A Maia arrasa em clipe de Pra Dá Dolce Bacana

A artista trans Marcella Maia, ou melhor, A Maia, como ela gostaria de ser chamada a partir do novo momento da carreira, falou com exclusividade ao Vírgula nesta quinta-feira sobre o novo momento na música, frustrações no meio artístico e da piada “inaceitável” de Marília Mendonça em uma live na última semana.

Maia conversou com a gente por telefone direto de Mont Blanc, cidade francesa que fica na divisa com a Itália. A artista quer agora focar a carreira na música, já que se sente frustrada com o meio artístico.

“Toda a arte faz parte de mim. Mas meu foco agora é a música. Me frustrei bastante com o meio artístico. Sofri e ainda sofro muito preconceito. Sofri muito para entrar no Roda Viva. Tive de me jogar, me inserir para conquistar o papel. Sofri muito também com a peça Brian Ou Brenda, da qual era protagonista”, afirmou.

Maia, além de cantora, é modelo, já tendo passado pelas passarelas de Milão e Londres. A mineira de Juiz de Fora também é formada em atuação e cinema pelo Studio Fátima Toledo e já esteve na City Acting Drama School, na Inglaterra, na NYFA-Nova York, Éric Morris Califórnia, entre outras.

A participação no sucesso de Hollywood Mulher Maravilha também mostra a diversidade de atuação de Maia. “Eu sou uma camaleoa, né? A arte está em mim. Gosto de mudança. O cotidiano me enjoa”.

Enveredar pela carreira na música é algo que a artista sentiu necessidade, além de vontade. “Como eu disse, essa frustração, essas barreiras que tenho que enfrentar no meio artístico me cansaram. Quero ter a minha voz, falar a minha verdade. E com a música isso é possível. Eu quero compor, quero ser autora do meu show”, disse.

E foi ela mesma quem produziu o roteiro do clipe Pra Dá Dolce Bacana, primeiro trabalho profissional como cantora, lançado no último dia 7 e que você pode conferir ao final da matéria. “Trata-se de uma letra forte, provocadora. A música tem que me atravessar de certa forma. Quero que as pessoas escutem muito, dancem, se liberem dos seus clichês e quebrem paradigmas”.

Preconceito, bullying, abuso e recado à Marília Mendonça

A Maia arrasa em clipe de Pra Dá Dolce Bacana

Por trás de um mulherão, também está um ser humano que sofreu muito para conquistar o que conquistou. Maia passou por muito preconceito na carreira, sofreu bullying ainda muito jovem e foi abusada.

Saindo aos 15 anos de casa, Maia trabalhou em sinal vendendo doces em Brasília e, aos 18, já se apresentava como drag queen nas noites de Juiz de Fora (MG). Neste período, foi vítima de tráfico humano e obrigada a se prostituir em Londres.

“Toda a minha história me ajudou a me moldar e a saber o que quero. Somos o que queremos ser e aceitar não é opção. Não é uma genital que nos define. Na verdade não precisamos de validação de ninguém”, conta.

Toda essa vivência fez com que Maia sentisse profundamente um fato que aconteceu com uma colega de profissão na última semana. Em uma live, Marília Mendonça fez uma piada transfóbica e foi duramente criticada nas redes. A cantora pediu desculpas, mas para Maia, foi pouco.

“É um absurdo [o que aconteceu]. Eu não culpo a Marília, eu culpo a estrutura. A estrutura é assim, preconceituosa. Temos que respeitar a carreira, mas é grave por ter milhões de seguidores. Ela não pode apenas pedir desculpas, ficar nessa coisa rasa”, afirmou Maia.

“Pensa mais além, sabe. Procure uma ONG que ajuda trans, faz uma doação, sei lá. Procura ajudar. [Ser trans] é um direito civil do qual temos direito. Não podemos aceitar que não sejamos respeitadas”.

Voz ativa e próximo trabalho

Vivendo um momento especial na carreira, Maia diz se sentir feliz em poder se transformar em uma voz para muitas pessoas. “Represento muita coisa. Sinto que tenho a responsabilidade de influenciar de forma positiva e tentar impactar a mudança desse cenário que é tão marginalizado”.

Eu bem que tentei tirar da cantora tudo sobre o próximo trabalho, no qual ela já está concentrando as forças. Apesar de não conseguir 100% do que virá por aí, Maia dá pistas para deixar os fãs ansiosos pela próxima obra.

“Eu não posso falar, menino! [risos]. Mas é algo que vai vir bem diferente. O próximo trabalho é algo que permeia muito meus relacionamentos abusivos. Tem uma levada de música para fazer amor, sabe, que te toca. Uma pegada mais melódica. Inclusive estou indo para Portugal para produzir! É só isso que posso dizer!”. Então a gente espera, né…

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