In Venus fala sobre o último lançamento /Filipa Aurélio

Segundo o consórcio feito pelos veículos de imprensa, nesta segunda-feira (28) o Brasil bateu 514 mil mortes por Covid-19. Semanalmente a CPI da pandemia, que investiga omissões e irregularidades cometidas pelo governo federal durante a crise sanitária.

A revelação mais recente, trata das irregularidades na compra das vacinas da Covaxin, negociação feita antes mesmo do imunizante ser aprovado pela Anvisa. Segundo a BBC, enquanto a vacina da Pfizer, que foi oferecida ao Brasil em um primeiro momento custando US$ 10, a Covaxin custou US$ 15. O acordo com a Pfizer foi fechado após 11 meses do primeiro contato, enquanto com a Covaxin levou aproximadamente 3 meses para fechar o acordo. Em meio a isso, o Brasil conta com aproximadamente 125,6 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar e o desemprego atingiu a taxa recorde de 14,7% no primeiro trimestre de 2021.

Revolta, medo e insegurança são alguns dos sentimentos decorrente destes eventos. Tais sentimentos são ampliados no álbum “Sintoma”, lançado pela banda In Venus em abril deste ano. O grupo paulistano formado por Cint Murphy (voz e teclado), Patricia Saltara (baixo), Duda Jiu (bateria) e Rodrigo Lima (guitarra) usa o post-punk e o garage rock para cantar sobre as questões políticas e sociais que permeiam o país.

Após o álbum “Ruína” (2017) e o EP “Refluxo” (2018), a In Venus buscou se aproximar ainda mais do público brasileiro. Para falar sobre os problemas do país, a banda mudou a linguagem musical e cantada. Com a adição de elementos que remetem a cultura nacional o grupo também passou a cantar em portugês, no lugar do inglês.

No “Ruína” a maior parte das músicas é em inglês e a partir do momentos que fizemos o “Refluxo” decidimos que não iríamos mais falar inglês. Estamos no Brasil, sabemos que existe uma limitação gigantesca de entendimento da mensagem, e a nossa mensagem é muito forte, ela é muito direta. Então decidimos que precisava ser feito para as pessoas entenderem.

Apesar de ser produzido antes da pandemia, e lançado durante, “Sintoma” encaixou no momento social em que foi disponibilizado. Cantando sobre intolerância, fome e desigualdade, o álbum coloca luz em problemas nacionais para ampliar o debate e procurar soluções. A produção e edição do álbum foram feitas por Mari Crestani, mixagem e edição por Malka Julieta e masterização por Luis Tissot.

Em entrevista, Cint Murphy e Patricia Saltara falaram um pouco mais sobre a produção do “Sintoma”, influências sonoras e visuais e sobre possíveis caminhos para nós como sociedade. Abaixo, confira o papo na íntegra.

Daniela de Jesus: Falando um pouco sobre o começo da banda, como a In Venus surgiu?

Cint Murphy: Eu e o Rodrigo namoramos há oito anos. Chegou um momento do nosso relacionamento que decidimos fazer algo juntos. Testamos e começamos a fazer um som, eu tive uma conversa com a Camila, ex- baterista, e um dia nos reunimos para fazer uma jam. Ela convidou a Priscila, que era ex-baixista, e tinha uma outra pessoa, Suca, que tocava a guitarra também. No começo éramos cinco, mas os horários não iam batendo, o som também era diferente. O Rodrigo na época tinha outra banda de shoegaze, e estávamos indo muito nesse caminho. Quando a Suca saiu, ficamos nós 4, eu, a Priscila, a Camila e o Rodrigo. Nós começamos a fazer o disco, no meio do processo a Priscila saiu e ficamos nós três. Quem gravou o primeiro disco foi o Lucas Lippaus, que foi quem produziu, logo na sequência, a Patrícia entrou.

Patricia Saltara: eu conhecia a Cíntia, dos rolês de banda mais antigos. Eu já tive bastante banda ao longo do tempo, um dia ela me chamou no Facebook perguntando se eu conhecia alguma baixista, e eu me ofereci. Ela me conhecia como guitarrista e baterista, não como baixista. Eu estava muito afim de fazer banda, com outros sons. Eu conhecia a banda e me identifiquei muito com o som e com as pessoas. Foi um aprendizado pra mim também, porque eu nunca tinha tocado em uma banda que as músicas já estavam prontas. Eu tive que aprender as músicas, a galera teve paciência comigo e foi maravilhoso desde então. A Camila saiu, entrou Duda Jiu no começo de 2019 e aí veio esse novo elemento, um novo ritmo, né?

C: Quando Jiu entrou entendemos que a sonoridade ia ficar diferente, porque o jeito de Jiu tocar era muito diferente do que a gente estava acostumado. A Camila tinha um jeito muito reto de tocar, a Jiu tem um jeito mais quebrado. Então trouxe para gente novas inspirações também, e aí mudamos completamente o tipo de som a partir do momento que ele entrou.

D: Qual foi o caminho de “Ruína” (2017) até “Sintoma”(2021)? Porque a sonoridade dos dois trabalhos são bem distintas, como aconteceu essa mudança?

C: “Ruína” tem uma sonoridade bem pós-punk clássica, naquela época estávamos ouvindo muitas referências de pós-punk clássico e era um lugar de conforto. Porque o Rodrigo vem dessa desse shoegaze, com essas referências dos anos noventa. Eu estava muito em uma angústia de fazer algo diferente, aproveitar esse jeito de Jiu tocar, eu comecei a insistir bastante para gente sair dessa zona de conforto que estávamos. No começo foi bem difícil sim, quando criamos “Sintoma” foi uma coisa muito ‘Putz, tá legal, mas acho que pode ficar melhor se fizermos de tal jeito’. Nisso, fomos escutando muita coisa que não era referência do pós-punk clássico. The Kills, Vanguarda Paulista, a transição entre o punk e o pós-punk. Também exploramos o samba e outros ritmos até para contemplar um pouco mais o formato que Jiu costuma tocar.

