“Fazemos música de coração e para os corações”, afirma Tales de Polli (voz e violão)

Em comemoração aos 15 anos da banda, no dia 20 de maio, a banda Maneva lançou o álbum Caleidoscópio. Para celebrar a trajetória do grupo e mirando novas possibilidades, o álbum conta com participações especiais de diferentes ritmos para incorporar novas influências no trabalho do grupo.

Formada por Tales de Polli (voz e violão), Felipe Sousa (guitarra), Fernando Gato (baixo), Diego Andrade (percussão) e Fabinho Araújo (bateria), a banda paulistana Maneva traz “Caleidoscópio”, seu 11º álbum, para celebrar os 15 anos da banda. Em tempos incertos, cercados de sentimentos conflituosos, o grupo busca trazer uma nova realidade e uma nova alternativa para tornar os dias mais leves e tranquilos “O ‘Caleidoscópio’ é um disco solar, um álbum colorido, estamos vivendo uma situação tão cinza e tão sem cor que queríamos fazer uma coisa mais colorida.”, conta Tales de Polli.

Ao ver um caleidoscópio, você consegue ter contato com diferentes formas, texturas e cores. Foi partindo desta ideia que a banda criou o álbum, com objetivo de dar novas cores e formas para os dias do último ano, que tem sido todos parecidos. Para sintetizar a ideia, o grupo contou com a participação de artistas com diferentes influências, Cynthia Luz na faixa “Me Deixa”, Mc Hariel em “Banco de Areia”, Di Ferrero em “O que Tiver Que Ser Será” e o encontro com um dos grandes nomes do reggae nacional, Natiruts, na faixa “Lágrimas de Alegria”, mais recente single o álbum.

Com o lançamento dividido em quatro partes, “Caleidoscópio” foi lançado ao longo de 2021 em 4 EP’s. O álbum completo chegou nas plataformas no dia 20 de maio, o trabalho foi disponibilizado pela Universal Music, Base 4 e GTS, parceria que foi firmada após a banda seguir 10 anos como um grupo independente. O álbum conta com 12 faixas autorais que falam sobre relacionamentos, passagem do tempo e amadurecimento. O trabalho foi produzido por Daniel Ganjaman.

Tales de Polli, voz e violão do grupo, falou um pouco sobre a produção do álbum, sobre os 15 anos de banda e o começo como banda independente, além sobre o processo de autoconhecimento. Confira a entrevista completa abaixo:

Daniela de Jesus: Bom, 15 anos, né? Como é olhar para trás agora e ver onde a banda chegou?

Tales Polli: A sensação é de conquista, nós sabemos o quanto trabalhamos durante esses 15 anos. Nós atuamos 10 anos como banda independente e depois nos juntamos com a Universal Music, a Base 4 e a GTS e somos muito gratos. Acho que hoje temos um espaço maior para focar mais na música e deixar a parte burocrática para a galera da gravadora. Isso faz uma diferença gritante, por nos deixar mais livres nas produções dos trabalhos. Foi até o que aconteceu na produção do “Caleidoscópio”, ele é um trabalho que comemora os 15 anos do Maneva de uma maneira mais leve e colorida, de uma maneira solar. É muito bom poder olhar para trás e ver que estamos com a mesma gana, a mesma vontade e o mesmo amor que tínhamos lá atrás. No Maneva a gente sempre fala que trabalha pela música, amamos a música 100%, o sucesso e dinheiro para gente é sempre consequência, e nesse trabalho ficou explícito isso, que fazemos música de coração e para os corações.

D: Como foram esses 10 anos iniciais como banda independente, de conciliar a parte artística com a burocrática?

T: Nós sempre tivemos uma divisão muito clara de funções na banda. Então eu e o Felipe ficamos com a parte mais artística da parada, de produção musical e da parte de arte. O Diego e o Fabinho já ficavam mais com a parte de negócios, o Diego na parte de fechar shows, o Fabinho cuidando da loja e o Gato sempre cuidando das redes sociais. Hoje ainda temos essas divisões mas atuamos muito menos, tirando o Fabinho, por conta da loja. Mas somos bem ativos nessa parte de negócios também. Quando começamos em 2005 nunca pegamos dinheiro da banda, todo dinheiro que entrava investimos no Maneva. Acho que esse é um dos diferenciais, nós sempre tivemos nossos trabalhos paralelos e acho que o primeiro cachê que recebemos e repartimos foi em 2012. Isso ajudou muito a manter o Maneva como uma instituição, uma empresa que faz música. Com a chegada da gravadora ajudou muito a manter isso e dar um novo olhar para a parte de negócios. Principalmente desse mundo digital, que não sabíamos e fomos aprendendo e agregando no nosso conhecimento.

