Viajar nas melodias da banda e esquecer trabalho, prazos e pressões. Esse foi o pedido de ordem de Tom Chaplin, Tim Rice-Oxley e Richard Hughes no emocionante segundo show do Keane em São Paulo. Depois de engatar a primeira música, The Lovers are Losing, o próprio vocalista disse em um português engraçado, mas compreensível: “Esqueçam os seus problemas e divirtam-se”. E foi – muito bem – atendido.

Na verdade, o carisma é a maior característica do grupo inglês e talvez um de seus maiores trunfos. Com comportamento de bons moços, os integrantes conquistaram o gosto dos jovens fãs e até dos papais. O que mais se via no Credicard Hall eram famílias, principalmente nas arquibancadas. E a cada música, um gesto fofo e educado de Tom Chaplin fascinava a nova geração e fazia a fama de “genro dos sonhos das mamães”.

E por falar em boas maneiras, como meninos exemplares que são, fizeram um show redondinho e cheio de clichês, mas que ainda assim não tirou o brilho da noite e nem decepcionou fãs – com exceção da ausência de Bad Dream. O setlist foi bem equilibrado entre os três discos. A segunda música, Everybody’s Changing, tomou o público de assalto e ganhou corinho, como as outras músicas do melhor disco da banda, Hopes and Fears – período em que estava longe das guitarras, laptops e pedais de efeitos.

Novas experiências

Mesmo que a maior qualidade esteja na simplicidade de dois instrumentos (piano e bateria) aliados ao vocal, é interessante ver a evolução da banda e as tentativas de experimentalismo ao longos dos anos. Neste terceiro disco, por exemplo, a banda enfiou de vez o pé nas batidas eletrônicas, talvez para homenagear um das bandas que o fizeram querer cantar para o mundo: o Depeche Mode. Em entrevista, Tim Rice-Oxley já deixou bem claro a influência da banda, apesar de muitos a compararem com o Coldplay e taxá-la de coxinha.

O momento dessa liberdade de experimentar – a banda declarou que gravou e produziu o último disco em Paris, com total liberdade, “como nas sessões do primeiro disco” – apareceram em Spiralling, Perfect Simmetry e Again and Again, todas do terceiro álbum e devidamente entoadas pelo público. A primeira não conseguiu segurar a performance do estúdio e deixou a desejar. A segunda, Chaplin introduziu como uma canção de protesto.

Momento coxinha

A parte intimista do show ficou por conta da sequência de músicas dos três discos: Playing Along, executado apenas por Chaplin ao violão (“só eu e vocês”, comentou); Try Again; e Sunshine. Esta última talvez uma das mais intensamente cantadas. Foi também a ocasião certa para um hábito muito comum de bandas estrangeiras que tocam no Brasil: levantar a bandeira do País e ser ovacionada. Na execução das músicas, todos os integrantes ficaram muito próximos entre eles e do público.

Passadas duas músicas para agitar, You Haven’t Told Me Anything e Leaving So Soon?, estava de volta o momento balada. Chaplin anunciou You Don’t See Me e comentou que era a sua música preferida e da qual tinha mais orgulho. O momento pedia isqueiros e celulares ao alto. E foi exatamente o que o vocalista sugeriu ao público. Momento certo também para beijar a namorada ou namorado ao lado.

Durante estas músicas lentas e que tanto exigiam da performance vocal, a banda aproveitava para estreitar os laços com os fãs brasileiros. Em certo instante, Chaplin falou que “o Brasil é o coração do mundo” e que estava muito feliz de estar de volta à terra do futebol. “Quando viemos para São Paulo nós fomos recebidos calorosamente e ficamos ansiosos para voltar. Mas vocês conseguiram superar tudo hoje, então eu digo que nos verão muitas vezes por aqui”, comentou emocionado.

Power pop na veia

Enquanto a linda performance de Atlantic remetia ao lado sombrio da banda, pérolas radiofônicas conquistavam o público como Bend and Break, no início do show, e Crystal Ball e Is It Any Wonder?, na parte final. O público foi ao delírio com estas duas últimas e supreendeu a banda com a letra na ponta da língua e os pés longe do chão. “Vocês vão fazer o teto desabar”, comentou Chaplin com uma cara nítida de felicidade. Em Somewhere Only We Know, um dos primeiros hits do trio, Tom pediu que todos acompanhassem e foi muito bem atendido.

Se depender dessa energia do público, a banda vai ter passagem certa em todas as próximas turnês (como já prometeram) e quem sabe até presentear os fãs com a gravação de algum DVD por aqui. Talvez mais breve do que a gente possa imaginar.

Veja o setlist do show:

The Lovers are Losing
Everybody’s Changing
Bend and Break
Nothing in my Way
Again and Again
Atlantic
This is the Last Time
Spiralling
Play Along
Try Again
Sunshine
You Haven’t Told Me Anything
Leaving So Soon?
You Don’t See Me
Perfect Simmetry
Somewhere Only We Know
Crystal Ball

BIS
Under Pressure
Is It Any Wonder?
Bedshaped


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