“Quem é esse McQueen que tá todo mundo falando no Twitter?”, perguntou espantado exatamente um ano atrás um dos repórteres de Esportes do Virgula. A resposta dá a dimensão do estilista Alexander McQueen – que se suicidou no dia 11 de fevereiro de 2010 – e conseguiu, com sua moda, sair do mundinho fashion e se projetar mundialmente como um dos grandes criadores de imagem do século 21. O jovem jornalista podia não saber (nem era de seu métier) quem era esse inglês que injetou altas doses de dramaticidade na moda, mas o mundo ao seu redor – pelo menos virtualmente, os que ele segue no microblog – lamentava a perda.

Afinal, quem era esse McQueen? O garoto de classe média baixa que aprendeu tudo de alfaiataria trabalhando com os grandes mestres de Saville Row? Ou o jovem assumidamente gay que empolgou a experiente fashionista Isabelle Blow mostrando sua primeira coleção? Ou ainda o novo talento da moda que encantou Yves Saint-Laurent que reconheceu seu enorme talento técnico? Ou o rebelde que desencantou a marca Givenchy com sua verve punk dizendo que o estilista francês dono da grife era “irrelevante” e assim ficou por um curto período na maison? Ou será ele o amigo que, quando Kate Moss foi flagrada usando cocaína e o mundo da moda ensaiou virar a cara para a modelo, fez questão de entrar no final de seu desfile e declarar: We love you, Kate [nós amamos você, Kate]? Enfim, será ele o artista que colocou lobos na passarela, fez um jogo de xadrez com suas modelos, refez para a moda a angústia do filme A Noite dos Desesperados (Sidney Pollack, 1969) e nos presenteou com imagens inenarráveis?

Sim, ele é todas essas personas e algo mais. Com ele, se encerra um período na moda, o drama perdeu força e as imagens ficaram mais pausterizadas. 

É muito mais que simbólico o seu suicídio ter ocorrido dentro de um armário.

No armário estão as nossas escolhas e nossos esquecimentos. Lá, onde faremos nosso primeiro contato do que queremos ser, estar ou demonstrar para mundo, é também um espaço aberto do possível. Ou do impossível, pois muitas vezes o abrimos e percebemos que nada que lá tem, nos interessa. Nesse momento não há escolha, só esquecimento.

Para os homossexuais, sair do armário é revelar-se, mostrar-se verdadeiro com os seus desejos, ter feito a escolha certa, entrar em sintonia com a realidade. Na literatura e no cinema, o armário também tem seus símbolos, sempre como um lugar que pode te levar a um outro espaço-tempo, a partir do momento que você se tranca no armário, é possível vislumbrar um outro mundo (irreal ou paralelo) – seja em Poltergeist ou As Crônicas de Nárnia. O armário é o espaço de transe entre a realidade e o irreal, o imaginado.

Alexander McQueen sempre levou dramaticidade e teatralidade para as passarelas, isto é, a fantasia. Como os grandes da moda, deixava a realidade mais intensa porque movia-se – para falar dela – no terreno da ficção, do sonho. Em uma época – essa que vivemos agora – que a moda insiste em ser mais pé no chão e ter apelo (mercadológico) à realidade, ele foi até então um antídoto contra esse novo dogma. Nunca deixou de sonhar. Costanza Pascolato declarou no dia de sua morte: “[A morte dele] encerra um período, a era do prêt-à-porter espetacular”.

McQueen sabia que seu armário era o espaço do transe. Uma porta que abria para outras portas, outros mundos. Mas isso estava começando a ser vetado. “Mais realidade, mais realidade” continuam gritando os empresários das casas de moda.

O estilista inglês nunca esqueceu que o armário é o espaço das escolhas. E por isso ele escolheu o suicídio (sem elegias ou elogios) dentro de um armário. Podemos vislumbrar essa imagem como a volta ao ventre da mãe, que acabara de falecer e era uma pessoa de extrema importância na vida de McQueen. Simbolicamente também, parece ele pedir para religar-se à figura materna, mas também à moda [espetacular] que está falecendo. É uma imagem poderosíssima (talvez a mais) como todas as que ele soube criar para seus desfiles.

Ao encerrar sua vida dentro de um armário, apesar da negatividade arquetípica, McQueen faz uma ação afirmativa ao indicar que as escolhas são nossas e que por isso mesmo podemos sonhar no momento que quisermos, mesmo que todos nos queiram acordados. Enfim, ele era uma libertário!

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