Se os americanos costumam se chocar facilmente com tudo o que hoje é chamado de “politicamente incorreto”, devem se preparar para os sermões e descomposturas dos programas de rádio de C. Israel Lutsky.

Apelidado de “Filósofo Judeu” nos anos 1930-40, Lutsky — um dos primeiros apresentadores de programas de aconselhamento pelo rádio — era adorado pela audiência de imigrantes do Leste Europeu em Nova York, que falavam iídiche e achavam que atrações do tipo faziam-nos sentir em casa.

Cerca de sessenta anos mais tarde, a emissora National Public Radio vai retransmitir os programas de Lutsky e outros da era dourada da rádio iídiche. O projeto apresentará música, radionovelas, entrevistas e comerciais da época.

Produzidos em iídiche, inglês e “iínglês” (a mistura dos dois), os programas refletem uma cultura de imigrantes que ensinaram seus filhos a agirem e a falarem como americanos, ao mesmo tempo em que parentes eram assassinados pelo Holocausto ou imigravam para Israel.

O iídiche era a língua mais falada pelos judeus americanos antes da Segunda Guerra Mundial. Tratava-se de um dialeto do alemão, com vocabulário emprestado de pelo menos uma dúzia de idiomas.

Sua sonoridade forte era o veículo perfeito para Lutsky soltar o verbo: “O que lhe dá o direito de se considerar uma sogra corajosa? Na minha opinião, sogra burra seria mais apropriado. Acredite-me, você não tem a coragem para chegar em sua nora com a reclamação de que um homem pode fazer muitas coisas que a mulher não pode”, dizia aos brados o “filósofo”.

A pobre mulher reclamava da esposa de seu filho, que tinha feito novas “amizades” depois que o marido parara de vir para casa. Gritava Lutsky: “Acredite-me, pare de ser cega e estúpida! O molho que serve para o pato serve para o ganso!” Dizia, usando um ditado tradicional para alertar a sogra de que os “amigos” da nora — e do filho — talvez não fossem apenas amigos.

O projeto foi concebido pelo historiador Henry Sapoznik, que comprou discos de alumínio com os programas há 17 anos, sem saber do que se tratavam, e desde então vem reunindo mais material.

Segundo ele, as gravações mostram uma visão peculiar e emocionante da vida de pessoas que nem tinham idéia das transformações pelas quais o mundo passaria mais tarde.

Sem mais artigos