Fundador e vocalista do Pavilhão 9, banda que fez sucesso no fim dos anos 1990 com a união de elementos de rap, rock e hardcore, Rhossi, 40 anos, foi um precursos dos mascarados que nos últimos meses tomaram a mídia de assalto.

De volta a indústria com #AHoraÉAgora (Loop Play Discos), que traz referências do rap gringo como Bad Meets Evil, Rick Ross, 2 Chainz, Kendrik Lamar, Mac MillerDanny Brown e Riff Raff, o músico comentou ao Virgula Música, entre outros assuntos abordados, como foi, de certa forma, profético em relação ao black block. “Cantei durante dez anos usando a máscara que se transformou no símbolo da banda Pavilhão 9. A máscara virou uma espécie de proteção (risos). Mas sempre disse que também representa o rosto das pessoas oprimidas”, afirmou.

Veja teaser do disco

Rhossi, no entanto, condena a violência e culpa o governo pelos protestos. “Minha opinião é não concordar com violência e destruição de patrimônio. Sabemos que existem pessoas inteligentes que se infiltram em movimentos legítimos para distorcer uma reivindicação. Eles deveriam usar a inteligência black block para aproximar o povo de suas ideologias, e não a violência. Ressalto que este movimento só está acontecendo por culpa maior do governo e que no ano que vem, teremos Copa do Mundo e eleição. Não podemos ignorar e fingir que é passageiro”, disse.

O rapper, que lança #AHoraÉAgora na Livraria Cultura do Shopping Bourbon, em São Paulo, na quarta-feira (27), concedeu a entrevista, por e-mail. Leia a seguir.

O que o tempo trouxe para a sua música e para a sua vida e como uma coisa afeta a outra?

Hoje estou mais experiente musicalmente, tive oportunidade de tocar com mestres, como Bi Ribeiro, dos Paralamas do Sucesso, e toda esta bagagem eu trouxe para o meu disco solo. A música me abriu muitos caminhos, abriu a janela da percepção. Não consigo separar a pessoa do artista, acredito que os dois caminham juntos. Quando cometo algum erros e acertos na vida pessoal, isto reflete na vida profissional. O importante é você estar de bem com o que está fazendo.

Em retrospectiva, seu uso de máscara no Pavilhão soava até profético. Porque, se não me engano, na época você dizia que usava a máscara para não sofrer represálias da polícia. E isso é o que chamam hoje de tática black block. Você concorda?

Realmente, cantei durante dez anos usando a máscara que se transformou no símbolo da banda Pavilhão 9. A máscara virou uma espécie de proteção (risos). Mas sempre disse que também representa o rosto das pessoas oprimidas.

Sobre a “tática” black block, pelo que sei, este movimento começou há dez anos na Europa, especificamente na Alemanha. Minha opinião é não concordar com violência e destruição de patrimônio. Sabemos que existem pessoas inteligentes que se infiltram em movimentos legítimos para distorcer uma reivindicação. Eles deveriam usar a inteligência black block para aproximar o povo de suas ideologias, e não a violência. Ressalto que este movimento só está acontecendo por culpa maior do governo e que no ano que vem, teremos copa do mundo e eleição. Não podemos ignorar e fingir que é passageiro.

A máscara chegou a ser proibida em alguns estados, como o Rio, acha que é um direito poder usá-la?

A utilização de máscaras já é coisa antiga, proibir pode não dar em nada. Mas acredito que a proibição de máscaras em manifestações, se for para evitar violência e destruição de patrimônio, pode ser bem-vinda. Como disse, eu usava a máscara no Pavilhão como proteção a retaliações às minhas ideias – não para praticar a violência.

Rhossi – Tempo Bom

Quais são as principais diferenças estéticas e mercadológicas da cena musical de hoje em relação ao auge do Pavilhão 9? 

Em relação a estética, hoje tudo está mais moderno, novo, temos mais tecnologia. Musicalmente falando, as produções melhoraram, não tínhamos computadores, maquinas para produzir, hoje está muito fácil ter um estúdio com qualidade internacional na sua casa.

