Não existe nada mais terrível para os artistas do que a censura. Porém, ela acaba sendo um desafio para a criatividade. Como driblar a repressão? Esta pergunta foi respondida de diversas formas durante os 21 anos de Ditadura Militar que o Brasil vivenciou, de 1964 a 1985. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que o país vivia um dos seus momentos mais sombrios, uma geração extraordinária de artistas surgia ou se reafirmava da forma que podia, sempre com inusitada imaginação e jogo de cintura.

O exemplo de Chico Buarque é um dos mais claros. Suas músicas, de cunho social, já nos anos 60, incomodaram os militares. Eles passaram, então, sistematicamente, a censurar toda e qualquer música do cantor que viesse assinada por ele. A saída foi começar a compor com um pseudônimo, Julinho da Adelaide. Uma dessas composições, Jorge Maravilha, que dizia “você não gosta de mim, mas sua filha gosta” foi atribuída como uma menção à filha do então presidente Ernesto Geisel, fato que Chico nega.

Outro momento da mão pesada dos militares foi a censura à música Cálice. Programada para ser apresentada no show Phono 73, ela foi censurada e Gilberto Gil e ele tentaram cantar só a melodia, mas os microfones foram cortados, em uma cena dramática e melancólica do que significou a Ditadura no país.

Em todas as áreas da cultura, a liberdade de pensamento e expressão foi atormentada pelos militares. Já no início do Golpe, o teatro foi um dos mais afetados. A intervenção precisa de Cacilda Becker e a união da classe teatral fez com que os danos, que foram muitos, não fossem mais dramáticos.

A censura correu por toda a parte, no cinema, nas artes plásticas e como disse o diretor José Celso Martinez, recentemente, para o jornal O Globo: “Ou você ia para a luta armada ou para o desbunde”. A atual presidente Dilma Rousseff e o escritor Fernando Gabeira partiram para a ação armada, outros preferiram as viagens de drogas e a liberação sexual que, também, paradoxalmente aconteciam na mesma época.

A classe artística voltou a se unir quando, já na década de 80, com a censura mais branda, aconteceu o movimento Diretas Já. Muitos artistas subiram no palanque pedido a redemocratização pelo voto direto, mas coube a Fafá de Belém, o título de musa do movimento de democratização do país que aconteceria logo adiante.

Sem mais artigos