Leandro Roque, o rapper Emicida, está em todo o lugar: vendeu mais de seis mil cópias de sua primeira mixtape, Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, foi indicado ao VMB em três categorias e faz mais de dois shows por semana.

Em entrevista, o rapper falou sobre a importância da cultura de rua para o rap, sobre o sucesso de sua mixtape e relativizou a hegemonia da internet para a divulgação da música. “Sempre achei importante que minhas músicas gerem a necessidade da minha presença”.

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Virgula: O que te inspirou a começar no mundo da música, a fazer rap?

Emicida: Meus pais ajudavam a organizar os bailes lá na Vila Zilda, e eu comecei a curtir, a me interessar por música, porque os equipamentos ficavam guardados lá em casa. Outra coisa que influenciou foi o fato de que naquela época tinha muitos cultos evangélicos. Daí eu voltava pra casa e inventava meus próprios hinos de igreja. Depois, conheci uns caras que dançavam break e faziam uns grafites, daí eu comecei a sair com eles, começamos a fazer uns grafites aqui pela Zona Norte e chegou um ponto em que os caras começaram a fazer freestyle, sabe, um zoando o outro. Eu fazia umas coisas zoadas em inglês, e olha que eu nem sei falar inglês… (risos). Foi o freestyle que me direcionou para o rap.

Virgula: E nessa época música para você era só um hobby, algo que você fazia junto com os amigos na rua. Não tinha essa coisa de viver de música, não é?
 
Emicida: A melhor parada é você fazer música porque você gosta. Acho que tem que ser assim, porque se desde o princípio você condicionar que a sua música vai ser o seu trabalho, você tá ferrado. Eu acho que tudo isso tomou essa proporção porque eu fiz o que eu gostaria de fazer, e se não tivesse virado, eu também estaria fazendo na boa. Mas surgiram tantos shows que eu precisei parar com meus “trabalhos” oficiais para viajar. E a coisa era roots, a gente tocava nos botecos para duas pessoas, em cima de uma caixa de som zoada.

Virgula: E quando veio a idéia de juntar todas as músicas que você já tinha para lançar uma mixtape?

Emicida: Em 2007, uma faixa nossa vazou na internet, que gravaram de um show, e aí foi um estouro. Em 2008, a gente lançou o single, Triunfo, que também foi muito bem, e começou a existir uma expectativa em cima de algum outro material. Mas não queria lançar um disco logo de cara, porque ia ter muita expectativa e eu achava que podia queimar alguns cartuchos. Eu precisaria evoluir mais para lançar um álbum naquele momento. Acho que hoje já dá até pra sentar e pensar, mas não na época.

A mixtape veio como uma opção muito boa, porque a gente poderia lançar muitas faixas, de uma maneira formal, e trabalhar aquilo na rua. E por dois reais, sabe, é meio aquela coisa, não é nem me dá uma mixtape, é me dá um quilo aí! (risos). A intenção era fazer barulho, mas um barulho underground.

Virgula: Nem cogitou em mandar para gravadora então?

Emicida: Algumas gravadoras vieram conversar com a gente. Mas a maneira que elas trabalham rap não me fascinou. Acho que consegui fazer melhor do que qualquer gravadora nesses últimos tempos com o rap. Não vejo nenhuma outra iniciativa que tenha feito tanto barulho. E também tinha outra coisa: se eu não tivesse lançado em março, a gente teria perdido esse momento e até não teríamos mais o tesão de cantar essas músicas. Porque o grande lance dessa mixtape é que a rapaziada que ia nos shows viravam reféns, porque não tinham como ouvir a música em casa. Então a mixtape foi pra eles.

Virgula: Você tinha comentado em uma entrevista que no Brasil não existe cultura de mixtape. De que maneira você acha isso importante para o rap?

