Alguém que andasse diariamente pelas ruas de São Paulo no fim da década de 70 certamente se depararia, em algum momento, com o desenho de uma bota de salto alto em um muro qualquer. Era a marca registrada de Alex Vallauri, pioneiro do graffiti no Brasil, que, em tempos de ditadura e repressão à cultura, fazia arte nas paredes da cidade: frangos assados fumegantes, mulheres voluptuosas e ovos com gema cor de rosa. Nesta terça-feira (27), comemora-se o Dia Nacional do Graffiti, marcando o 26º aniversário da morte de Vallauri, precursor de uma arte urbana que tem sido cada vez mais valorizada no País.

“Vallauri foi o primeiro artista a criar um ícone, a botinha, que ele espalhou por São Paulo inteira. Antes, havia mais pichação poética e política. Depois, veio uma série de outros artistas que com o tempo foram se conhecendo e criando uma tribo de artistas de rua, conhecidos como grafiteiros. Esse pessoal criou uma cultura totalmente brasileira, com uma iconografia e um estilo brasileiros”, explica Allan Szacher, artista gráfico e organizador do livro Estética Marginal Volume II (Editora Zupi), que narra histórias da primeira geração de grafiteiros de São Paulo, que incluiu ainda Carlos Matuck, John Howard, José Carratu e Mauricio Villaça, entre outros.

Sobre o objetivo de seu trabalho, Vallauri declarava, “Minha intenção é enfeitar a cidade, transformar o urbano com uma arte viva, popular, das quais as pessoas participem”. E o recado foi captado pelas novas gerações. Hoje, as paredes de São Paulo são enfeitadas da Zona Norte à Zona Sul, da Zona Leste à Oeste (veja na galeria de fotos acima) com trabalhos de artistas – como Os Gêmeos, Cranio e Titi Freak -, que ganharam projeção graças ao graffiti e que, hoje, têm seu trabalho divulgado em galerias de arte pelo mundo.

“A nova geração de grafiteiros herdou muito do graffiti de Nova York, da cultura do hip hop, principalmente. Mas temos uma série de relatos de artistas da primeira e da terceira geração que citam conversas com o pessoal da terceira geração, como Os Gêmeos e o Binho, sobre a cultura brasileira e a criação de um estilo autêntico nacional”, diz Szacher.

Ele acredita que o graffiti brasileiro conseguiu desenvolver características próprias. “Nossos graffiti são muito coloridos. Os Gêmeos se basearam em conceitos da cultura nordestina. O Cranio está ganhando espaço e crescendo pra caramba. Ele resgata a cultura indígena, mas com temas atuais de corrupção, consumismo, massificação, meio-ambiente. Estamos sendo bem representados. A arte tem de ter um conceito forte por trás”, afirmou.

Ainda que valorizado, porém, o graffiti continua a ser, em essência, uma arte marginal. Ele tem de ser, necessariamente, um trabalho realizado ilegalmente, em lugares públicos e sem permissão de donos de muros. É uma arte que transgride e surpreende.

Whip, representante da nova geração de grafiteiros em São Paulo, acredita que seu trabalho possibilita uma aproximação maior das pessoas com a arte, no dia a dia. “Os grafiteiros conseguem se expressar utilizando um espaço cinza que, muitas vezes, é esquecido. A motivação é, basicamente, fazer desenhos que possam interferir na rotina das pessoas. É combinar o seu trabalho com a arquitetura urbana, com a sensação que cada espaço passa. O graffiti é você sentir a vontade de fazer e ir lá e fazer”, afirma.

Veja, na galeria acima, fotos de alguns trabalhos de grafiteiros de São Paulo.

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