Nascida como brincadeira em um chillout, Simpaticona da Boate, música da dupla Lacozta (de Daniel Cozta e L_cio), com vocal da jornalista e DJ Claudia Assef é candidata a hit das pistas. A faixa ganhou remix de três pesos pesados da música eletrônica nacional, DJ Mau Mau com Franco Junior e DJ Anderson Noise.

Após um período de testes, no case da Glaucia ++, aprovado com louvor no underground paulistano, agora a Simpaticona luta pelo nascer. O projeto para o lançamento do vinil da música com os dois remixes corre contra o tempo, com o projeto de financiamento coletivo (crowdfunding) pelo Catarse, contribua (aqui). Dois dos pilares do underground paulistano, os clubes A Loca e Lions são até agora os maiores apoiadores do projeto, que está com 60% de seu valor financiado.  

Paralelamente ao projeto de crowdfunding, há um clipe sendo produzido. Com direção de Andrea Cassola, o clipe foi gravado colaborativamente por figuras carimbadas da noite, como as hostesses Marcelona e Luma Assis, os DJs Mau Mau, Marky e Anderson Noise, o promoter Nenê Krawitz, a empresária Flavia Ceccato (dona do histórico Lov.e Club e do Hot Hot), o jornalista Vitor Angelo, além da própria Claudia Assef.   

Conheça a Simpaticona da Boate

Os 300 vinis serão prensados na República Tcheca e enviados para os apoiadores que contribuírem com a cota cheia, R$ 70 (inclui o envio por PAC). Também há uma cota de R$ 10 pra quem quiser só ajudar. Em troca, ganha um conselho de boate da simpaticona. O Virgula Música trocou uma ideia com a Claudia Assef, leia a seguir.

Que tudo mundo é DJ a gente já sabia, mas todo mundo é cantor também?

Cantooor assim de boca cheia, tipo cantar bem mesmo, é para poucos, a gente sabe. Mas eu acho que qualquer pessoa com um mínimo de treino pode cantar. No meu caso, eu já cantei em banda de rock, cantava umas coisas complicadas do ponto de vista vocal, de Jefferson Airplane a Janis Joplin, mas a voz na Simpaticona da Boate é bem zoeira, na verdade, é bem falada, quase um rap lesadão.

Como você faz para o lado jornalista não aflorar na hora de encarnar a cantora?

Não tem como eu não ser jornalista, porque eu sou isso. Acho que até na hora de escrever a música fico com encanação com o português, não vou querer errar, né?

Ouça a música 
Como nasceu essa música, essa pessoa existe?

Essa música nasceu de um chillout em casa, com vários amigos, após um festival, acho que o Terra ou Sónar, não lembro agora. A gente já tinha passado a noite toda rindo e chamando umas pessoinhas de simpaticonas, acho que porque as pessoas estavam bem felizes e animadas na noite. Daí quando chegamos na minha casa, o Dani, meu marido, mostrou umas músicas que ele tava fazendo, e eu e o Vitor (Angelo) encasquetamos com essa música, adoramos, e começamos a fazer a letra, num caderninho. Foi tudo super rápido, gravei o vocal ali na hora, mas ficou ruim, né? Tava a maior barulheira e tal. Então depois eu gravei de novo.

A sua experiência como DJ ajudou na hora de fazer a letra?

Com certeza! É muito legal você entender um pouco sobre os breaks da música, sobre algumas coisas que funcionam na pista, e também ajudou na hora de fazer uma letra bem simples e chiclete!

Você estudou piano, isso te ajuda na hora de compor e até mesmo de ouvir e analisar música?

Isso faz muito tempo, hoje não sei mais nada de piano. Depois toquei guitarra por vários anos, estudei música no Souza Lima, e claro que isso ajuda a perceber a música de outra forma.

Por que você não pediu uma versão drum and bass para o Marky?

Ele vai fazer um remix, sim! Só não sei se vai ser drum’n’bass. Vamos aguardar, porque ali o negócio é mega embaçado! Eu fiquei super feliz porque fui na casa dele outro dia e ele me contou que se pegou cantarolando “Simpaticona da boateeee”. Falou que a música grudou na cabeça dele. Isso pra mim foi o maior elogio possível!

Como foi ver sua música ganhar versões do Mau e do Noise, que certamente já fizeram você se jogar muitas vezes?

