Eles limpam, separam o lixo, montam os palcos, desentopem o esgoto, cuidam da infra-estrutura. Invisíveis para a maioria, enquanto milhares se divertem, outros trabalham para deixar a engrenagem gigantesca do Rock in Rio funcionando.

Mas os “fantasmas”, às vezes, se divertem. “Só gosto da Ivete Sangalo, coisa que eu entendo. Essas coisas pesadas eu não entendo”, diz Maria da Penha Guilherme Marinho, 53 anos, ao Virgula Festivais. Ela trabalha na coleta seletiva e em sete dias tira maisn que um salário mínimo.

Junto com ela estão Maria Adeil de Souza, 59, e José Carlos Serafim da Silva, 50. Este declara, com franqueza e alguma poesia: “Todo mundo que trabalha nesse mundo é por amor, mas também por dinheiro”.

A reportagem percorre a rua fechada que margeia toda a Cidade do Rock. Não há a preocupação cenográfica que se vê do outro lado. São contêiners, grades, geradores, estruturas temporárias. Algumas delas foram montadas por Rodrigo Rodrigues, 29 anos, conhecido como “Faustão“.

Bonachão, ao ser perguntado sobre o que dava mais trabalho, montar ou desmontar, ele responde: “Tudo dá trabalho. Até fazer filho hoje em dia dá trabalho”. Depois, conta que a montagem é mais demorada e no caso do Rock in Rio durou mais de um mês. Sobre os shows, ele segue a mesma toada de Maria da Penha: “Só curto Ivete”.

Seu colega Wagner Pires, 32, diz que às vezes não tem nada para fazer e eles dão umas “fujidinha”, mas ele ressalra que não pode abandonar a labuta. Faustão diz que não faz diferença trabalhar no Rock in Rio. “Para onde tiver trabalho, a gente vai”, constata.

Do alto dos seus 19 anos, ninguém segura Luana Lorena, auxiliar de limpeza. “A gente trabalha e aproveita”, diz a garota que se jogou nos shows de Beyoncé e Ivete. “Eu a conheço desde a barriga da mãe dela”, diz sua colega Elizabeth Felix, 39. A elas se junta Renata de Souza Viana, 36, que diz: “Gostei da Beyoncé e do Sepultura também, estremeceu tudo”, aponta.

“As pessoas não tem educação, jogam papel no vaso, a gente tem que desentupir”, afirma Cristiano Salustiano Chaves, motorista de saneamento. Ele também viu a Beyoncé e a passagem de som do Bon Jovi, show que para ele era o mais esperado. “Vou deixar o caminhão puxando e meter o pé para lá”, disse.

O motorista, no entanto, parece estar com a cabeça em outro lugar, após uma briga conjugal. “Fala aí no site que eu amo muito minha mulher. Quem sabe assim ela me perdoa.” O recado está dado.

Sem mais artigos