“Letras sem sentido que falam de um cotidiano banal da classe média” ou “um bando de desocupados que não tinham o que fazer e decidiram se fantasiar e montar uma banda”. Grupos na linha Cansei de Ser Sexy, Montage, Bonde do Rolê e Lucy and the Popsonics (foto) muitas vezes, são bombardeados com opiniões desse teor, por serem divertidos no palco, usarem figurinos alegres e não terem pretensão alguma de mudar o mundo com a música que fazem. E, ainda, seguem o estilo que querem, sem ligarem para a crítica.

“Vazias, pífias, produto de quem não tem nada para fazer o dia inteiro e normalmente partem de pessoas que não tem nada para dizer e nem saberia como. Não somos a única opção da Terra”, comenta Fernanda Popsonic, vocal do Lucy and The Popsonics.

Na verdade, essa estética não é novidade. Os jovens desta geração não eram nascidos ainda quando David Bowie revolucionou o cenário musical nos anos 60, fazendo rock e iniciando uma estética andrógina – abusava dos paetes, porpurina e maquiagem. Isso não era glamour? E ainda fazia boa música.

O tempo, a popularização da pop art – com o artista norte-americano Andy Warhol transformando figuras como Elvis Presley em obra de arte- e a música pop só enfatizaram ainda mais a união entre sonoridade e imagem. O Brasil é um exemplo rico do auge desta fusão, na década de 70, com o ‘boom’ dos Secos e Molhados.

Tomem cinco minutos do seu dia e entrevistem seus pais, tios, avós. Perguntem quem foram os Secos e Molhados. Qual a impressão que tinham do irreverente Ney Matogrosso, líder do grupo, nos palcos, suas roupas, caras e bocas.

E nessa linha do tempo, que é enorme, ainda vieram os anos 80, com a invasão do pop de Madonna e Michael Jackson, só para citar os mais conhecidos. Contudo, muitas perguntas recaem sobre essa mistura que se seguiu com a música: performance, som, figurino e imagem estariam todos equilibrados quando a proposta da banda seria uni-los? Não estariam este pessoal da nova cena musical priorizando mais a estética do que a própria música?

Indo mais a fundo nessas questões, o Virgula Música entrou em contato com duas das bandas na cena independente nacional que andam se destacando por esse monte de coisa já citada: Lucy and the Popsonics e Montage.

Por email, os brasilienses Phil e Fernanda, do Popsonics, que acabaram de voltar de uma turnê em Portugal, falaram ao Virgula Música. Confira.

Vocês prezam mais pela imagem que a banda transmite ou pelo som que fazem?
Fernanda – Nós prezamos pelas duas coisas. A roupa que usamos ou a foto que tiramos não é mais importante que a música que fazemos e nem o inverso. As duas coisas se complementam. A estética é arte, assim como a música e é isso que é comumente menosprezado pelos que fazem música, até vir um David Bowie e dar a cacetada na cabeça de alguns. A arte pop é tudo aquilo que temos contato hoje: cinema, fotografia, música, entre outras milhares de coisas.

Pil – Qeremos que as pessoas reajam ao nosso som, que elas dancem. Se fosse só estético nem teria som. Poderia ser uma foto, um quadro, uma escultura…

Utilizando de uma linguagem glamurizada, vocês não acham que a música fica em segundo plano?
Fernanda – Nós dedicamos muito mais tempo à produção de música, gravação e ensaios do que com as roupas que utilizamos. Não é por isso que deixamos a estética em segundo plano. Nada pode ficar em segundo plano! A estética inspira a música e a música a estética. Não vemos problemas nas duas coisas andarem juntas e ao mesmo tempo. A estética também sempre esteve ligada aos movimentos culturais, de Lord Byron ao movimento Punk, New Wave, grunge, etc. Não vejo mal nenhum e nem acredito que ela seja a arte do capeta. Eu gosto da arte imagética e acho que no Brasil as pessoas deveriam saber apreciá-la mais. Geralmente, quem faz rock no Brasil nunca nem ouviu falar em Marcel Duchamp, por exemplo. Uma pena! Dizer que Kraftwerk, B-52´s ou o próprio Bowie possa ser ruim porque têm preocupação estética é no mínimo estúpido ou preconceituoso.

Pil – E não me envergonho de assumir que contribuímos bastante para que fosse percebido assim. Tudo pode ser resumido no nosso prazer pelas belas formas e cores. Gostamos de consumir a arte dessa forma e queríamos que a banda também tivesse isso.

Como chegaram ao ‘mainstream indie’? Há algum produtor conhecido que descobriu o som da banda?
Fernanda – Nunca fomos da música. Descobrimos os caminhos, tocando muito e nos piores lugares que existem com as piores condições. Nós fazemos nossa própria divulgação e quase sempre contamos com a ajuda de nossos produtores que não ganham nada para fazer isso e fazem porque acreditam e amam o projeto. Só isso!

