Recordes inacreditáveis de Ashrita Furman

O norte-americano Ashrita Furman era um rapaz nerd e pouco atlético que cresceu fascinado pelo Guinness Book, o livro dos recordes. Antes de testar os limites de seu próprio corpo, porém, ele nunca havia imaginado que, um dia, seria o maior recordista da publicação. Hoje, aos 59 anos, ele tem no currículo mais de 500 marcas estabelecidas, sendo que 189 ainda não foram quebradas por outros loucões (dá uma olhada, na galeria aqui em cima, em alguns de seus recordes mais inacreditáveis). Em julho, ele vem ao Brasil e pretende estabelecer algum recorde em sua estada.

Muitas das marcas de Ashrita podem parecer um tanto bobas, é verdade. Ele detém o recorde de maior número de maçãs cortadas com uma espada em um minuto em cima de uma corda bamba (36), a maior escultura de pipoca (6,35 m) e o tempo mais rápido para descascar e comer um kiwi (5,35 s). No entanto, um bocado delas demandam muito preparo físico e técnico, além de resistência de supermaratonista.

Ashrita já andou mais de 130 km (!) equilibrando uma garrafa de leite na cabeça, fez 10 km em 1h22 pulando dentro de um saco e percorreu 19,6 km fazendo cambalhotas sem parar (seu recorde preferido e o que lhe deu mais enjoo). Ele treina duro para estabelecer essas marcas, mas credita sua capacidade de superar limites aos estudos em meditação.

Quando adolescente, o americano tinha ótimas notas no colégio e o físico de um frango (ele apanhou no primeiro dia de aula por ser tão nerd). Seus pais tinham certeza de que ele seria um advogado bem-sucedido, pois o jovem tinha capacidade para entrar em Harvard ou em qualquer outra das melhores universidades dos Estados Unidos. No entanto, aos 16 anos, Ashrita, na busca por “conhecimentos mais profundos sobre o sentido da vida”, tornou-se discípulo do mestre indiano Sri Chinmoy e passou a dedicar sua vida à meditação. Seu pai ficou chocado.

O guru, que acreditava nos esportes como um caminho para a elevação espiritual, incentivou seu discípulo a participar de uma competição de ciclismo em Nova York, que duraria 24 horas. “Eu não tinha treinamento algum. Fiquei em terceiro entre milhares de pessoas, mas nunca havia feito esportes na minha vida. A única forma de alcançar isso foi por meio da meditação”, diz Ashrita, ao Virgula Inacreditável. Imediatamente, ao perceber a grandiosidade de seu feito, Ashrita começou a pensar em formas de entrar no Guinness.

Depois de algumas tentativas, o primeiro recorde aconteceu em 1979: 27 mil polichinelos realizados em 6h45min. A marca foi registrada no livro e, desde então, Ashrita não parou mais. Aqui embaixo, você lê um bate papo que o Virgula Inacreditável teve com Ashrita por telefone. Ele falou sobre suas marcas, sua vida e a falta de vontade de parar, mesmo com a idade avançando. Dá uma olhada.

Como você decide o próximo recorde a ser quebrado? O de soprar um selo por 100 metros carregando uma preguiça no colo, por exemplo, parece bem inusitado…
É possível fazer uma busca entre milhares de recordes no livro ou no próprio site do Guinness, e a ideia é sempre torná-los mais interessantes. O recorde de escalar uma montanha em pernas de pau, por exemplo, quis fazer no Machu Picchu, mas, infelizmente, a polícia me parou no meio do caminho. Gosto de realizar meus recordes em lugares diferentes. Quebrei um recorde no Aquário de São Paulo, pulando corda debaixo d’água. Deveria ser com um peixe-boi no tanque, mas ele estava muito agitado e me atrapalhava muito. Tiveram de colocá-lo em outro tanque. Já fiz coisas em todos os sete continentes. Gosto de realizar aventuras, quebrar recordes em lugares onde nunca estive ou em locais de difícil acesso.

Você quebrou um recorde de pulos em perna de pau no rio Amazonas, também aqui no Brasil. Quantas vezes esteve por essas bandas?
Eu estive no Brasil umas três vezes e pretendo voltar em meados de julho. Eu quero bater um recorde, mas ainda não sei o que vai ser.

Nenhum recorde em específico?
Não. É sempre algo espontâneo, qualquer coisa com a qual eu esteja empolgado no momento. Qualquer recorde seria divertido de bater no Brasil. Gosto muito do país e das pessoas. Tenho bons amigos aí e tive boas experiências.

