O pichador Cripta Djan, 25 anos e um dos líderes do movimento em São Paulo, se define como um “guerreiro da tribo dos escribas underground”. Conhecido como o porta-voz das invasões que abalaram o circuito artístico da cidade e que danificaram as obras de diversos artistas, agora ele enfrenta dificuldades para mostrar seu próprio trabalho.

Recentemente, Djan foi convidado para expor na sede da Fundação Cartier, em Paris. A exposição, que terá sua abertura no dia 4 de julho, pretende mostrar a pichação como um novo estilo de arte e contar a história do estilo através de pichadores e grafiteiros de várias partes do mundo. Entretanto, o pichador não pode tirar seu passaporte.

“Por causa de um processo que corre desde dezembro de 2003 e da pena, que saiu em 2007, perdi meus direitos políticos e não querem liberar meu passaporte”. Na ocasião, Djan foi acusado de vandalismo e penalizado por pichar o muro de um terreno baldio. “O mais ridículo é que nem foi em flagrante, só abordaram a gente com as latas”, conta Djan que já arquivou diversos processos semelhantes.

Para conseguir ir até Paris, ele e seu advogado, Dr. Augusto de Arruda Botelho, agora buscam trocar a pena de 90 horas de trabalho comunitário por uma multa, assim regularizando a situação. Cripta, que pichou de 1996 a 2004 e agora só documenta o movimento, teria que chegar na capital da França no dia 1º de julho para começar a montagem da exposição.

INVASÕES

Em entrevista para o Virgula, além de falar sobre a tentativa de mostrar o seu trabalho no exterior, o porta-voz das invasões da Belas Artes, Bienal e Choque Cultural, comentou sobre os manifestos. “O propósito das invasões é legitimar a pichação como manifestação artística dentro do circuito das artes”, explicou Djan. “Ninguém enxerga o lado artístico das pichações”, adiciona.

Questionado se os pichadores também costumam avariar a pichação de pessoas do seu círculo, assim como danificaram as obras de outros artistas, Djan é claro: “Na pichação a gente costuma respeitar o outro, esse é um princípio básico, mas isso só vale para nós”.

E mesmo apesar das duras críticas que as invasões receberam da imprensa, o importante líder dos pichadores paulistanos acredita que os atos de vandalismo valeram a pena. “Eu acredito que o resultado foi totalmente positivo, porque conseguimos a atenção de muitos críticos e artistas. Bastante gente importante se manifestou sobre os atos”, afirma Djan, que registrou as imagens da manifestação em vídeo.

POLUIÇÃO VISUAL OU ARTE?

A discussão sobre se a pichação é arte ou não sempre causou polêmica. Nos últimos tempos, principalmente por causa das invasões que levaram o assunto para os holofotes da mídia, a questão tem chamado a atenção de diversos críticos. Muitos acreditam que a manifestação não passa de poluição visual e vandalismo.

Para Djan, além de ser uma opção de lazer, de busca do reconhecimento, e forma de expressão, os rabiscos são arte, sim. “A pichação merece ser reconhecida no circuito das artes.

O pichador é um artista e coloca a vida em risco para expressar sua arte, sem nenhuma pretensão financeira”, diz o porta-voz do movimento. “A pichação é a forma que cara que não tem nada na periferia encontra para ser respeitado”, define.

Questionado se a “escrita urbana” – como dizem os pichadores – não polui visualmente a cidade, ele afirma que não e que as manifestações são “estéticas e não agridem nada”. “É muito melhor o cara pichar uma parede para se manifestar do que queimar um ônibus. A arma do pichador é a tinta”, acredita.

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