A seleção de futebol da Bósnia-Herzegovina acaba de conseguir o maior êxito de sua história com a classificação para a Copa do Mundo de 2014, que será disputada no Brasil, criando esperanças para que esta dividida sociedade possa se unir quase 20 anos depois da sangrenta guerra étnica.

Frente à dura retórica nacionalista dos políticos bósnios, a seleção triunfou com jogadores muçulmanos, sérvios e croatas, as três principais etnias que compõem o país. Muçulmanos, como Edin Dzeko, servo-bósnios como Miroslav Stevanovic ou bósnio-croatas como Zoran Kvrzic.

Após o triunfo diante da Lituânia, que selou o bilhete bósnio para a Copa do Brasil, um sentimento de euforia inundou o país balcânico durante dias, com milhares de pessoas nas ruas de Sarajevo para saudar os heróis em seu retorno. 

A classificação “é como uma aspirina psicológica em um país no qual tudo é política, em que a religião é política, até o censo da população é política, e no qual não acontece nada lindo”, comentou à Agência Efe o psicólogo Ibrahim Prohic. “É um dos poucos momentos em nossas vidas nos quais nos sentimos felizes, como vencedores, quando alcançamos por nós mesmos algo grande”, acrescentou.

E apesar de muitos considerarem que o êxito da seleção seria uma oportunidade para unir os três povos bósnios, é pouco provável que a situação mude a curto prazo. A Bósnia, um país de quatro milhões de habitantes, quer se integrar à União Europeia (UE), mas está estagnada há anos por constantes divergências entre os líderes dos três povos. 

Um fator crucial para o êxito da equipe bósnia foi a grande qualidade de seus jogadores, seu profissionalismo, seu trabalho e a disciplina além da origem étnica, destacam os comentaristas.

Vários jogadores bósnios viveram sua infância como refugiados após abandonar o país pela guerra (1992-1995), como o goleiro Asmir Begovic, o atacante Vedai Ibisevic e o meia Miralem Pjanic.

“Desde a infância, só tive dois desejos: ser jogador profissional e jogar para Bósnia-Herzegovina. Estou feliz porque ambos se concretizaram”, declarou à Agência Efe Pjanic, educado em Luxemburgo, aonde chegou com sua família no início da guerra. “Jogar para nosso país, que tanto sofreu, é algo que faz nos sentirmos orgulhosos, que nos dá sempre mais força e encoraja para vencer”, assegurou.

É precisamente esta carga patriótica e um sentimento de dívida com seu país o que impulsiona muitos jogadores bósnios. Outro fator-chave para o êxito foi a estabilização da Federação Bósnia de Futebol (NS BiH), que há dois anos estava à beira do colapso perante a incapacidade de seus dirigentes, escolhidos segundo o princípio étnico.

A Uefa suspendeu então a NS BiH e colocou Osim à frente, que com uma dezena de colaboradores conseguiu normalizar as coisas em somente um ano e meio substituindo os princípios de trabalho étnicos pelos profissionais. Assim, o técnico Safet Susic pôde trabalhar em paz e calma, e o resultado no esporte não demorou em chegar.

A seleção da Bósnia e Herzegovina conseguiu com que o mundo se fixe no país pela primeira vez em anos por um evento positivo e não por divisões étnicas e sequelas traumáticas da guerra, que deixou milhares de mortos e feridos.

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