Muita gente pode achar muitos de seus recordes um tanto bobos. Porém existem alguns que exigem uma porrada de treinamento e preparo, né?
Alguns recordes são mais fáceis que outros. Quando eu andei 130 km equilibrando uma garrafa de leite na cabeça foi realmente duro. Foram quase 24 horas fazendo isso, o que demandou muito treinamento e concentração. Sei que é um recorde bobo. O primeiro a estabelecê-lo foi um palhaço. Porém, a gente precisa praticar bastante, não é fácil. O Guinness vende milhões de cópias todos os anos, e seu site tem milhões de visitantes. Se alguém vê algo que acha que pode fazer, simplesmente vai lá e tenta fazer.

Por que a meditação é tão importante em sua atividade como destruidor de recordes?
Eu acredito que, por meio da meditação, podemos fazer grandes coisas. Meu professor de meditação, Sri Chinmoy, ensinava que, se treinarmos nossa mente para ir para dentro de nós mesmos, podemos realizar qualquer coisa.

Qual foi o recorde mais difícil que você quebrou?
Foi o de maior distância percorrida com cambalhotas para a frente. Realizei em 1986, e ninguém nunca o quebrou. Foram mais de 19 km contínuos, e eu só podia parar para vomitar. Levei mais de dez horas (risos). Temos uma filosofia chamada autotranscendência, em que você usa sua energia interior para empurrá-lo além dos limites. De repente, comecei a repetir um mantra que nunca havia recitado antes, “Eu não sou o corpo, eu sou a alma”. Apesar de estar completamente exausto, segui adiante. Foi um dos meus recordes preferidos. O sentimento de empolgação depois de completá-lo ficou comigo por mais de duas semanas.

Você já desistiu de um recorde por achar que não aguentaria até o final?
Não. Uma vez, porém, eu ia bater o recorde de correr uma maratona fazendo malabarismo com três bolas. Era um dia muito quente. Depois de 20 milhas, eu percebi que não conseguiria fazer o tempo estabelcido. Preferi conservar minha energia e esperar. Um mês depois, fui a um lugar mais frio, em uma montanha, e consegui quebrar o recorde. Na maioria das vezes, os recordes não envolvem tanta dor. Como eu pratico bastante, eu sei o quão difícil é bater determinado recorde.

Você está com quase 60 anos agora. Você pensa no dia em que vai parar de bater recordes por conta da idade?
Não penso nisso (risos). Eu me sinto muito bem. A mente diria, “Eu sou muito velho, é hora de parar”. Mas eu ouço o coração espiritual. Eu estou mais lento, talvez. Meu tempo de 100 metros não é o mesmo. Mas, em geral, consigo fazer tudo o que eu fazia antes. Continuarei fazendo isso por quanto tempo puder. Tem gente que faz bons tempos de maratona com 70 ou 80 anos. É possível. É importante estar sempre feliz e conectado com sua parte espiritual.

Você trabalha como gerente de uma loja de comida natural, em Nova York. Muita gente vai lá para falar com você?
Não muito. Às vezes acontece, mas as pessoas são muito ocupadas em Nova York. Muitos me escrevem e-mails. Às vezes, eu encontro pessoas que ficam inspiradas ou que me procuram por conselhos. Essa parte de motivar as pessoas é uma parte importante do que eu faço.

No fim de 2013, saiu um minidocumentário sobre você que é superemotivo, o The Record Breaker. Há declarações bem bacanas de sua família. O que pensou quando viu o filme?
Eu gostei, foi legal. Mas acho que poderia ter sido melhor. Quando falei com o diretor originalmente, queria que ele concentrasse em minha meditação e em minha parte espiritual, porque é o motivo pelo qual eu faço isso. Ele não tinha uma experiência em meditação, então não conseguiu entender aquela coisa de verdade. Ele focou mais no meu pai. Foi legal, mas não contou a história toda.

O seu pai, no documentário, diz que você é a pessoa mais feliz que ele conhece. Você se considera a pessoa mais feliz do mundo?
Eu não sei se é possível medir felicidade, por isso não poderia afirmar isso. Mas eu acho que sou uma das pessoas mais felizes. A meditação coloca você em um estado de mente positiva. Você está sempre feliz. Não há nenhum dia em que você diz, “Estou triste”.

E esse lance de você praticar o celibato? Para que isso?
Isso é parte do caminho do meu professor. É algo muito tradicional. Muitas pessoas praticam o celibato ao redor do mundo, mas não é algo comum no mundo ocidental. A ideia é que, se você procurar focar suas energias em estar perto de Deus, procurar uma relação física pode ser uma distração. Acreditamos que a alma progride em reencarnações. Não precisamos desses prazeres físicos à medida em que evoluímos.

Assista ao minidocumentário The Record Breaker (em inglês):

Aos 59 anos, maior recordista do Guinness detém 189 marcas e não pensa em parar

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