Emicida: O formato mixtape é para o rap. Ela é uma parada dos DJs, é até além do rap, é parte da cultura de rua. Isso alimenta aquele mercado que te segue há mais tempo, essas pessoas que frequentam sessões de freestyle, as batalhas de MC. É complicado elas esperarem anos até que venha um novo disco. Então se nós tivéssemos boas mixtapes, poderíamos suprir esse público com material legal e o mercado iria andar de uma outra forma. Os grandes artistas de rap do Brasil não têm o hábito de lançar mixtapes. Agora que está clareando essa idéia na cabeça dos caras e estão surgindo algumas iniciativas.

Virgula: E o que falta para o rap virar mainstream no Brasil?

Emicida: Acho que falta material para suprir a demanda do público. Tem muito grupo bom, mas eles estão bobeando, porque não estão na rua. Tem gente muito boa no myspace, mas esse povo não faz show e não vai pras batalhas, pras rinhas de MC. Não dá pra se contentar com 200 views em uma página. O público do rap é o público da rua, não dá para se tornar refém da internet.

Virgula: Tem gente que inclusive acha que tem tanto grupo surgindo no rap e no hip hop que está acontecendo uma banalização do gênero, e um público que não é das ruas está começando a participar da cena. Você sente isso?

Emicida: De jeito nenhum, eu gosto bastante que o rap esteja se disseminando, que tenha mais gente fazendo e consumindo o rap pelas ruas aí. E os caras que tocam tem que decidir o que querem da vida, porque você não pode ficar escolhendo seu público, selecionando. Se você não quer ser ouvido, porque você tá em cima do palco fazendo shows? Decide se você quer tocar, se quer ficar só fazendo música em estúdio, ou se você quer ficar em casa reclamando. Rap é para todo mundo.

Virgula: Você sempre quis vender sua mixtape na raça, nas ruas, para todo mundo comprar. E vendeu mais de seis mil cópias. Então há fôlego ainda para o lançamento físico? Porque você foi na contramão lançando seu trabalho no corpo a corpo, quando hoje o normal é divulgar na web.

Emicida: Sempre tive medo de virar banda de internet. Porque a gente tinha um milhão de views no youtube, myspace tinha 200 mil plays. Caramba, daí eu pensei, onde estão essas pessoas nos meus shows que eu não vejo? O formato físico está vivo ainda, independentemente da internet. O Brasil tem muita gente, mas nem 10% tem internet. Então acredito muito mais nesse povo que tá fora da web, porque as pessoas estão ouvindo mais música do que nunca. Mesmo que as pessoas comprem o CD e copiem e tal, tudo bem, mas o que importa mesmo, para mim, é que as minhas músicas gerem a necessidade da minha presença.

Virgula: É isso que você quer dizer do medo de se tornar um artista da internet?

Emicida: Meu, tem banda que tem cinco perfis no orkut e tem dois shows marcados em um ano. E eu não quero isso para mim. O rap é ao vivo, é a rua. E na internet não tem toda essa democracia não – no myspace, por exemplo, as bandas que aparecem na página principal não são aquelas que a galera mais ouve.

Virgula: Queria terminar falando do VMB: você foi indicado a três prêmios, e acabou não levando nenhum. Mas a MTV apostou em você, e inclusive criou uma categoria para premiar o rap nacional.

Emicida: Pois é, acho que agora a MTV e muita gente está se ligando que não dá para ignorar o rap. Eu fico muito grato a essa oportunidade de ter aparecido para um público que não me conhecia, e me sinto um vencedor mesmo, porque todo mundo votou em mim. O pessoal veio me falar isso, sabe, fiquei muito feliz, os caras reconheceram mesmo o trabalho que a gente faz no rap. Me sinto um vencedor.

Virgula: Vi pelo seu twitter que você não pára de compor. Já tem planos para outra mixtape?

Emicida: Eu escrevo todo dia. A gente está pensando se vai lançar agora uma mixtape ou não.  Mas álbum ainda é cedo.

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