D: Sobre o “Caleidoscópio”, como surgiu todo o conceito do álbum?

T: O “Caleidoscópio” é um disco solar, um álbum colorido, estamos vivendo uma situação tão cinza e tão sem cor que queríamos fazer uma coisa mais colorida. Daí chegou o conceito do calidoscópio, que quando você tem uma coisa tão pequena você precisa de um microscópio, mas para você ver uma coisa colorida, com formas indefinidas, você precisa de um caleidoscópio, é uma coisa caleidoscópica. Então esse disco é justamente isso, traz formas, cores e sensações, desde o primeiro EP. O legal é que é um álbum com começo, meio e fim, temos o primeiro EP que tem o Mc Hariel, o segundo a Cynthia Luz, o terceiro com o Di Ferreiro e o último com Natiruts. Sentimos que conseguimos construir uma coisa caleidoscópica mesmo, uma coisa colorida, solar e de formas e sensações.

D: Vocês são uma das referências do reggae nacional, e a Natiruts é um dos maiores nomes quando falamos em reggae no Brasil. Então como foi a parceria com Natiruts e a ideia para clipe “Lágrimas de alegria”?

T: Meu, é realizar um sonho, o Natiruts para gente é a grande banda nacional de reggae. Para mim, uma coisa pessoal, eu gosto muito do Natiruts, eu tocava muito quando era mais novo. Uma das primeiras músicas que eu tirei de ouvido foi “Presente de um Beija-Flor”. As coisas foram acontecendo, fomos conhecendo o Natiruts, abrimos alguns shows, participamos juntos de alguns festivais e as coisas são do jeito que tem que ser, sabe. Sempre comentamos de fazer algo e saiu no momento certo. O Maneva está em um momento bom e se juntar com o Natiruts, que é a referência do reggae, é uma coisa muito mágica e essencial. Nós acertamos muito na música, essa faixa quem assina a composição sou eu e o Deko e a produção do Ganja [Daniel Ganjaman]. Eu achei que ficou muito a cara do Natiruts quando juntou. Desde a faixa como a gravação do clipe, flui de uma maneira gostosa e o resultado ficou uma coisa envolvente, digna de fechamento de disco de 15 anos. Uma coisa para bater palma mesmo e comemorar bastante, foi uma coisa sensacional tanto para música brasileira quanto para o reage.

D: Além do Natiruts, o álbum conta com a participação do Mc Hariel, Cynthia Luz, Di Ferrero. Como surgiu as participações de estilos diferentes?

T: Justamente o conceito do “Caleidoscópio”, a partir do momento que você está falando de cores e sensações você tem que falar de mistura também. A partir do momento que pensamos em mistura, pensamos em artistas que somam e podem somar em nosso som. Cada um está com uma sensação diferente, o Harriel está com aquela sensação mais dançante, para um pouco mais jovem. A Cynthia reflexiva e pensativa, o Di traz aquela coisa despreocupada e o Natiruts traz a questão do reggae, da união do reggae mostrar que o reggae está vivo e vai movimentar muita coisa. Trazer esses estilos diferentes é essa questão do “Caleidoscópio” mesmo. Para você ter uma sensação, cores e formatos diferentes.

D: Você costuma escutar bastante outros ritmos?

T: Minha playlist é Nelson Cavaquinho, Emílio Santiago, Jimmy Hendrix, Nelson Gonçalves. Mistureba total, eu ouço muito de tudo, eu acho que o estilo é um detalhe para música boa. Eu gosto de ouvir música boa, então fica uma mistura de muitos ritmos, eu ouço de tudo mesmo. Só que tem que ser bom, se for ruim eu não ouço não (risos).

D: A faixa “Inevitavelmente” fala bastante sobre autoaceitação e autoconhecimento. Como surgiu essa faixa e a ideia do clipe?

