As pessoas poderiam ter sido mais ouvidas na elaboração do Acordo Ortográfico que começou a vigorar em 1º de janeiro deste ano. Para o coordenador do curso de letras da Universidade Estácio de Sá, no Rio, Deonísio da Silva, a forma como foi feito o acordo dificulta a assimilação. “Se a sociedade que usa a língua fosse mais consultada, daria muito menos trabalho [difundir as novas normas]”, considerou.

A língua portuguesa escrita estava “precisando” de uma reforma, na avaliação de Deonísio. No entanto, ele acredita que as mudanças deveriam ter levado em conta as transformações decorrentes do próprio uso do idioma, em vez de dar prioridade às regras formais da escrita. “A reforma não deveria ficar só nos dicionários. Os dicionários estão atrasados pelo menos 40 anos [em relação ao idioma utilizado no cotidiano]”.

Na opinião do coordenador, as deficiências na elaboração do projeto comprometem a eficácia da reforma linguística.”O acordo, do jeito que foi feito, vai demandar outra reforma em breve”, ressaltou.

Até 2012, quando o modo de escrever antigo deixará de ser aceito, os brasileiros já terão incorporado as mudanças, prevê o professor de letras da Universidade de São Paulo Valter Kehdi. Ele reconhece que “a ortografia sempre implica hábitos muito arraigados”, mas acredita que com o uso diário, a nova forma de escrever será assimilada dentro do prazo de transição.

Para ele, o ideal é que as pessoas aprendam as regras mais simples e “esqueçam” as mudanças em relação ao hífen, que são mais complexas. De acordo com Kehdi, o melhor é ter um dicionário atualizado para esclarecer as dúvidas em relação à escrita.

Órgãos governamentais

Apesar da nova ortografia já ter sido adotada por vários veículos de comunicação brasileiros, ainda não foi implementado nenhum programa oficial de divulgação das novas regras. O Ministério da Educação (MEC) informou que produziu uma cartilha sobre o assunto, mas espera por aprovação da Academia Brasileira de Letras (ABL). A versão digital do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), disponível na página da ABL, não foi atualizada até o momento.

O presidente do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), Godofredo de Oliveira Neto, acredita que a difusão pelos meios de comunicação é maior do que a esperada e suficiente para que as novas normas sejam conhecidas pela população. “Até programa humorístico está tratando disso [acordo ortográfico]”, brincou.

Rejeição

Elaborado em 1990, a ideia do Acordo Ortográfico é unificar a maneira de escrever em todos os países que utilizam o português. Porém, ainda existem resistências em relação às mudanças, principalmente em Portugal. Uma petição eletrônica , apoiada por intelectuais lusitanos, conseguiu mais de 100 mil assinaturas rejeitando a reforma.

Para Valter Kehdi, é normal que haja reação maior em Portugal, devido à tradição do país como berço da língua. O professor acredita que o acordo é “desejável”, apesar de discordar de algumas mudanças.

Mesmo com as controvérsias, o governo português manifestou a intenção de que o Acordo Ortográfico entre em vigor este ano.

Opiniões

Pelas ruas, as opiniões em relação à nova maneira de escrever estão divididas – alguns concordam com as mudanças, outros acham desnecessárias e existem até aqueles que ainda não ouviram falar das novas normas.

O artista plástico Felipe Pontes disse que desconhecia as novas regras de ortografia, mas que pretende se informar. “Acho que vou buscar essas novas palavras na internet”.

A analista de câmbio Sandra Ferreira leu sobre as mudanças nos jornais e na internet. No entanto, considerou-se “bem por fora” da nova ortografia. Apesar de não conhecer a fundo as  regras, ela acredita que a padronização da escrita é uma medida positiva. “É legal unificar, já que é a mesma língua”.

Sem mais artigos