A arte é mesmo uma das maiores mágicas fabricadas pelo ser humano. Como explicar que alguns filmes, novelas ou peças de teatro surjam no local e na hora certos? Este é o caso da montagem brasileira do musical americano Mudança de Hábito, em cartaz no Teatro Renault, no centro de São Paulo.

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O espetáculo é baseado no filme de mesmo nome estrelado por Whoopi Goldberg em 1992 – e que teve continuação em 1993. Até aí, nada de revolucionário. Mas ao longo da peça é possível pensar que, talvez sem querer, ela acabe sendo um protesto contra os tempos de caretice coxinha e de neoconservadorismo que o mundo – e principalmente o Brasil – enfrenta atualmente.

Pois a trama mostra as aventuras de Deloris (vivida por Karin Hils, em gloriosa e carismática atuação), uma cantora disco em pleno final dos anos 70, que testemunha um assassinato e precisa se esconder dos criminosos, indo se abrigar em um recatado convento de freiras.

O musical é adaptado do filme homônimo estrelado por Whoopi Goldberg em 1992

A atuação de Karin Hils é um furacão de carisma e talento, apoiada por um elenco adequado e perfeito

Claro que a esfuziante Deloris bota fogo no convento, ao liderar o coro vocal das antes desafinadas e reprimidas freiras, transformando o grupo em um sucesso nacional, com direito a aparições na TV e recital para o Papa (!!!).

Aliás, dá para fazer um paralelo com um caso real: em 2014, a freira (verdadeira) Cristina Scuccia venceu a edição italiana do reality show The Voice entoando surpreendentes versões de Flashdance – What a Feeling, Hero e Living on a Prayer.

Continuando: na peça, o duelo de Deloris com a conservadora Madre Superiora (Adriana Quadros) pode muito bem simbolizar o atual momento da sociedade brasileira – que enfrenta as constantes resistências de certos setores políticos e religiosos, que vivem tentando brecar os avanços das leis e dos direitos humanos.

Basta ver o “movimento” de repúdio à atual novela das 21h da TV Globo, Babilônia, que vem sendo atacada por esses setores, acusada de imoral – porque mostrou um beijo na boca entre um casal de mulheres de meia-idade, entre outras coisas.

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Assim, a personagem Deloris pode ser vista como símbolo de “novos ares” (que ela “sopra” para dentro do convento), em confronto direto com a Madre Superiora (que, embora simpática, simboliza a resistência ao novo, ao moderno, ao livre).

Este texto pode até parecer piegas, mas esperamos que a montagem brasileira de Mudança de Hábito possa incentivar (ainda que inconscientemente) o público a lutar por liberdades individuais, sociais, artísticas e sexuais. Potencial para isso não falta a essa montagem contagiante, vibrante e emocionante.

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