Se você reparou na felicidade do Real Madrid no último sábado (24) por ter vencido sua décima Liga dos Campeões, e também viu a tristeza do Atlético de Madrid pelo vice, conseguiu facilmente definir um parâmetro do tamanho da alegria que o Porto teve há exatamente dez anos, ao conquistar o mesmo torneio fezendo uma campanha invejável e colocando o futebol português no topo da Europa como há muito tempo não se via.

Os Dragões eliminaram nas oitavas de final nada menos que o favorito Manchester United. Depois, na fase seguinte, o então papa-títulos da França, o Lyon, voltou para casa. Para ir à finalíssima, era preciso encarar um dos melhores times da Espanha na época, o Deportivo La Coruña. Um 0 a 0 em casa e um magro e guerreiro 1 a 0, na volta, fora de casa, foram mais do que o bastante. A decisão, vencida pelo dilatado placar de 3 a 0, foi sobre a surpresa Monaco, que passara pelos gigantes Real Madrid e Chelsea nos mata-matas.

“Todo jogador que tiver oportunidade de jogar a Champions League tem o sonho de chegar na final, de disputar uma final. E, se chegar lá, ninguém quer perder, né? Para nós, naquele momento foi um sonho realizado”, contou para o Virgula Esporte  um dos protagonistas daquela conquista, o atacante Derlei (foto abaixo), titular absoluto da equipe treinada por José Mourinho, um dos treinadores mais conceituados atualmente.

Para o então camisa 11, ganhar aquela taça acabou sendo uma consequência. O clube já vinha de um bicampeonato português, vencido naquele mesmo ano, e de uma conquista da Copa da Uefa (atual Liga Europa) na temporada anterior. Este último título, que teve gol de Derlei na final contra os escoceses do Celtic, foi um “gatilho” para a conquista que estaria por vir.

“As coisas foram tão naturais para nós… Acho que o que nos preparou para isso foi a conquista da Copa da Uefa no ano anterior e, aí, acabou sendo natural. Existem algumas coisas que vão acontecendo para que outras aconteçam, digamos assim, como a forma como passamos pelo Manchester United, que empatamos o jogo lá (em Old Trafford, na volta, pelas oitavas). Na semifinal, também. Contra o La Coruña, que eles tinham nas quartas de final feito quatro no Milan lá (ida 4 a 1 em Milão e, na volta, 4 a 0 para o Depor)”, lembrou o ex-atacante.

A trajetória foi realmente impressionante. Contra os já citados ingleses, a vitória portista por 2 a 1 em casa na primeira partida ainda dava plenas chances aos Red Devils, clube dos mais temidos. No jogo de volta, com 1 a 0 contra, o empate salvador veio no último minuto, com gol do volante Costinha. Inesquecível, como é possível sentir no vídeo abaixo, gravado por um torcedor português que estava no estádio.

Para a decisão, que o clube não chegava desde 1987 quando conquistou pela primeira vez a Europa (2 a 1 sobre o Bayern de Munique), o artilheiro que não teve muita visibilidade no Brasil relata uma excelente clima que tomava conta do elenco.

“No dia da final, acho que não tinha ninguém com o pensamento de que iria acontecer uma tragédia, ou qualquer coisa assim. Nós tínhamos uma confiança grande que iríamos vencer, realmente”, lembra.

Clima este muito por conta do próprio Derlei. Em entrevista recente para o jornal português A Bola, José Mourinho revelou que ele foi um dos jogadores que mais marcaram sua trajetória como treinador.

“Há algumas semanas recebi, em Londres, a visita do Derlei, e disse-lhe que tive muitos jogadores importantes na minha carreira, mas, se calhar, ele foi dos mais marcantes, porque foi com ele que saltei do União Leiria para o Porto. Foi, no fundo, o grande salto da minha carreira. O Derlei e o Nuno Valente me acompanharam nesse salto e depois estiveram comigo naqueles três anos desde o Leiria ao Porto e do Porto para a conquista da Liga dos Campeões”, contou o treinador, que hoje comanda o Chelsea, da Inglaterra. Abaixo está a foto da visita de Derlei a Mourinho (os dois estão no centro).

Na mesma entrevista, o líder do título de 2004 do Porto ainda fez questão de salientar que ganhar aquela taça em especial foi o maior marco de sua até então jovem carreira.

“Obviamente as recordações são as melhores. Foram tempos fantásticos na minha carreira, que me empurraram para outra dimensão”, revelou.

Outro português que participou daquele elenco campeão foi o atacante Hugo Almeida. Se hoje ele é o parceiro do badalado Cristiano Ronaldo no ataque da Seleção das Quinas que vem disputar a Copa do Mundo, naquela conquista o centroavante tinha apenas 20 anos, e participou de metade da campanha portista, sendo negociado no início de 2004. Ao Virgula Esporte, o jogador que hoje defende ao clube turco Besiktas, relata fatores importantes para a glória do time que acabou deixando antes de poder levantar o troféu.

“O ambiente era fantástico, estavam todos muito focados e empenhados em trabalhar em prol da equipe. Mourinho foi muito importante porque nos fez acreditar que aquele grupo podia e tinha tudo para fazer história, como se veio a confirmar”, disse.

Além de Derlei, outros dois brasileiros foram importantíssimos para esta história. O jovem Carlos Alberto, de 19 anos, e Deco, líder do time em campo, chamado de “Mágico”. Ambos marcaram gol na final diante do Monaco.

“A jogada começa do lado esquerdo e vai até o lado direito, nos pés do Paulo Ferreira. Ele cruza a bola para a área, e lá estávamos o Derlei e eu. A minha intenção era passar para o Derlei. Eu tentei o passe, mas a bola bateu no pé do defensor e voltou para mim. Alguns acham que foi sorte, mas eu acho que sou predestinado, aquilo tinha que acontecer para mim. Quando a bola subiu, não era mais sorte, era a minha qualidade”, vangloriou-se Carlos Alberto em entrevista recente. O meia marcou o primeiro gol daquele duelo decisivo contra os franceses (assista abaixo aos gols daquele jogo).

Recentemente o Porto divulgou que fará um jogo em homenagem a Deco, um dos jogadores mais importantes da história do clube. Será feito um jogo festivo reunindo jogadores das duas conquistas europeias do ex-camisa 10, com Porto e Barcelona, no próximo dia 25 de julho. Craques daqueles dois times farão parte do tributo, como os brasileiros Ronaldinho Gaúcho, Belletti, Edmílson, Thiago Motta (naturalizado italiano) e Derlei, além de Samuel Eto’o, Henrik Larsson, Rafa Márquez, Giovanni Van Bronckhorst, Benny McCarthy, Ricardo Carvalho, Vítor Baía, Maniche e Costinha, entre outros. Os treinadores da ocasião serão os mesmos dos títulos continentais: José Mourinho, do lado portista, e Frank Rijkaard, do lado culé. Tudo isso para mostrar o quão importante Deco foi, principalmente pelo título que hoje completa 10 anos, quando marcou o segundo gol frente ao Monaco e comandou os colegas ao bicampeonato.

“Sabia que o Porto tinha alguns dos melhores jogadores da Europa e, aliado a isso, um conjunto fortíssimo. Além disso, tinha o melhor treinador do mundo. É a receita perfeita para obter o sucesso e isso veio a confirmar-se”, explicou Hugo Almeida, em alusão aos nomes acima citados.

O gol de misericórdia foi marcado pelo meia russo Dmitriy Alenichev, garantindo o título e mais um troféu no museu do Futebol Clube do Porto (foto abaixo).

 

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