Tenho visto tanta gente questionar a monogamia tentando relacionamentos abertos ou simplesmente dando um valor menor à fidelidade que já sinto como se a regra hoje fosse o questionamento e não a monogamia. Tanto que dia desses ouvi uma pessoa, casada há anos, falar de traição como algo inadmissível e achei tão last season. Sério. Não que eu defenda ardorosamente relação aberta ou me ache capaz de tal coisa, mas simplesmente olho ao redor e vejo que definitivamente as coisas nesse setor não são mais como eram. A monogamia não parece mais ser a melhor opção em tempos de amor líquido e as outras opções que antes pareciam tão modernas e alternativas estão mostrando sua força como coisas não tão distantes do status quo.

E o que é natural, afinal? Pergunta mais difícil de ser respondida do que “o que querem as mulheres?”. Não vou aqui ficar citando experiências com macacos ou trazendo à tona a história da civilização para alicerçar a ideia do que é natural ou não porque, para mim, se o supostamente ‘natural’ não me faz bem, foda-se ele. A pergunta deve ser “o que é natural para você?”. O que te deixa mais em paz? O que te permite manter sua individualidade, sua essência? O que te mantém produtivo, com brilho nos olhos? Se você considera a pessoa que está com você um parceiro de vida, se quer ter ele ou ela por muito tempo em sua vida será que o caminho mais eficiente e prazeroso é realmente esse contrato de exclusividade que você às vezes segue sem questionar?

O fato é que a maioria das pessoas já entendeu que relações não duram para sempre, que a convivência desgasta o amor e que o sexo precisa de uma novidade pra se manter intenso. Na verdade todo mundo sempre soube, a diferença é que agora tem mais gente parando de fingir que não sabe.

Percebi isso quando escrevi para a Vip sobre traição e recebi muito feedback de amigas e amigos que estavam em relacionamentos monogâmicos antes convictos me contando que andavam questionando muito a monogamia justamente porque queriam ficar com seus parceiros e parceiras por mais tempo. O fato de até meus amigos que eram mais convictos na monogamia estarem a repensando é mais um sinal que mostra a inevitabilidade de alguma mudança na maneira como vemos o amor estruturado numa relação. O que não significa abolir todas as regras e ficar num alalaô sem limites, mas sim resignificar a união entre duas pessoas de acordo com seus valores e suas regras, que não precisam ser as que existem desde o início do patriarcado. E uma compreensão de que essa ânsia por unidade e fusão que o amor traz consigo pode ser justamente ela a causa do fim do tesão, do amor, da incapacidade de ver o outro como outro.

A terapeuta sexual Esther Perel, autora do livro Mating in captivity: unlocking erotic intelligence tem uma opinião interessante sobre isso: “As pessoas que têm relações extraconjugais não necessariamente têm relações ruins. Elas buscam a possibilidade de serem diferentes, buscam renovação pessoal, o que quase sempre é difícil num casamento de décadas. O divórcio, neste sentido, é a reafirmação do sistema – você não acredita que errou de modelo, errou de pessoa”

Já pensou quanta coisa podemos ter perdido por questionarmos a pessoa e não o sistema? Fica pra pensar.

Sem mais artigos