Harris Glenn Milstead, que morreu em 1988 aos 42 anos, completaria 68 anos de vida neste sábado (19). Pelo nome de nascimento é difícil saber de quem se trata, mas pelo nome artístico não. Milstead era conhecido como Divine, drag queen que fez história nos cinemas e nos palcos com um estilo peculiar que flertava o grotesco sem medo algum de ser vulgar.

Divine ganhou sua fama no cinema sendo a musa e a cúmplice do diretor John Waters, tendo participado de dez filmes dele, entre 1966 e 1988, ano em que morreu em decorrência de uma apneia.

Conterrâneo de Waters, Milstead nasceu em em Baltimore, Maryland, Estados Unidos, em 1945. Filho único de uma família tradicional e conservadora de classe média alta, o jovem sofreu desde cedo por conta de seu peso acima da média e seus trejeitos femininos. Precoce, já na adolescência desistiu de tentar se “enquadrar” na sociedade e começou a trabalhar como cabeleireiro e fazer shows de transformista, personificando a atriz Elizabeth Taylor.

Na década de 60, Milstead conhece Waters e, daí em diante, tudo acontece. O jovem diretor já tinha feito um curta controverso (Hag in a Black Leather Jacket, de 1964), mas nunca tinha encontrado alguém que topasse e entendesse tão bem suas perversões estéticas. Do outro lado, a transformista iniciante tinha talento e vontade, mas lhe faltava criar sua persona de drag queen.

Waters então convida para participar do curta-metragem Roman Candles (1966) e Milstead se transforma em Divine, nome aliás, dado por Waters. Os dois formavam, com outros amigos, o grupo Dreamlanders. Eles eram os reis do underground.

Dentre suas criações, em Eat Your Make Up (1968), Divine se vestia de Jackie Kennedy, sequestrava modelos e as obrigava a comerem suas maquiagens. O primeiro longa foi Mondo Trash (1970). Na trama, Divine está em dia rui, e dirige seu carro pela cidade e acaba atropelando um homem nu, que foi preso durante as filmagens por estar sem roupa.

Da parceria dos dois vieram várias produções, sendo a mais famosa Pink Flamingos (1972), em que em uma cena, Divine come as fezes de um cachorro. O filme os consagrou, mas tornou a vida na pacata Baltimore inviável.

Milstead vai morar então em São Francisco, muito mais amigável para com os gays, e onde ele já tinha passado um tempo. No novo lar, ao lado Mink Stole, ele cria o grupo The Cockettes, que apresentava um show de variedades tendo Divine como estrela.

A partir daí, Divine passa a existir tanto na telona, como no teatro. A fama da drag queen aumenta e ela entra na década de 80 no seu auge. É nessa época também que ela começa a fazer shows como cantora lançando quatro álbuns de 1982 (My First Album) à 1988 (Maid England). Dentre seus sucessos, estão Shoot Your Shot e Jungle Jezebel.

A performer chegou a realizar, em 1983, uma apresentação no lendário clube The Haçienda, em Manchester. A casa noturna, dos músicos do New Order, fez história nas décadas de 80 e 90, durante o auge do acid house e das raves, na Inglaterra. O show de Divine no Haçienda pode ser encontrado na íntegra com facilidade no YouTube.

Apesar do sucesso, Harris Glenn Milstead viveu sempre cheio de dívidas e outros perrengues, comuns a alguém tão underground e provocativo quanto ele. Na noite de 7 de março de 1988, aos 42 anos, Milstead, que tinha cardiomegalia (crescimento do coração em proporções anormais), morreu em decorrência de uma apneia, apenas três semanas depois de Hairspray, seu último filme, dirigido por John Waters, estrear nos Estados Unidos.

Após a morte de Milstead, a Receita Federal estadunidense confiscou muitos de seus pertences, com o objetivo de leiloá-los para compensar os impostos que ele não pagou. Em seu túmulo, foram deixadas muitas flores, incluindo uma coroa enviada pela atriz Whoopi Goldberg, com os dizeres: “Veja o que acontece quando você recebe boas críticas”.

Alguns livros e filmes sobre a drag queen mais famosa do underground foram feitos desde então. Entre eles, destacam-se Not Simple Divine (1994), uma biografia escrita por Bernard Jay; My Son Divine (2001), outra biografia, desta vez escrita por Frances Milstead (a mãe de Divine), Steve Yeager e Kevin Haffnan.

No cinema, foram feitos os filmes Divine Trash (1998), dirigido por Steve Yager, e I am Divine (2013), dirigido por Jeffrey Schwarz. Este último integrará o Festival Mix Brasil, que ocorrerá entre os dias 07 e 17 de novembro, em São Paulo; e entre os dias 14 a 21de novembro, no Rio de Janeiro.

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