Não é que o comércio de discos físicos seja um pote de ouro ou algo do tipo (olha só o monte de lojas de CD que têm fechado as portas ultimamente). Ainda assim, em São Paulo, há fãs de música que ousaram abrir lojas de discos nos últimos cinco anos. Esses caras apostam no vinil como bastião dos tempos em que a galera comprava discos para ouvir com amigos, da época em que gostar de um LP era mais do que compartilhá-lo no Facebook. Os CDs, por sua vez, tendem a perder prestígio, cada vez mais.

A Locomotiva foi inaugurada em 2011, na Galeria Nova Barão, no centro da cidade. A loja, que também vende pela internet, começou focada em CDs, mas logo seus sócios perceberam que, comercialmente, valia investir com mais força no vinil. Ter um bolachão novo e lacrado, ainda que custe bem mais caro, tornou-se objeto de desejo para clientes, e, hoje, os CDs ocupam apenas uma pequena prateleira no canto da loja.

Gilberto Custode, 37 anos, fã de rock alternativo, é um dos fundadores da Locomotiva. “É, sim, arriscado ter uma loja de disco. O download pago está crescendo, e o hype em relação ao vinil pode ser só uma coisa de jornalista. Esse é um pequeno nicho de mercado, e as vendas nem aparecem em listas, de tão pequenas. Nosso público é um público minúsculo, mas que gosta de discos e consome. De qualquer forma, não estou nessa pensando em ficar rico; eu faço porque gosto”.

O conceito da loja é levar, aos clientes, boas novidades, escolhidas com cuidado, por um preço honesto. “O fato de a Polysom [a única fábrica de vinil do Brasil e da América Latina] estar lançando coisa para o público jovem quase todo mês é algo que ajuda muito. Também trazemos discos lacrados do exterior, onde o vinil tem ganhado força. Quando eu era moleque, achava deprimente ir a uma loja e encontrar sempre os mesmos discos nas prateleiras, por isso recebemos novidades diariamente”.

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Glauco Félix (atrás), gerente da Locomativa: ‘A proposta é vender LPs novos com preço acessível’

Na rua Augusta, funciona há um ano e meio a Sensorial, uma espécie de loja de discos/ centro cultural/ bar. A Sensorial, para quem não está ligado, ficava na Galeria Independente, no centro, e era uma das lojas preferidas da galera manjada de som até ela fechar em 2006, em razão da dificuldade de vender CDs. Na rua Augusta, ela renasceu como uma loja especializada em discos de vinil, com poucos CDs.

Lúcio Fonseca, 42, é colecionador de discos e um dos sócios da nova Sensorial. Ele era cliente da loja da Galeria Independente e se juntou a Carlos Costa, dono do empreendimento original, para reabri-lo. “Eu era do mercado financeiro e saí do ramo para tocar a Sensorial com o Carlos. Quando conversamos, imaginamos uma loja de LPs com um formato multifuncional. Pensamos em ter um mesmo espaço para tomar cervejas artesanais, assistir a shows e ter lançamentos de livros e discos”, conta.

Ele é otimista em relação ao mercado de vinis novos, mesmo em tempos de dólar alto e indústria fonográfica sem norte, patinando para sobreviver com streamings e dowloads. “É nos momentos de adversidade que você tem de usar sua criatividade e ousadia para se sobressair. As pessoas sempre vão ter carência de música, de produtos e de experiências diferentes, como o vinil. Nosso público não é só o colecionador clássico. Jovens que nasceram ouvindo CDs estão se interessando pelo vinil”.

Lucio Fonseca, 42 anos, reabriu a loja Sensorial com um novo conceito: ser um espaço que integre bar, espaço cultural e loja de discos

Lucio Fonseca, 42 anos, reabriu a loja Sensorial como um espaço que integra bar, centro cultural e loja de discos

O vendedor Wilson Farina, 33, que trabalhou na Sensorial antiga e que, hoje, está atrás do balcão da Sensorial nova, vê diferença no tipo de público das duas fases da loja. “O pessoal que ia à galeria era mais jovem, pelo fato de os CDs serem mais baratos. Aqui, o pessoal está na faixa dos 30 a 40 anos. Quem compra é gente que gosta de música e tem o fetiche pelo vinil. Muitos já têm o disco em MP3 e nem vão ouvir direito o LP, mas querem tê-lo em casa”.

“Para esse tipo de trampo, você tem de estar muito antenado com o que está fazendo sucesso. Às vezes, brincamos, dizendo que vamos desistir de ter tantos discos e passar a vender só os 10 de vinis que saem mais, mas essa não é a intenção. Nós fazemos questão de ter coisas mais obscuras, que as pessoas não encontrariam em outros lugares. Temos também essa coisa de loja de disco, de apresentar sons novos para os clientes. Se alguém aparece procurando Strokes, falamos sobre o Television”, diz o vendedor.

De acordo com Farina, os clientes procuram, principalmente, discos de artistas pós-2000 como Arctic Monkeys, The Strokes, Queens of the Stone Age, Jack White e Criolo. “Nosso catálogo de CD é meio que um resumão do que temos em vinil”.

O vendedor Luis Oliveira, 45 anos, em uma loja de CDs no centro de SP: 'A maioria das lojas já fecharam; não vai demorar para eu ter de arranjar outra coisa para fazer'

O vendedor de CD Luis Oliveira: ‘Gosto de música e gosto do que faço, mas não vendemos como antes’

CD sem moral
A reportagem do Virgula Inacreditável até tentou, mas não achou lojas de disco novas que não trabalhem com vinil. Passamos por algumas das lojas de CD que insistem em existir no centro e trombamos Luis Oliveira, 45, vendedor de discos há 24 anos. “Comecei na época do vinil e da fita cassete. Hoje, CD não vende. A maioria das lojas fechou. Acho que não vai demorar tanto tempo para eu ter de achar outra profissão”, lamenta.

Ali perto, na Galeria do Rock, onde existiam 84 lojas de disco há uma década, hoje há apenas 18. A Baratos Afins, aberta desde 1978, é uma das que resistem bravamente. Luiz Calanca, 62, proprietário e fundador da loja, credita a sobrevivência de seu empreendimento ao fato de ele sempre ter investido no vinil, mesmo quando o CD dominava o mercado.

“Só sobreviveram as lojas da galeria que tinham um bom estoque e uma boa variedade de vinis. Hoje, eu vendo muito mais vinil do que CD. As lojas de CD foram fechando uma loja atrás da outra, pois a mídia perdeu totalmente o glamour. Eu me considero um sobrevivente e, agora, estou rapando o tacho. Gosto de paixão do que faço, mas, se fora para parar, já me considero realizado”, diz Calanca.

E ele acha que vai ver a morte das lojas de disco? “Pode ser que eu veja o renascimento, já que tem lojas abrindo agora. No entanto, para começar uma coisa dessas, você tem de ter uma estratégia bem definida. Não dá para ter loja de disco sertanejo na rua Augusta, onde só anda bacaninha. Você tem de ter um público específico, mas nunca menosprezar o gosto musical do cliente. O que é certo, no fim, é que a música nunca vai acabar. A música boa sempre vai dar um jeito de ser vendida”.

Luiz Calanca, fundador da loja de discos Baratos Afins, fundada em 1978: catálogo de vinil segurou o negócio

Luiz Calanca, da Baratos Afins, sobreviveu na Galeria do Rock por causa da insistência em investir no vinil

 

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