<b><i>Por Betho Lima</i></b>

Começo nosso bate papo, de aproximadamente 20 dias, dizendo como é importante este momento para todos nós – eu, você e o Vírgula.

É importante, porque pela primeira vez na história do jornalismo brasileiro foi aberto um espaço para que as transmissões e programas esportivos recebessem críticas e elogios, como são feitos em várias outras áreas – quando um novo programa é lançado automaticamente os cadernos de televisão trazem sua crítica, assim acontece com uma peça de teatro, ou um filme, mas nunca isto foi feito com o esporte. Justamente o esporte que hoje trás para as emissoras de televisão um grande número de Ibope e um enorme retorno de patrocínio, e que por conseqüência teria a obrigação de ouvir o que os telespectadores acham.

Nossa missão, que começa hoje, não vai ser fácil não, afinal a Olimpíada de Atenas já começa com um recorde, o recorde de transmissão.

Serão mais de 300 canais de televisão transmitindo ao vivo, a OTC ( Centro de Televisão Olímpico de Atenas) disponibilizará 2.000 horas de transmissão por dia, o que resultará em mais de 35.000 horas no total, a TVH ( uma espécie de pesquisa que determina o número acumulado de pessoas que assistem a um evento em relação ao número de horas de transmissão ) está calculada em 39 bilhões de pessoas, o que dá uma expectativa de que 3 bilhões e 900 mil pessoas assistam aos jogos.

A primeira pergunta que fica é como pode-se ter 2000 horas de transmissão por dia?

É simples, uma Olimpíada é composta por várias modalidades, estas modalidades tem diversas categorias, muitas eliminatórias são disputadas ao mesmo tempo, e em todas elas há uma transmissão.

Normalmente o que vemos aqui é uma Olimpíada filtrada, quem determina o que vemos são os diretores de jornalismo das nossas emissoras, que escolhem qual evento vai ser rebatido para o Brasil.

Normalmente, por hora, temos mais ou menos 20 eventos acontecendo ao mesmo tempo. Nos jogos que fiz, eu dizia que o melhor lugar do mundo pra se acompanhar as Olimpíadas não era em nenhum ginásio, mas sim no Centro de Transmissão, já que ali eu estava vendo ao mesmo tempo todos os sinais, meus olhos não paravam.

Imagine você em frente a mais de vinte monitores, todos com uma modalidade diferente, todos de grande importância, afinal não importava quem tivesse ali competindo, ele podia não ser favorito a uma medalha, mas se estava competindo ali, naquele instante, é porque no mínimo ele era o melhor de seu país.
Por isto é que eu digo a função mais difícil na cobertura de uma Olimpíada não é do narrador, do comentarista ou do repórter, mas sim do homem que vai determinar o que você vai assistir aqui no Brasil.

E neste aspecto apesar de todos os jornais estamparem, em suas manchetes, que os jogos de Atenas terão uma cobertura recorde não é bem assim não.

Acredito que o melhor canal pra se assistir os eventos será a Sportv, isto porque ela estará no ar com quatro canais, 24 horas e terá uma opção bem mais ampla de transmissão – o que temos que colocar na cabeça é que nem sempre aonde tem a participação do Brasil, talvez seja o principal fato ou a melhor opção do momento – não sou antipatriota, o que quero dizer, é que para uma pessoa apaixonada por basquete pode ser mais interessante ver o Dream Team jogar do que ver uma partida do Hugo Hoyama no tênis de mesa – neste sentindo ter quatro canais vai facilitar muito, num canal vai estar o Dream Team, e noutro o Hugo Hoyama.

O único inconveniente é que o Sportv é um canal a cabo, restrito a 01% da população brasileira.

A Espn começa a Olimpíada com um pecado que pode ser para ela capital. Ela colocará dois canais 24 horas, o que dará também a emissora um bom jogo de cintura, mas este segundo canal só entrará via Directv e Tva, estará fora do sistema Net e Sky o que reduzirá muito sua guerra particular contra a Sportv e nossa opção por uma melhor narração ou comentário.

