Na última quarta-feira (22) o Corinthians enfrentou o Paulista, pelo Campeonato Paulista, em Americana e muitos se questionaram: “Por que o Corinthians, que tem o mando da partida, não está jogando no Pacaembu?”. A responta é simples, mas o que motivou a ocasião já foi esquecido.

No dia 19 de maio de 2013, Corinthians e Santos faziam o último jogo da final do Paulistão, na Vila Belmiro. Eufórica com o título se aproximando, a torcida do Corinthians acendeu sinalizadores, o que é proibido, e por consequência, o clube perdeu um mando de campo na competição de 2014.

A punição ao clube foi só mais uma entre tantas já sofridas, não só pelo Corinthians, como por diversos outros times do Brasil. Infelizmente, as motivações variam desde sinalizadores e latas atiradas ao campo, a guerra entre torcedores nas arquibancadas – além daquelas que acontecem fora dos estádios -, e quando infelizmente não acabam em morte.

Tema constante nas mesas dos presidentes dos clubes, dos juízes dos tribunais e nas pautas jornalísticas, parece que estamos longe de acharmos uma “solução” para este problema, que já ultrapassou qualquer limite de tolerância. Perante este sentimento, o Cruzeiro arregaçou as mangas e resolveu encarar a situação de frente, literalmente de homem para homem.

Além de proibir que seus atletas usem qualquer adereço das organizadas do clube – o que acontece muito na apresentação de um novo reforço -, a Máfia Azul e a Pavilhão, o Conselho Deliberativo foi mais longe e proibiu que essas mesmas entidades utilizem a marca “Cruzeiro”.

“A Polícia e o Ministério Público já foram avisados. O Cruzeiro está sendo penalizado há muito tempo e o Conselho já não estava aguentando mais. O Conselho pos em votação, aprovando por unanimidade a proibição delas usarem qualquer marca do Cruzeiro. A torcida está mal acostumada, ganhava ingresso, passagem de ônibus, agora terão que fazer tudo como qualquer outra pessoa”, explicou o presidente do Conselho Deliberativo, Wilmer Santa Luzia, ao Virgula Esporte.

Mas como qualquer ação tem uma reação, as uniformizadas não deixaram barato e reagiram. Entretanto, a posição do Cruzeiro foi mantida e Wilmer garante que nada fará eles voltarem atrás, muito pelo contrário.

“Nosso presidente teve que trocar de telefone. O Gilvan (Tavares, presidente da Raposa) vinha recebendo ameaças, ele e sua família. Mas assim como nós, ele está firme e não vai voltar atrás. O primeiro passo foi dado e nós não recuamos. Nós reconhecemos que a nossa torcida é maravilhosa, é a coisa mais linda e está sendo prejudicada pelos vândalos. O que acontece é que temos o apoio dos verdadeiros cruzeirenses. Inclusive, estamos fazendo isso pra preservar a família que está deixando de ir a campo por causa deles (brigões)”, disse Wilmer.

Mas o que acontece no Cruzeiro, não é o mesmo que se passa no Corinthians, garante o diretor jurídico do clube, Luiz Alberto Bussab. “O Corinthians não apoia, não participa, não incentiva nenhum torcedor e nenhuma torcida. Não temos vínculo com nenhuma dessas entidades”, deixou claro o advogado.

“Eu acredito que é uma questão de conduta, isso vai ser mudado com o tempo. É uma questão de edução. Não pode visar unicamente as organizadas. O Corinthians entende que o problema da violência não acontece só no futebol. Ela está estabelecida em qualquer lugar. Não é só afastando uniformizadas que vai sanar o problema. Já houveram várias medidas que extinguiram e não é por aí. Tem que haver uma outra conduta para resolver o problema, mas o problema não é do futebol”, explicou Bussab.

A medida mais utilizada para tentar “acabar” com essa violência é punindo os clubes. Em 2013, a Comissão de Turismo e Desporto da Câmara dos Deputados aprovou projeto que responsabiliza clubes esportivos por danos causados por torcidas organizadas (PL 6617/13). Segundo o projeto, de autoria do deputado Jhonatan de Jesus (PRB-RR), os clubes responderão solidariamente por esses danos, quando causados em um raio de até 5 mil metros ao redor do estádio ou durante o trajeto de ida e volta do local do jogo. Para Bussab, aí que está o erro.

 “O Corinthians foi o primeiro a falar que punindo o clube não vai diminuir ou terminar com este tipo de infração. Isto é um caso de segurança pública. Se a pessoa que é individualizada for efetivamente penalisada, na continuidade acaba diminuindo ou quase parando este tipo de coisa. Existe legislação para que seja punida, mas até o presente momento ela não tem sido colocado em prática. O que precisa é identificar o infrator e ele cumprir a pena. Hoje a pessoa comete, não é identificada e no dia seguinte ela aparece. Precisa existir um melhor sistema de identificação para o torcedor entrar no estádio. A soma dessas pequenas coisas acaba diminuindo bastante as infrações”, declarou Luiz Alberto.

 

No último domingo (19), o jogo entre Botafogo (PB) e Sport pela Copa do Nordeste também exibiu cenas lamentáveis. Separados apenas por um cordão formado por homens da PM, as duas torcidas entraram em confronto. Para dispersá-los, os policiais usaram gás de pimenta, que foi levado pelo vento e atingiu os jogadores em campo.

“Antes de qualquer episódio deste tipo acontecer, nós já íamos anunciar a nossa campanha de paz no estádio. Estamos agendando uma reunião com os presidentes de Náutico e Santa Cruz e vamos aprentar, junto à Federação, um projeto para que possamos estar estimulando a paz nos estádios. Queremos fazer em um clássio uma grande recepção à torcida rival, num local na rua. Chamar as famílias dos sócios rubro negro, pintar o muro com mensagens de paz e confraternizar com a outra torcida. A gente acredita que a torcida vai adererir. Acreditamos na onda de positividade, a torcida vai abraçar e quem não participar automaticamente vai ser excluído”, apontou o Vice-Presidente Social do Sport, Jorge Peixoto.

Outros clubes foram procurados pelo Vírgula Esporte, como Palmeiras, São Paulo e Atlético Paranaense para falar do assunto, mas não obtivemos respostas positivas. A verdade é que o Cruzeiro deu um grande passo e gostaria de ter puxado uma fila que renderia bons frutos. Infelizmente, a sociedade como um todo – não só quem gosta de futebol, porque muitas vezes as brigas se espalham em ruas e estações de metrô –ainda é refém  desses elementos, assim como observa com certo pessimismo as ações das autoridades públicas.

“Eu acho que o principal é que os conselheiros dessem apoio aos presidentes para tomar esta atitude. Todos os outros clubes podiam fazer o mesmo, é uma força que precisa existir. Se a gente não acabar com o vandalismo, eles vão acabar com o nosso futebol”, finalizou Wilmer.

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