Não é só a quinta posição no ranking da Fifa que faz da Bélgica uma das seleções que podem ir longe na próxima Copa do Mundo. Sua campanha quase irretocável nas Eliminatórias (oito vitórias e dois empates) também a credenciam a tal. Porém, sua geração de jogadores é considerada a melhor da história do país e, jogando em grandes clubes da Europa, dão o vigor necessário para o time do técnico Marc Wilmots.

Wilmots é, inclusive, o último camisa 7 (que jogava como um 10) que a Bélgica teve em uma Copa do Mundo. A eliminação nas oitavas de final diante da Seleção Brasileira no Mundial da Coreia do Sul e do Japão, em 2002, colocou um fim ao feito de cinco participações consecutivas. Os 2 a 0 ainda tiveram um gosto amargo, já que um gol do próprio Wilmots foi estranhamente anulado, e o goleiro Marcos fez grandes defesas, garantindo a eliminação belga (veja alguns lances no vídeo abaixo).

Hoje a história é outra. Se naquela época o time contava com poucos nomes conhecidos, hoje vive uma realidade bem diferente. E incomparavelmente melhor.

Único remanescente de 2002, o zagueiro Daniel Van Buyten, do Bayern de Munique, que era um jovem reserva, hoje é o experiente pilar da defesa, jogando ao lado do capitão Vincent Kompany, do Manchester City. Dupla sólida. A zaga ainda conta com os bons Thomas Vermaelen, do Arsenal, e Jan Vertonghen, do Tottenham. Outros nomes de defensores que chamam a atenção, não só na defesa central, são de Nicolas Lombaerts (Zenit), Toby Alderweireld (Atlético de Madrid), Guillaume Gillet (Anderlecht) e Sébastien Pocognoli (Standard Liège).

Começamos o texto falando da defesa por causa de seus vários nomes que já mostraram qualidade nos gramados da Europa. Jogadores em sua maioria titulares de equipes que realmente brigam nos altos escalões, seja em seus países, seja em plano continental. Só que a posição de goleiro também é bem disputada.

Simon Mignolet, do Liverpool, e Thibaut Courtois, do Atlético de Madrid, garantirão por vários anos uma dura briga para ver quem será o titular. Com 25 e 21 anos, respectivamente, os goleiros já mostraram o motivo que os fizeram defender clubes renomados.

Partindo para posições mais à frente, não há motivos para o torcedor belga diminuir suas expectativas. Os ótimos Marouane Fellaini (Manchester United), Axel Witsel (Zenit), Moussa Dembélé e Nacer Chadli (ambos do Tottenham) ainda têm à sombra Timmy Simons (Nürnberg) e Steven Defour (Porto).

Só que é com o ataque que Wilmots deverá ter uma grande dor de cabeça. Só que daquelas dores de cabeça que todo técnico sonha em ter. Jogadores como Eden Hazard e Kevin De Bruyne (ambos do Chelsea), Romelu Lukaku e Kevin Mirallas (ambos do Everton), Christian Benteke (Aston Villa), Dries Mertens (Napoli) e ainda Zakaria Bakkali (PSV Eindhoven) dão diversas opções de variação para o treinador. A maioria é dotada de muita velocidade e alguns têm categorias de dignos centroavantes finalizadores, sendo perfeitos para um esquema com três atacantes.

Além disso, a posição dos Red Devils no ranking de seleções os colocam como cabeça de chave do torneio, o que garante adversários não tão fortes, escapando de outros que também lhe foi conferido o mérito, como Brasil, Espanha, Argentina, Alemanha, Suíça e Colômbia, além de ou Uruguai ou Holanda (caso a Celeste se classifique na repescagem contra a Jordânia, também garante a posição de cabeça de chave e coloca os holandeses no pote 4).

Todos esses fatores fazem da Bélgica uma muito provável surpresa e a expectativa de chegar até em umas quartas de final é real para corpo técnico e jogadores. A boa fase é compartilhada também por um dos maiores jogadores da história belga, Paul Van Himst. O Polle Gazon, como era chamado quando ganhou diversos títulos pelo Anderlecht, ainda diz que um tempero especial faz os atletas quererem ainda mais realizar um bom Mundial.

 “Vemos que os jogadores querem. Estão cheios de apetite. Devemos também acrescentar a isto um outro fator: o Brasil. Esta é uma palavra mágica que tem o dom de estimular a todos. O Brasil transpira futebol e samba. É algo especial para um jogador de futebol”, disse o ex-atleta em entrevista ao jornal belga La Libre.

Van Himst também foi técnico, e dirigiu a Bélgica na Copa de 1994. Para ele, há algo parecido com o que os jogadores viveram nos Estados Unidos, quando pegaram para si o “sonho americano” para ajudar na campanha. Deu quase certo, já que a campanha foi boa: eliminação nas oitavas de final para uma Alemanha que ainda contava com monstros como Rudi Völler e Jürgen Klinsmann e, é bom lembrar, era a atual campeã mundial.

“Se eu quisesse fazer um paralelo, vou dizer que vejo ali um pouco do que tínhamos nos Estados Unidos em 1994. Havia naquele tempo um pouco do sonho americano que fez os jogadores redobrar seus esforços. Há destinos e objetivos que fazem você sonhar”, opinou.

Sem mais artigos