Pil – Tem que tocar muito, tem que se dedicar bastante, tem que despertar o interesse dos que “dão as cartas” na cena independente. Fizemos todos esses passos e muitos outros, inclusive. Não dá pra se restringir a compor as músicas e tocá-las pra si dentro de uma garagem. O universo pop é muito mais que isso. É festa, palcos, viagens, imprensa… E muitos músicos não se sentem a vontade para assumir que isso é bom! E eu digo: Não experimentamos quase nada da vida de rockstar, mas foi sensacional tudo o que já ocorreu com a gente.

Os fãs que vocês arrastam para os show vão por causa da apresentação performática ou por causa da música?
Fernanda – Nosso show não é performático. Pelo menos não acho. Ensaiamos no Madruga na 312 norte e lá não tem espelho. hehehe O que acontece no palco é o rock que entra na veia e isso nos deixa loucos!

Pil – Vão por conta da festa! E a festa engloba essas duas coisas e mais um monte delas.

Muitas pessoas criticam esse tipo de tendência na música, dizendo que as letras são vazias e as melodias pífeas, classificando-a como produto da classe média que não tem o que fazer. E, apesar da diversão e das apresentações perfomáticas, a música deixa a desejar. O que vocês acham dessas opiniões?
Fernanda – Vazias, pífias, produto de quem não tem nada para fazer o dia inteiro e normalmente partem de pessoas que não tem nada para dizer e nem saberia como. As pessoas são livres para entrar no nosso site se quiserem, para comprarem o disco se optarem e irem aos shows se se interessarem. O mundo é grande e não somos a única opção do planeta Terra. Essa resposta foi tão óbvia que até bocejei.

Pil -Tem gente que gosta de música que não tem um pingo de honestidade. Tem gente que se sente crítico musical sem sequer saber escrever. Tem gente que polemiza por polemizar, pra ofender mesmo. Tem gente que não tem idéia da nossa vida e nos julga sem fundamento algum. Tem gente que gosta e não questiona nada.

E por que, na opinião de vocês, as bandas desse estilo fazem sucesso primeiro lá fora e depois no Brasil? Vocês acham que é preciso um atestado de aprovação gringa para emplacar aqui?
Fernanda – Isso não é uma regra! Quantas bandas fazem isso no Brasil hoje? Talvez porque não exista mercado para as artes no Brasil e isso é um fato. Na Europa, vendemos mais CDs, camisetas e bottons em uma noite do qeu conseguimos vender em um mês no Brasil. No nosso caso, as coisas aconteceram muito antes disso. Fomos convidados à Portugal porque o Carlitos (que toca no “The Clits” e trabalha em uma associação cultural) acreditou no Lucy And The Popsonics, porque conhecemos as limitações de nosso país e não porque precisávamos de um “atestado de aprovação gringa”. A arte não é patrimônio de um país e de um grupo de pessoas. Porque limitá-la a um “Estado-Nação”? Napoleão Bonaparte morreu no início do século XIX e hoje nós já temos até internet!

Pil – Porque no Brasil o mercado musical é pequeno. Diminui pro Rock e fica praticamente inexistente pra bandas desse gênero. Na gringa, o povo gosta e consome. Já é deles. Não é pior nem melhor, é um fato. Na verdade, eu vou achar esquisito o dia que um grupo de samba fizer primeiro sucesso no exterior para depois ser reconhecido no Brasil. Pro rock não acho estranho não. Ainda mais com a Internet nos dias de hoje.

Do primeiro show que fizeram para as atuais apresentações, a banda consegue perceber algum amadurecimento, seja na presença de palco ou na música?
Fernanda – Na música sim. Hoje aprendemos a ler as músicas e com isso poderemos estar indo além e tocamos um pouco melhor também. Não somos grandes músicos, mas estamos estudando para poder estar fazendo mais. Presença de palco não é ensaio. Ela só aparece com o tempo. Nós sempre fomos tímidos e aprendemos a lidar com isso enfrentando o público que nem sempre está aberto a te ouvir. Realmente gostamos do que fazemos e defendemos nosso trabalho.

Pil – Estamos muito, muito melhores. Vimos há uns dias, um registro em vídeo de um dos nossos primeiros ensaios. E ficamos boquiabertos, acredite era muito pior… heheheheh. Ainda há bastante o que melhorar. Mas enquanto nos divertimos, seguiremos. E é com a prática que se aperfeiçoa.

Quanto tempo demorou para a banda alcançar o espaço e ser notada como hoje?
Fernanda – A banda existe há 2 anos. O espaço é algo muito relativo. Nós somos de Brasília e aqui nossa história começou quando fomos chamados para nos apresentar no Landscape Pub na festa do Fábio Pop. Depois disso, entramos em um festival local que foi a nossa maior janela de divulgação que já tivemos e logo adquirimos atenção local que nos projetou para as cidades próximas e para os principais festivais do país.

Pil – A banda completou 2 anos em novembro agora.

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