Na hierarquia do trânsito, a bicicleta tem preferência sobre carros, motos e ônibus. Além de ocupar bem menos espaço nas ruas e avenidas, ela não emite poluentes e, de quebra, sugere um saudável exercício físico a seu condutor.

Mas, com tantos automóveis que superlotam as vias de uma cidade como São Paulo, é possível subir numa “magrela” e encarar a imprudência e falta de educação de motoristas apressados e cada vez mais estressados? É realista incentivar o uso da bicicleta num trânsito que está na beira o caos?

Diante dessas questões, o Bate/Rebate desta semana ouviu dois ciclistas paulistanos com opiniões diferentes. O designer gráfico Leonardo Motta, membro do movimento Bicicletada, é um daqueles que coloca a bike nas ruas e exige o respeito dos motoristas. Por outro lado, Paulo de Tarso, ex-arquiteto e fundador do grupo Sampa Bikers, bem que tentou, mas prefere não se arriscar com a bicicleta. Veja o que eles têm a dizer sobre o assunto!

SIM, É POSSÍVEL
Leonardo Motta (Bicicletada)

“Eu acho que é possível usar a bicicleta. Sempre tive vontade de andar com a bike pelo centro, mas não tinha coragem. Foi quando eu passei a trabalhar numa empresa que não me pagava vale-transporte. Pensei: em três meses gastando com passagens de ônibus eu consigo comprar uma bicicleta. E foi o que eu fiz. Quando comecei a andar pelas ruas eu vi que era possível.

O essencial é ter atenção. Ao contrário de cidades pequenas, não é possível ouvir música enquanto você pedala. Também não podemos confiar nos motoristas e é sempre bom olhar para trás nos cruzamento, por exemplo. Há muito desrespeito, mas é possível.

Eu acho que andar no trânsito é até mais tranquilo do que em dias de
final de semana. Geralmente o trânsito fica parado. No final de semana
os motoristas estão mais desatentos e fazem manobras mais bruscas.

Na minha opinião, a ciclovia não é a solução. A solução está na educação dos motoristas.

Eu acho que ciclista não deve andar na calçada. Calçada é espaço de
pedestre. Ando encostado no meio fio, com calma, sempre atento. Assim,
a gente vai tranquilo. Enquanto o trânsito tá todo parado, a gente vai
pedalando.

Se as pessoas deixassem o carro duas vezes por semana já ajudaria o
trânsito e a qualidade do ar. Por que não negociar uma carona? Por que
não trabalhar um dia por semana da sua casa? Tem muitos trabalhos que
podem ser realizados através da Internet, do telefone…

Para quem quer começar, aconselho procurar alguém experiente para obter algumas dicas. Mas isso não é tão importante. O fundamental é pedalar de ouvidos abertos, capacete, e sempre olhar para trás e para os lados. É bom evitar as marginais e avenidas que ficam abarrotadas de carros. Por fim, procure rotas alternativas e nunca ande na contramão.”

NÃO, NÃO É POSSÍVEL
Paulo de Tarso (Sampa Bikers)

“Sempre passeamos pelo centro de São Paulo, mas no horário de pico é perigoso mesmo. Para usar a bicicleta na região central é preciso encontrar uma rota alternativa, já que os carros não respeitam a bicicleta. Aliás, o motorista não respeita nem o próprio motorista.

Eu não estou a fim de morrer. Quando eu ando em regiões de muito
trânsito, acabo andando na calçada mesmo. Mas eu respeito o pedestre,
não corto a frente deles e posso dizer que a grande maioria dos
ciclistas que usam a calçada é assim.

No centro de São Paulo eu não ando de bicicleta. Aliás, não ando nem de
carro. Eu não consigo ir trabalhar de bicicleta por conta de assalto e
do trânsito ruim.

A quantidade de bicicletas em São Paulo é quase igual ao número de
pessoas. Mas a imensa maioria está parada. Ninguém quer se arriscar.

O principal inimigo não são os carros. É a própria CET (Companhia de
Engenharia de Tráfego) que reduz cada vez mais as calçadas e expulsa os
ciclistas das ruas.

De acordo com o Código Nacional de Trânsito, a bicicleta tem
preferência. Mas os políticos sabem disso? Os motoristas sabem disso?
Nem a CET sabe disso…

As ciclovias ajudariam. Mas não seriam suficientes. Temos poucas ciclovias, elas não são fiscalizadas e servem como corredor para os motoboys.

Na Europa já não cabe mais carro. Então, a bicicleta já é uma realidade. Além disso, os europeus têm uma coisa chamada respeito e consciência.

Para as ciclovias funcionarem é necessário que exista um político muito corajoso. Mas ninguém tem peito de ir contra os carros. Esta é uma indústria muito poderosa. O próprio Secretário de Transportes disse que a bicicleta não é considerada um meio de transporte. O fato é: a ciclovia não rende dinheiro aos políticos. E eles só sobem em bicicleta na época das eleições.

Em geral, falta uma política e uma estruturação na construção das ciclovias. Aqui em São Paulo, elas levam o ciclista do nada a lugar algum.”

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