Nossa, você tem noção do quanto eu sou fã desses caras? Muito antes deles virarem meus amigos, eu dancei demais sets deles. O Mau, por exemplo, está na capa do meu livro. A foto foi tirada pelo Fabio Mergulhão no Skol Beats de 2002, e eu estava lá dançando. Foi um momento inesquecível, não só pra mim, mas pra muitos clubbers (como se diziam nos anos 90, tá?)

Como apareceu a ideia do financiamento coletivo, acha que esta é a grande novidade surgida no mercado ultimamente ao lado do música na nuvem?

Eu acho espetacular essa possibilidade, isso dá muita autonomia pra projetos dos mais diversos. Vejo muita coisa boa sendo financiada, eu por exemplo já apoiei peça de teatro, e me senti super orgulhosa de ter ajudado a viabilizar o espetáculo da Maria Alice Vergueiro. Espero que a gente consiga atingir nosso objetivo, estamos com 60% do projeto financiado, ajuda aí, gente!

Concorda que existe uma ligação entre o synth pop e o punk, pelo fato de as músicas terem melodias e harmonias simples e uma energia parecida?

Total! Se vc assistir ao documentário Synth Britannia vai ver que as raízes são as mesmas. Os pioneiros do synth pop também não sabiam tocar, e só puderam colocar as mãos nos instrumentos quando o teclado caiu de preço, porque antes era inviável, só bandas de rock tipo Emerson Lake & Palmer tinham como bancar, era um luxo.

Na sua opinião, qual a diferença entre o synth pop atual e o dos anos 80?

Eu acho que tem um revival rolando. De novo, né? Porque anos 80 já estiveram na moda no começo dos anos 2000.

O sintetizador ainda tem um papel a ser desenvolvido dentro do pop?

Nossa, se tem! Você sente quando tem instrumentos mesmo numa música. Usar só instrumentos já prontos deixa tudo meio flat. É outra coisa quando você bota um instrumento de verdade (e não aquelas coisas que você compra em banco de sons na internet), esquenta o som pra caramba. Hoje você ouve muita coisa parecida, eu costumo chamar de “beatport music”, ou seja, os caras tão usando os mesmos instrumentos que vêm nos softwares, daí fica tudo muito mortinho, chato demais. Este ano eu fui pro Mutek e vi vários lives incríveis, e reparei que quanto mais máquinas no palco, mais pesado, no sentido de encorpado, era o som. Fiquei muito impressionada, por exemplo, com o John Talabot e com a Laurel Halo, que é uma mina muito incrível, tenho gostado muito.

O uso excessivo nos anos 80 gerou algumas coisas questionáveis, teme que isso possa acontecer novamente?

Tem o tal do som meio de churrascaria, o som ficou muito exagerado e aí ficou brega, né? Tipo a maioria dos rocks nacionais daquela década soam super carregados, os arranjos são tipo uma pochete laranja no seu look. Mas acho que agora temos distanciamento bastante pra não cair nos mesmos erros.

Que bandas e projetos considera mais relevantes hoje?

Amo Thundercat, Disclosure, Laurel Halo, John Talabot, Pantha du Prince, o disco novo do Goldfrapp, Marcio Vermelho, La Cozta (o Daniel Cozta e o L_cio), o pessoal da Metanol FM, nossa, mta coisa boa ultimamente, né?

Se considera feminista, como isso influencia sua música?

Sim, eu sou, ainda vejo mulheres sendo submetidas a muita coisa horrorosa, e isso não dá. Sempre gostei de artistas feministas, que se colocam como mulheres fortes, seguras. Por exemplo, a Tina Turner, que tomava porrada do marido, se tornou uma das maiores artistas de todos os tempos, e o que aconteceu com o Ike? Mó-rreu de overdose. Sei lá, não desejo a morte de ninguém, mas pra mim, isso tudo é karma que a gente constrói.

Quais você considera as maiores contribuições femininas para música em todos os tempos?

Nossa, que pergunta difícil, meu! São tantas que não sei por onde começar. Você tem desde Billie Holliday, Nina Simone e Piaf até as bafônicas Donna Summer, Diana Ross, a própria Tina Turner, Madonna, Cyndi Lauper, Laurie Anderson, Roisin Murphy, Joyce, Rita Lee, Sonia Abreu… é muita mulher importante no mundo da música, a mulher tem a capacidade de ser extremamente sensual, delicada, mas também pode ser super viril, tipo uma Joan Jett. Acho que a maior questão feminina na música é a versatilidade. A mulher pode tudo, meu bem.

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