseguros e ansiosos, por isso é recomendado um processo de psicoterapia familiar para buscar uma dinâmica mais adequada para a família.”

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Filhos únicos são mais protegidos?

Cristiane Maluf, psicanalista: “Ressalto que os filhos mais velhos e os filhos únicos podem ser mais inseguros, pois as mães tendem a proteger mais, aumentando o controle, ou sendo permissiva demais  na educação, não dando limites adequados. Tanto a liberdade excessiva quanto a muito restrita são prejudiciais, porque levam a criança e o adolescente a fazerem uma leitura irreal da vida. Aqueles que são criados com a liberdade excessiva acham que podem fazer tudo, que estão acima das regras, dos limites e das leis. Os que são superprotegidos acham que são um rei em casa e isso se estende a escola, amizades e sociedade.”

O quanto esse tipo de relação ‘excessiva’ pode ser prejudicial para o filho (a) ? E para a mãe?

Cristiane Maluf, psicanalista: “Devido a essa superproteção o número de crianças e jovens inseguros e ansiosos têm aumentado, principalmente, nas salas de aula, onde querem atenção do professor só para ele, pedindo a aprovação para cada tarefa que realiza. Fora da sala de aula, tem medo de se machucar no parquinho, por exemplo, evita ir ao banheiro sozinha (o). São crianças dependentes, que pedem ajuda a todo momento, e esta dependência está diretamente ligada a baixa autoestima. A superproteção causa inadaptação social e leva a criança a ter uma baixa autoestima, porque elas crescem sem a capacidade de tomar as próprias decisões e se sentem incapazes. Na idade adulta, o filho que não estiver preparado para as frustrações poderá até mesmo tentar suicídio ou cometer um homicídio.”

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Mães que têm mais de um filho sempre dizem que não existe preferência entre eles. Isso existe?

Cristiane Maluf, psicanalista: “Ter um filho favorito, não é um pecado, é até normal, apesar da maioria das mães não assumir. A questão não é amar mais ou menos. Existe uma afinidade que varia de acordo com a fase e interesses da criança. Ressalto que os pais devem ter consciência dessa preferência que existe para não se sentirem culpados, pois essa culpa poderá prejudicar a dinâmica familiar como um todo, por exemplo dando mais atenção para um filho do que para o outro.”

Uma mãe que é obcecada por seus filhos, como a Zana, pode acabar criando uma rivalidade entre os irmãos. Verdade ou mentira?

Cristiane Maluf, psicanalista: “A rivalidade entre irmãos sempre existiu, pois a criança está sempre tentando disputar o amor  e a atenção dos pais, principalmente, com os irmãos. Porém, é dever dos pais impor limites nessa rivalidade e estimular trocas de afeto e carinho entre os irmãos. A maturidade da mãe para tratar os filhos de uma forma equilibrada, independente de ter maior ou menor afinidade, é de suma importância pois dessa maneira o ciúme não vai ser estimulado.”

Olho 2A preferência descarada de uma mãe por um dos irmãos pode ser prejudicial para a pessoa que se acha “preterida”? E para a dinâmica familiar como um todo?

Cristiane Maluf, psicanalista: “Sim. Pois a pessoa que se acha preferida, pode desenvolver uma tendência para a manipulação, achar que tudo é fácil de conseguir e não saber lidar bem com frustrações. Diante dessa situação, as outras crianças tendem a se isolar, ter baixa autoestima e criar vínculos mais fortes com os amigos do que com a família. Ressalto que, se a mãe ou o pai tiverem dificuldade para lidar com essa preferência ou perceberem que não estão sabendo dar a mesma atenção para os filhos, o ideal é procurar ajuda de um psicólogo. Por outro lado, há situações específicas nas quais um dos filhos necessita de mais atenção e, nesse caso, o ideal e falar abertamente com os outros irmãos, deixando claro que esse cuidado a mais não têm nada a ver com amar mais.”

Em relação a gêmeos, é comum que os pais tratem os dois como uma pessoa igual, por serem parecidos? Isso pode causar problemas psicológicos também?

Cristiane Maluf, psicanalista:  “Sim. O fato de serem gêmeos e  parecidos não significa que são iguais, por isso não devem ser tratados como tal, pois essa atitude pode causar uma confusão muito grande para ambos, inclusive, na identidade. Ou seja, cada um deles é um ser único. Portanto, é muito importante que os pais procurem perceber as características individuais de cada um para saber lidar com a situação, pois os gêmeos terão necessidades e vontades distintas e isso é importante ser preservado, até mesmo para ficar bem claro que um é diferente do outro.”

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Vivida por Susana Vieira, ela era louca por Marcelo (Fábio Assunção), mas tornava a vida de seus outros filhos um inferno! Coitados de Leonardo (Murilo Benício) e Milena (Carolina Ferraz)
Vivida por Susana Vieira, ela era louca por Marcelo (Fábio Assunção), mas tornava a vida de seus outros filhos um inferno! Coitados de Leonardo (Murilo Benício) e Milena (Carolina Ferraz)
Créditos: Reprodução

 


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"Ter um filho favorito não é um pecado, é até normal", diz psicanalista