Na Tv aberta a coisa vai ser dura, só temos duas opções : Globo e Bandeirantes.
A Rede Globo não vai abolir sua programação, vai viver como sempre de flashs e só vai transmitir algum jogo quando for a “hora H”, a hora da medalha. A emissora acredita que no período que acontecerão as competições a maioria do público estará trabalhando e é melhor fazer resumos dos principais fatos à noite.

Já a Bandeirantes vai estar no ar das 3 da manhã até as 17 horas ao vivo, mas ao meu ver comete um erro, ela aposta no Bandsport, que vai ter dois canais de transmissão, como opção ao telespectador, só que ela se esquece que o Bandsport também é veiculado somente no cabo ( fora da Net e Sky ).

Fica no ar uma pergunta – porque a Band não disponibilizou como uma segunda opção, em tv aberta, o Canal 21? Se ela pode rifar sua programação em seu canal principal, porque não rifar sua programação em um canal que está quase sem programação?

Com esta decisão acredito que a Band perde uma grande chance de oferecer a nós telespectadores uma alternativa de acompanhar melhor os Jogos, e voltar a recuperar um pouco do prestígio perdido em relação ao esporte – vejam como a coisa mudou, quando saí de lá em 1995 a emissora, comandada por Luciano do Valle, era considerada o Canal do Esporte e numa época como esta era sem dúvida alguma, a grande opção do telespectador. Hoje ela é o Canal das Emoções, e se eu perguntar a vocês quem é o narrador principal da emissora nas Olimpíadas, tenho certeza que ninguém me responderá.

Esta pergunta também vale para a Globo, porque a emissora não negociou a transmissão de seu sinal para a Tvs Educativas? Era só rebater o sinal do Sportv, e nós ganharíamos na tv aberta boas opções como a que temos com a Tv a cabo.

Repito – a Tv a cabo no Brasil só atinge a 01% da população.

Por isto não será só em relação ao quadro de medalhas que o Brasil estará longe do mundo, em relação à transmissão também. Só para se ter idéia, aí vão alguns números:

– Nos Estados Unidos, a NBC oferecerá a transmissão total de 1.210 horas (uma cobertura três vezes maior que a de Sydney 2000 e sete vezes maior que de Atlanta 1996).
– A CBC e TSN do Canadá transmitirão mais de 440 horas cada uma, sendo que as duas emissoras tirarão do ar suas programações fixas.
– A CCTV da China transmitirá mais de 600 horas dos Jogos de Atenas. Esta transmitirá 24 horas por o dia.
– Apesar das diferenças desfavoráveis de fuso em comparação a Sydney, a NHK do Japão e o consórcio NAB estão aumentando sua cobertura de Atenas para quase o dobro.
– ZDF e ARD da Alemanha oferecerão 1.400 horas de cobertura – mais de três vezes e meia em comparação a cobertura de Sydney 2000.
– Na França, a cobertura aumentará 42% em relação a Sydney, com aproximadamente 400 horas a mais.
– A TV do Peru oferecerá cinco vezes a mais em relação a Sydney 2000.
– A África do Sul fornecerá 1.965 horas, com três canais 24 horas – Supersport internacional, SABC2 e SABC3 (90% ao vivo).
– Pela primeira vez, o Azerbaijão mostrará ao vivo os Jogos.
– As três televisões da Coréia do Sul aumentarão a cobertura em 50%.
– Diversos países transmitirão ao vivo uma carga extensiva pela primeira vez – Egito (80%), Estónia (75%), Moçambique (60%), e Jordânia (mais de 50%).

Todos os números citados são em relação a Tv aberta. Aqui no Brasil a Bandeirantes promete cerca de 450 horas, sendo que 90% serão ao vivo. Já a Globo, sem abrir mão de sua programação, ficará muito abaixo disto.

Com estes números de transmissão, que nossas Tvs dizem “tão expressivos”, é capaz de qualquer sul-africano ver uma prova de um atleta brasileiro antes de você, e aí você reclama com…

Pode reclamar aqui, afinal este espaço foi criado justamente para receber suas críticas (positivas e negativas) sobre o esporte na televisão.

Betho Lima atualmente é diretor da agência de marketing esportivo, Conteúdo. Foi diretor de jornalismo esportivo da Tv Bandeirantes, diretor de vídeos institucionais e comerciais da Pelé Pro / Sports Marketing (EUA) e diretor do programa BusinesSports (México).

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