T: Na real essa música era para entrar no disco do Deko, é uma composição dele com o Diego Andrade e Gabriel Elias que eu também assino. Mas ele que estava com essa canção, quando estávamos produzindo a música ele pediu para eu cantar e quando eu cantei ele falou que era para o Maneva. Foi um presente dele e eu agradeço demais, porque para mim é uma das minhas favoritas do disco, eu achei que o clipe ficou incrível, que a Belinha Lopes e Doug Martins fizeram. Quando você ouve a música você entende que é um casal, mas do jeito que que o clipe traz o amor-próprio ficou muito legal essa textura junto com a canção. Ficou com cara, com cheiro e jeito de Maneva.

D: E para você, como é esse processo de autoaceitação e autoconhecimento?

T: Nós estamos sempre evoluindo, eu, por exemplo, tento sempre ser melhor do que eu fui um dia antes. Esse processo pode ser um pouco doloroso, porque temos que revisitar as nossas falhas, e todas as vezes que ressaltamos as nossas falhas nos sentimos um pouco indefesos e um pouco inseguros. Eu sempre tento entender porque eu tive tal ação em um momento de raiva ou tive tal mágoa em um momento. Eu sempre tento revisitar as coisas que me incomodam e atrapalham o meu coração. Claro, eu gosto de me enaltecer quando eu faço alguma coisa boa e dou um passo legal. Mas eu gosto de revisitar as coisas que, por exemplo, senti inveja, ter raiva, não se controlar e ter falado algo. Então eu sempre revisito esse momento, que eu acho que é um grande passo para revolução porque aí você começa a limpar a sua alma, começa a desmaterializar e desprender um pouco. Eu tenho entendido o autoconhecimento como um processo de desmaterialização. Quanto mais a gente se conhece, mais entendemos que isso aqui é uma passagem. Que nosso espírito é eterno e que vamos levar justamente essas sensações que temos no coração, eu acho que para mim esse é o autoconhecimento, para mim isso é inevitável.

D: E sempre foi assim para você, ou você chegou nessa conclusão a pouco tempo?

T: Eu acho que principalmente no processo de compor me ajudou muito nessa parada. Porque ninguém faz nada sozinho, e mesmo que às vezes eu esteja compondo sozinho eu estou sempre bem acompanhado, saca? Então vem algumas palavras e algumas frases que você não lembra de ter composto exatamente. Eu acredito muito que tem uma parada que seja ditada, essas palavras e essas frases começaram a abrir meus olhos para certo tipo de atitudes que eu tinha. O espiritismo também entrou na minha vida um pouco tardio, mas entrou, e parecia que era uma coisa que eu já conhecia há muito tempo. Tudo isso parece que foi feito por etapas, a música e a composição me ajudaram muito a enxergar que eu tenho uma alma, que eu tenho um coração que vai persistir por gerações por muito tempo. As conexões que temos aqui são de alma mesmo, e isso foi abrindo os meus olhos. Eu estou cada vez mais entendendo que aqui é uma passagem e temos sempre que extrair o melhor. A nossa casa de verdade é o nosso coração, o nosso espírito e isso traz tranquilidade para gente encarar os nossos problemas de uma forma mais leve.

D: O Maneva teve 10 anos como banda independente, quais dicas você dá para bandas que estão iniciando no mundo da música e são independentes?

T: Se organizar é fundamental, entender como funciona o mercado, entender o que é um lançamento de música, entender o que envolve produção, o que você quer realmente. Se quer viver da música de verdade, se está na música pelo negócio. Eu não julgo também as pessoas que estão na música pelo negócio, mas é muito bom entender o nicho que você atua. Se você realmente faz música pelo coração, se for isso põe alma e coração, tenta sempre entender as tendências do mercado, entender o que é o mercado, o que é o digital, o que é virar a faixa em rádio e o que é investidor. Mesmo que você ame a parada, é importante conhecer um pouco mais da parte técnica do mercado musical. Na nossa época não tinha muito, mas hoje tem uma série de conteúdo com pessoas que dão dicas e conteúdos para novos artistas. Se você também está tratando a música como negócio, entenda também o mercado e as tendências. E trabalhar bastante, ralar, ralar, ralar que tudo no começo é complicado mesmo. Às vezes o resultado não vem como esperamos, mas não pode desanimar não. Tem que ir para cima, e vai com o coração e com a alma porque caso não dê certo vai ter dado certo para você.

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