P: Eu acho que o “Refluxo”, EP que lançamos em 2018, foi o meio do caminho. Acho que ele mudou um pouco do “Ruína”. Só que o “Sintoma” teve um foco maior na mudança.

D: E foi dessas referências também que veio os elementos percussivos, né? Foi uma das primeiras coisas que notei de diferente. Contem um pouco desses novos ritmos.

C: Sim, tem a questão dos novos ritmos que Jiu trouxe com o jeito dele de tocar, e tem também o lance da gente não cantar mais em inglês. No “Ruína” a maior parte das músicas é em inglês e a partir do momentos que fizemos o “Refluxo” decidimos que não iríamos mais falar inglês. Estamos no Brasil, sabemos que existe uma limitação gigantesca de entendimento da mensagem, e a nossa mensagem é muito forte, ela é muito direta. Então decidimos que precisava ser feito para as pessoas entenderem. Então, também teve essa ruptura, né? De mentalidade, não só tentar contemplar esteticamente o que queríamos transmitir, mas também indicar uma mensagem do que gostaríamos de dizer.

D: Sobre a capa do álbum, eu acho ela muito interessante, gosto bastante de colagens e na capa tem vários elementos. Como foi esse processo de criar a capa do álbum?

C: Legal, a capa foi feita por EriKat, que é um amigue nosso que é colagiste. Na verdade teve um processo que antecedeu isso, montamos uma coletiva chamada ‘Coletiva Formas’ e tem vários artistes ali que estão criando junto com a gente. Então, chegou um determinado momento que percebemos que precisávamos de ajuda para criar as nossas identidades visuais. Convidou várias pessoas para participarem desse dessa coletiva, enquanto estávamos compondo o disco compomos também um manifesto. Compartilhamos com as pessoas e elas foram criando nossas identidades visuais. Inclusive teve alguns momentos que tiveram interferências dessas pessoas nas composições das músicas. Porque a gente debatia muito com muita profundidade. No processo chegou a capa da Kat e gostamos muito.

P: Para compor a capa a Kat pediu que déssemos livros ou recortes de revista, para ter alguma coisa nossa. Eu achei isso foda porque tinha referência de todo mundo, então aí todo mundo se via lá.

D: Vocês falam bastante de questões políticas e questões sociais nas músicas. Como vocês veem o papel da música ao abordar assuntos que estão acontecendo ao nosso redor?

C: Difícil de esconder isso, né? Eu escrevi todas as letras, mas com a ajuda de todo mundo. Quando começamos a compor alguma coisa, tentávamos entender o que a música estava transmitindo. Eu escrevia em cima dos debates que a gente tinha, indo atrás de referência de livros e artigos. A arte em si, tem um papel questionador, eu precisava expressar a minha revolta política de alguma forma. E a música foi o instrumento que eu encontrei.

P: A arte de forma geral é uma ótima ferramenta para darmos nossa visão do mundo. Nossas críticas sociais, nossa vontade de transformação eu acho que as pessoas podem se ver nisso e se encontrar, não se sentir tão sozinho pensando dessa forma. Quando eu fui atrás da música, foi muito pra isso também, para dividir os sentimentos que estavam transbordando em mim.

D: Vocês citaram também de ir atrás de referências e fontes para escrever sobre os assuntos. Quais foram essas referências?

C: Vão desde a ficção científica, como “2001”. Coisas que estão acontecendo atualmente, artigos científicos sobre a ansiedade, também de filosofia, Nietzsche, Ailton Krenak, Maria Homem. Tem muito da nossa vivência, né?

P: A principal referência é morar no Brasil. E agora, está mais louco ainda. Mas a principal referência é ler jornal, sentir nas ruas, pegar o busão, todo esse caos de São Paulo.

D: As faixas foram produzidas antes ou depois da pandemia? E como foi lançar neste momento?

C: Foi tudo produzido antes da pandemia, tem algumas pessoas que que ouvem e falam que fomos profetas. Porque falamos sobre muitas coisas que vivemos mais intensamente agora. Antes ficamos um ano imersos ensaiando na construção dessas faixas. Gravamos no carnaval, e depois que acabou o carnaval chegou o lockdown. Foi muito louco, porque nós deparamos com coisas que aconteceram depois que o disco estava premeditando.

D: Como vocês acham que esse tempo que estamos vivendo vai ficar lembrado futuramente?

P: Trevas.
C: Exatamente, acho que essa é a palavra. Desde 2013 estamos sofrendo um processo de transformação política muito forte. Eu participei das construções das manifestações de 2013 em diante, foi tudo muito intenso, porque as pautas eram muito difusas. Eu percebo que essas pautas ainda continuam difusas, porque não temos o poder de absorção do que realmente é um problema, porque cada um tem os problemas individuais que levam pro coletivo. Precisamos ter uma unidade nas nossas reivindicações. Com a nossa arte queremos justamente furar a nossa bolha, queremos que as pessoas reflitam, gostem ou não da nossa música. O mais importante não é a música, é a mensagem por trás dela.

P: Eu acho que o momento é confuso, com a popularização da internet, das redes sociais, as dinâmicas mudaram. Algumas pessoas conseguem ser ouvidas por muitos, nisso todo mundo virou especialista de tudo. Então as mensagens ficam confusas. Falta pesquisa, as pessoas recebem informação, mas não pesquisam. Eu acho que é uma uma época de muita confusão, confusão mental, notícias equivocadas, falta de pesquisa, onde política virou crença e não embasamento.

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