Alucinante, obscuro, inovador, estes adjetivos ainda são poucos para descortinar a persona de William Burroughs, que completaria 100 anos de seu nascimento nesta quarta-feira (05). Se você pegou carona em alguma estrada, viajou para lugares exóticos que te tiraram do eixo de sua mentalidade ocidental, mergulhou de cabeça na cultura underground (seja ela qual for, música, sexo, drogas, boêmia) ou consegue encontrar lógica e coerência na sua timeline no Twitter com tantas vozes dissonantes falando de diversos assuntos, saiba que o vislumbramento de todas estas possibilidades foram abertas pelo pioneirismo do fundador da Geração Beat. E os artistas da cultura pop não ficaram indiferentes às suas criações. “Como eu odeio aqueles que são dedicados à produção da conformidade”, era uma das frases do escritor ícone da contracultura que tanto fascinava os artistas. 

Burroughs foi um aristocrata, formado em Harvard, de família riquíssima, mas logo entrou no círculo da boemia tanto nova-iorquina como da Costa Oeste dos Estados Unidos. Experimentou todas as drogas, viveu nos círculos literários de “avant-guarde” (foi um dos fundadores da geração beatnik) e vivenciou sua homossexualidade de maneira plena, principalmente depois de sua volta de uma estadia na fervida e empobrecida Alemanha dos anos 1930.

Mesmo assim, casou-se com uma judia alemã Ilse Herzfeld Klaper, muito mais para que ela pudesse fugir do nazismo e conseguir o visto estadunidense. Mais tarde, casado novamente, agora com a escritora beat Joan Vollmer, ele a mata acidentalmente quando erro o tiro na maçã e a acerta. “Estávamos bêbados e brincávamos de Guilherme Tell”, disse na época.

Difusor e divulgador da técnica “cut up” (técnica literária que o texto é cortado e reorganizado de forma aleatória), inventada pelos dadaístas, mas que mundialmente ficou conhecida através de seus livros como Almoço Nu (1959), que depois foi filmado por David Cronemberg em 1991, Burroughs começou a atrair a atenção e jovens  

A roqueira Patti Smith dedica páginas de reverência ao escritor em seu livro Só Garotos (2010). Lou Reed admite que sua obra tem uma dívida gigantesca para o escritor. E a mulher de Reed, a artista Laurie Anderson não pensou duas vezes em colocar em seu filme uma dança esquisitíssima dela com Burroughs.

Abaixo o filme Home of the Brave, de Laurie Anderson que tem um discurso do Burroughs aos 19:51 e a dança estranha aos 22:57

Ele também está na capa do clássico Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band, dos Beatles (John Lennon e Yoko Ono o adoravam) e fez um álbum com Kurt Cobain, The “Priest” They Called Him. 

Foi Burroughs quem inventou o termo heavy–metal e suas parcerias cantando com Sonic Youth ou Ministry mostram que ele gostava de barulho. Tom Waits, Frank Zappa, John Cage, Philip Glass, The Doors e R.E.M. tiveram o escritor em algum de seus trabalhos. E os músicos gostavam dele como prova bem uma famosa entrevista de David Bowie com Burroughs o quanto eles entendiam o que o escritor queria dizer.

Enfim, William Burroughs (com todo seu experimentalismo) é pop! “Language is a virus from outer space”.

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