“Todo artista tem de ir aonde o povo está”, cantou nosso bróder Milton Nascimento na música bonitona Bailes da Vida. Se você está em São Paulo, a maior cidade da América do Sul (“Baby, baby, I love you”), esse lugar é a Avenida Paulista, por onde passa 1,5 milhão de pessoas diariamente. De segunda a segunda, músicos dos mais diferentes estilos empunham guitarras, violões, percussões e instrumentos afins para tocar na calçada paulistana.

Em São Paulo, dá para se apresentar na rua sem problema. Uma lei municipal aprovada em maio de 2012 estabelece que artistas podem utilizar lugares públicos para mostrar sua arte, desde que não obriguem os espectadores a pagar por isso (passar o chapéu é tranquilo). Eles só precisam achar um lugar sossegado para mandar bronca no som.

O Virgula Inacreditável subiu a Paulista e conversou com alguns dos músicos que mostram talento por lá. Olha quem a gente trombou.

Evil Surf (Fernando “Loko” Ilha, Tommy Headon e Henrique Bernardes)

Quando chegamos à esquina com a Rua Augusta, nos deparamos com um trio de visual punk, formado pelo guitarrista Fernando Loko (ele apenas riu quando perguntamos sobre a origem do apelido), o baixista irlandês Tommy e o batera ruivo Henrique. Parece meio sem noção tocar com uma banda inteira em plena Avenida Paulista. E é. Fernado, 24 anos, falou com a gente.

“Fomos a primeira banda a tocar na Paulista, e isso é nosso emprego. Sustento meu filho e pago aluguel me apresentando na rua. Às vezes, os vizinhos reclamam do barulho, sempre tem uns perrengues, mas a gente dribla o sistema. A Paulista tem a vibe do rock, tocamos desde Jimi Hendrix até Red Hot Chilli Peppers. Temos liberdade para trazer cultura às pessoas, sem que elas tenham de pagar para ficar enclausuradas em um lugar, e isso é muito importante. Nós sempre chegamos aqui de transporte público. Eu venho de ônibus e o Henrique carrega a bateria inteira em um carrinho, no metrô. O problema maior é que você simplesmente não pode ficar doente, senão fica em casa sem ganhar dinheiro”.

Bruno Kioshi

Usar baldes como bateria é a praia de Bruno, 24 anos, que se apresenta no começo da Paulista, perto da Rua Consolação. Ele encontra seus “instrumentos” em caçambas de construção ou os compra usados, por um preço bem em conta.

“Eu tive a ideia de tocar com baldes por causa de outros músicos que fazem isso fora do Brasil. Nos anos 80, um cara chamado Larry Wright já batucava em baldes em Nova York. Como eu já tocava bateria, me aventurei a fazer isso. Estou evoluindo e estudando. Faço faculdade de engenharia elétrica e trabalho na área. Tocar na rua me ajuda a pagar a mensalidade e a tirar uma grana para me sustentar. Acho que nossa principal função é trazer a galera de volta para a rua, porque cada vez mais o pessoal fica enfurnado, só sai de casa para ir para outro lugar fechado. A rua, que é um espaço nosso, não está mais ocupado por gente”.

Alexandre Matos da Gama

Alexandre, 29 anos, estava com seu violão encostado quando o encontramos perto do prédio da Gazeta. Com um ensaio da bateria da Faculdade Cásper Líbero acontecendo a 10 metros de lá, ele só conseguia fazer com que seu instrumento fosse ouvido quando os batucadores paravam. No entanto, mudar para outro lugar não era uma opção.

“Eu conheço uma galera que trabalha por aqui, e eles indicam outras pessoas para chegar e ouvir meu som. Virou um ponto fixo. Eu dou aula de geografia no ensino médio e fundamental e venho tocar aqui umas três vezes por semana. Toco Coldplay, Foo Fighters, Kings of Leon, Bruno Mars. Também escrevo poemas. Se a pessoa contribui, eu escrevo um poema para ela. Eu já tentei tocar em outros lugares da Paulista, mas você acaba concorrendo com outros músicos. Nós não combinamos os pontos da avenida em que cada um deve ficar, mas rola uma ética profissional. Ninguém atrapalha o trabalho do outro”.

