O ex-goleiro Zetti lançou nesta quinta-feira (12) o livro 1993 – Somos Bicampeões do Mundo, criado em parceria com o jornalista André Plihal. O dia escolhido não foi em vão, e marca o exato 20º aniversário do feito em Tóquio, quando, comandado pelo lendário Telê Santana, ajudou o São Paulo a conquistar sua segunda coroa consecutiva de campeão de mundo.

Na ocasião, além de distribuir sorrisos e autógrafos, falou exclusivamente ao Virgula Esporte  sobre o que viveu no clube em que ganhou mais títulos na carreira, sua aposentadoria e no maior ícone atual do tricolor, Rogério Ceni.

Atendendo antes os jornalistas, o ex-goleiro chegou tranquilamente, acompanhado de sua mãe e já esperado pela filha, que fez questão de acompanhar o lançamento do pai, que ocorria numa grande livraria nas imediações da Avenida Paulista, centro da capital. Filas davam voltas para fora do local e foram muitos os são-paulinos que esperaram mais de uma hora para ter o autógrafo da estrela da noite.

Perguntado se aquele ano lembrado no volume foi o melhor de sua carreira, ficou meio reticente enquanto pensava, e tratou logo de comentar a era mais gloriosa de sua carreira como um todo.

“Acho que foi um dos (anos mais gloriosos). Porque eu já vinha desde o Palmeiras jogando, em 1987, que eu fiquei invicto 13 jogos no Campeonato Paulista (ele ficou três anos no alviverde, até ir para o São Paulo em 1990). Eu vinha numa ascensão muito boa. Só que foi em uma outra época e, de 1990 a 1994, foi o auge de todos os títulos. Paulista, Brasileiro, Libertadores – três vezes em final de Libertadores – Mundial e depois a Seleção Brasileira em 1994 (era o terceiro goleiro no tetracampeonato do Brasil), então, não dá pra dizer qual o ano foi melhor”, disse.

O São Paulo, e o Zetti, só não foram tri da Libertadores porque houve a derrota nos pênaltis a decisão no Morumbi para os argentinos do Vélez Sarsfield, após cada time vencer em casa por 1 a 0 a sua perna da decisão. Um dos maiores “culpados” pelo vice foi o meia Palhinha, que perdeu uma das penalidades e acabou sendo escolhido como o vilão pela torcida. O jogador, porém, é tido por Zetti como um dos maiores responsáveis pelos títulos que o clube conquistou na fase áurea (assista abaixo ao gol e à disputa de pênaltis da finalíssima de 1994).

“Ele ficou muito triste. Nós todos ficamos. O Palhinha é um dos maiores símbolos que nós temos dessa geração, porque ele foi um dos artilheiros, com sete gols na Libertadores. Ele participava direto mesmo, com grandes jogadas. Era um jogador simples, mas com uma atitude muito positiva no grupo. Ficou marcado por um lance que não devia. Pênalti todo mundo está sujeito a errar. Mas não pelo futebol dele, porque ele jogava muito. Além de jogar muito bem, ele ajudava o Müller, o Raí e todos aqueles que estavam presentes a fazer os gols. Era um time muito completo, um conjunto muito bom, e o Palhinha, sem dúvida, foi um dos meias que eu tive oportunidade de ver grandes jogadas mesmo”, contou.

Com diversos títulos, boa fase, convocação para a Seleção Brasileira que foi à Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, fica difícil querer mudar alguma coisa. Não é, Zetti?

“Não, não mudaria não. Fiz história dentro do tempo que joguei, por 430 jogos mais ou menos. Foi dentro do trabalho que eu fiz, dentro da necessidade, da minha condição física. Os dirigentes com quem eu trabalhei foram perfeitos nesse período”, lembra.

Depois, em 1996, foi negociado com o Santos, e quis justificar sua saída do time do Morumbi.

“O Rogério vinha surgindo como uma promessa, eu era um jogador caro… Tudo isso também conta dentro de um clube no momento de renovar. Acho que eu passei na fase certa, na época certa e com grandes nomes. Acho que eu fui um dos atletas que mais atuaram com o Telê Santana. Pra mim é uma honra isso aí”, explicou.

A deixa estava dada, e então o assunto Rogério Ceni foi colocado na mesa. Para quem não sabe, o atual camisa 1 tricolor acertou recentemente uma extensão do contrato por mais um ano. Em 2014, então, um dos maiores ídolos da história do clube jogará com 41 anos, idade que ele completa no dia 22 de janeiro.

Ninguém melhor, então, que o cara que passou a camisa 1 para Rogério comentar essa renovação.

“Achei fantástico. Magnífico para os dois lados. O São Paulo precisa do Rogério, precisa da história dele, precisa da condição física e clínica dele, que é o que ele tem hoje. Ele provou este ano de 2013 que tem muita coisa pela frente”, garantiu, nem precisando dizer que é especialista.

E Zetti ainda foi mais longe na resposta sobre a atual fase de Rogério e a respeito do que pensa do arqueiro que defenderá a meta brasileira no mundial do ano que vem.