Mercadologicamente falando, as pessoas mudaram, o público é outro e as bandas de hoje – sinceramente – parecem repartições públicas, tudo muito certinho. Em relação ao auge do Pavilhão 9, era tudo mais natural, desde a forma de criar uma música até a forma de se apresentar. E quando uma banda estava fazendo algo legal, a mídia vinha atrás da noticia.

Hoje as bandas e os grupos contratam uma assessoria para fazer com que o seu trabalho seja reconhecido, mesmo que a banda ou grupo não tenha talento. Mas no final, é sempre o povo quem vai escolher.

A sonoridade do seu disco tem algumas faixas que lembram o trap, do sul dos EUA, que ficou conhecida com o Harlem Shake, em outras é mais funky. Que nomes do rap que você mais gosta, que tenham sido referência?

Na sonoridade do disco temos como referências Bad Meets Evil, Rick Ross, 2 Chainz, Kendrik Lamar, Mac Miller. E no álbum ainda tem a faixa “Mais uma Vez” produzida pelo Mr. Bomba, que curte Danny Brown e Riff Raff, e que traz esta estética mais trap com baixos graves e timbres mais agudos.

No lançamento de single Tempo Bom, você fez uma homenagem a Champignon. Quais você acha que tenham sido as maiores colaborações que sua geração deixou para a música?

Músicas como Fim de Semana no Parque (Racionais MCs), Proibida pra Mim (Charlie Brown Jr.), Minha Alma (O Rappa), Da Lama ao Caos (Chico Science & Nação Zumbi), Legalize Já (Planet Hemp), Mandando Bronca (Pavilhão 9) e outras, dos Raimundos, por exemplo, marcaram uma geração e mudaram o cenário musical no Brasil. Deixaram um legado e asfaltaram o caminho para muitos que hoje aí estão.

Misturar rock e rap foi quase um modismo nos anos 90, quais foram os melhores e piores frutos disso?

A união com o rock aconteceu de uma forma natural pra mim. O skate proporcionou esta fusão e também caras como o João Gordo (Ratos de Porão), Edu K (DeFalla), Igor e Max Cavalera. O melhor fruto foi que geramos um estilo musical, bem antes de bandas como Korn, Limp Bizkit, Slipknot, Linkin Park etc. A pior parte foi que muita gente na época não entendia o que queríamos com esta mistura, era quase como misturar óleo e água na visão de alguns (risos).

Que tipo de fusão o rap nacional ainda não experimentou e que poderia ser um caminho?

Que tal misturar rap com arrocha? Só não sei se é o caminho (risos).

Por que no rap americano The Roots pode fazer um som com Miley Cyrus e ninguém fala nada e aqui se os Racionais fizessem algo com uma cantora pop brasileira, sei lá, uma Kelly Key, Wanessa Camargo, Anitta, o mundo ia desabar?

O mercado musical americano é bem diferente do mercado brasileiro. Eles têm uma visão mundial e aberta em relação a vender a sua arte. Aqui no Brasil também estamos melhorando a forma de misturar rap com outros estilos. Também estamos nos profissionalizando para vender melhor nossa música. As coisas estão mudando e acredito que em breve teremos participações e misturas inusitadas.

Indo além da questão musical, você sente que a hora é agora para quê?

Este disco é quase que um trabalho autobiográfico pra mim, é uma transição do Pavilhão 9 para a minha carreira solo. Pensei muito sobre os temas, as letras, na arte, na capa que conta uma história surreal e mitológica – tudo porque quase desisti de cantar, de fazer. Tem uma música no disco (Altos e Baixos,) que conta um pouco desta história.

Este título – #ahoraéagora – eu escolhi antes das manifestações que aconteceram no Brasil e me baseei na música de Geraldo Vandré (“Pra não dizer que não falei das flores”) “Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Foi de onde veio a inspiração inicial para o título do disco e a espinha dorsal para todo o álbum. Por isso, o momento é e sempre será agora.

SERVIÇO

Rhossi, Lançamento do álbum #ahoraéagora
Quando: dia 27/11, às 19 horas (sessão de autógrafos às 20h)
Onde: Livraria Cultura do Shopping Bourbon, rua Turiassu, 2100 – Pompéia, São Paulo
Quanto: Grátis
Telefone: (11) 38685100
Acesso para deficientes / ar condicionado

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