Paulista com Farofa

Perto do MASP, uma roda de samba seguia animada com churrasquinho e cerveja. Giuliano Giovanetti, 28 anos, um dos organizadores da performance musical, explicou que aquilo era o Paulista com Farofa, um projeto que começou como um happy hour na Paulista e se tornou um movimento.

“Esse é um movimento de reocupação do espaço público em prol da cultura, da gastronomia e da diversão. Para manter o projeto, nós fazemos uma vaquinha de R$ 15, em que os participantes ganham cinco espetinhos de churrasco. Não temos um grupo fixo. Todo último sábado do mês, um grupo de amigos vem tocar samba de raíz e pagode dos anos 90. Dessa vez, veio um pessoal da Mocidade, do Rio, tocar com a gente”.

Maraia Takai e Mar Percussa

Mar e Maraia são pai e filha que vieram de Porto de Galinhas (PE) a São Paulo há dois anos para mostrar sua arte. Ele toca percussão; ela canta e toca violão. Maraia começou a cantar profissionalmente aos 12 anos, e seu eclético repertório inclui rock, pop e MPB (coisas no naipe de Creedence, Beatles, Michael Jackson, No Doubt, Marisa Monte, Cícero e Tom Jobim).

“Quase todos os dias estamos aqui. Tocamos na Paulista porque ela é o coração, o cartão-postal de São Paulo, o melhor lugar para mostrar o talento da minha filha. Somos de uma família de músicos. A mãe dela também canta. Quanto à variedade de estilos, acredito que há apenas dois tipos de música: música ruim e música boa. A gente gosta de música boa”.

Diego Goldas

Com visual de líder de banda folk, Diego, 29 anos, cantava Michelle, dos Beatles, quando o encontramos perto do parque Trianon. O rapaz, que veio do Rio Grande do Sul para tentar a sorte em São Paulo, vive de tocar na Paulista e acha o maior barato ter sua arte reconhecida por moradores de rua.

“Tocar na rua, para mim, é mais do que profissão. É prazer. A Paulista tem mais a cara do rock, diferentemente do Centro, em que o pessoal curte mais sertanejo e baião. Tocar na rua é diferente de tocar em um bar. Lá, entra quem tem grana para pagar entrada. Aqui, toco para engravatados e para gente que não tem nem chinelo no pé. Os moradores de rua contribuem muito. Eles dão moedas, sentam ali e se emocionam com alguma música que os fez lembrar da infância. Quando o movimento está fraco, eu me arrisco a tocar alguma música autoral. Estou gravando um CD agora”.

Nando Lynch

Com uma voz rouca, meio Bob Dylan, Nando, 55 anos, se apresentava em frente ao Conjunto Nacional. Ele viveu em Londres por 12 anos e voltou ao Brasil para viver como músico de rua, tocando bossas como Simon & Garfunkel, Johnny Winter e outras velharias de qualidade.

“Já toquei em muito bar e restaurante, mas o bom de tocar na rua é o calor humano, estar ao ar livre. A Paulista é onde está a cultura da cidade, tem muitas livrarias e cinemas. Só é um saco quando os bêbados chegam e ficam enchendo para eu tocar música que não conheço”.

Diego Pestana

O cara parecido com o David Bowie que toca guitarra na esquina com a Augusta é Diego, 29 anos, fã de músicos virtuosos como David Gilmour, Ritchie Blackmore e Yngwie Malmsteen.

“Além de tocar na rua, eu sou produtor, arranjador e luthier. É um trabalho, mas, para mim, a cultura está acima do dinheiro. Sou de Americana (SP) e, quando cheguei em São Paulo, quis fazer o que os caras fazem nas ruas de Londres. É uma realização pessoal e o sonho de muitos anos”.

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