“Vou um pouquinho mais longe ainda. Acho que em 2014, com uma Copa do Mundo, se você não tiver um goleiro experiente lá – porque acho que o Júlio César pode se machucar, pode acontecer de não jogar – tem dois goleiros que estão preparados para esta pressão no Brasil, que é o Dida e o Rogério Ceni. São os dois que não teria problema algum de levar para uma Copa do Mundo, com a responsabilidade, com a pressão e com o desempenho físico deles”, opinou o tetracampeão.

Ele, que parou aos 36 anos, sabe que não é só de quantas primaveras passadas que se faz um homem. “Nem pela idade, isso aí ele mesmo (Rogério) provou que não tem idade pra jogar no gol, pra jogar na linha. Temos o Zé Roberto (meia do Grêmio) também, com um grande futebol, o Alex (meia do Coritiba). Acho que não é isso, nós temos que ver clinicamente o que está fazendo para o clube. Eu acho que o São Paulo ganhou muito para o ano que vem e o Rogério também, no sentido de ter tempo de pensar em como vai parar, como vai encerrar a carreira”.

Ainda falando sobre a futura aposentadoria do “pupilo”, Armelino Donizeti Quagliato (nome completo do ex-atleta) pareceu criar uma projeção para o atual arqueiro do São Paulo. Sem ter tido uma despedida no clube em que marcou época, imaginou um quadro perfeito para a aposentadoria das luvas de Rogério.

“Ele pode escolher quantos jogos vai fazer no ano que vem, não precisa jogar todos os jogos. Ele tem que ir se despedindo do futebol aos poucos, e despedindo dos templos do futebol brasileiro e deixar o Morumbi por último, não é? Ele podia deixar o último jogo da carreira dele para o Morumbi, aí sim que seria maravilhoso”, completou.

Projeção esta que, talvez, seja o que o próprio Zetti imaginou ser a perfeita para si mesmo. Sua carreira foi encerrada aos 36 anos, poucos meses após ter ido para o Sport Recife, em 2001. Depois de três temporadas no time da Baixada Santista, também teve passagens breves pelo Fluminense e pela União Barbarense antes de ter ido jogar na capital pernambucana.

“Quando você joga em time grande é muito mais fácil, porque você trabalha menos no gol. Eu falo que você tem que fazer três milagres no gol, em time grande, se você tem uma defesa sólida. E ainda ganha de 1 a 0. Em time pequeno, você tem que fazer dez milagres, mas você perde de 1 a 0. Ninguém passa os milagres que você fez. Então essa é a grande diferença de você começar a rodar (por vários clubes)”, iniciou a explicação.

Nas frases seguintes, um dos ícones do São Paulo em sua era mais gloriosa foi dando mais detalhes de como foi sua parada. Mostrou que não aceitou muito bem o fato de o corpo não responder mais como antigamente. Mas também deixou claro que já pensou bastante as atitudes do passado.

“Eu, quando saí do São Paulo, fui pro Santos e foi maravilhoso. Fiquei três temporadas no Santos, fiz quase 200 jogos, fui campeão duas vezes. Só que quando saí do Santos e comecei a rodar em clubes de menor expressão, todo mundo queria que eu fizesse milagre todo jogo. Eu fazia, mas perdia de 1 a 0, de 2 a 0, às vezes de 6 a 0. Começou a fortalecer em mim uma derrota que eu não queria, porque eu sempre fui vencedor”, disse.

“Eu estava indo em clube não pra vencer, mas pensando talvez na parte financeira, na qual você trabalha sem o objetivo de conquistar títulos, de chegar em uma final. Eu, por ser vencedor, comecei a me cobrar muito. Aos 36 anos, eu já estava partindo para uma situação de encerrar a carreira. Comecei a estudar, a fazer cursos de treinador e foi no Sport Recife que eu saí do treino, pedi pra ir embora, não quis mais saber, já estava triste com o futebol. Comecei a reclamar muito da minha luva, que não pegava, do gramado, que era duro, da bola, que fazia muito efeito. Mas era eu, realmente, que não estava mais aceitando essa situação. Não estava treinando como devia. Foi um momento em que eu voltei para São Paulo e comecei a fazer outras coisas, até voltei a ser treinador do próprio São Paulo (nas categorias de base), por um convite. Foi assim, foi passando, foi acontecendo, e o futebol é muito oportunidade. Às vezes, você não escolhe. ‘Ah, vou encerrar a carreira e vou ser empresário, ser treinador, ser diretor’. Alguém chega para você quando você encerra a carreira e faz um convite, aí cabe a você aceitar e estudar para aquela formação ali e acho que aconteceu um pouco disso comigo”, finalizou.

Zetti, como técnico, passou por equipes pequenas e de porte médio do futebol brasileiro. Agora, porém, quer saber de contar suas excelentes histórias de duas décadas de carreira e da maior glória que teve em um clube, o bicampeonato mundial, vencido sobre o Milan, da Itália, por 3 a 2, em Tóquio.

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