A Festa Fela, dedicada à celebração do criador do afrobeat Fela Kuti chega a sua sétima edição em São Paulo neste sábado (12), com show do supergrupo Bixiga 70, que acaba de lançar seu segundo álbum, batizado apenas com o nome do grupo. 

A festa, que este ano ocupa o Centro Cultural Rio Verde, surgiu em 2007 com o objetivo de celebrar a obra do nigeriano em ocasião dos dez anos da morte do músico que dedicou-se a combater a opressão no continente africano por meio de uma música que casava jazz, funk e gêneros africanos contemporâneos e ancestrais.

Este ano, além do show e discotecagens, o evento marca o lançamento oficial no Brasil do LP Sorrow, Tears and Blood, clássico de 1977, pelo selo Goma-Gringa.

Desde 2008, a festa acontece em data próxima ao aniversário do músico, nascido em 15/10/1938 e que morreu em 02/08/1997 -, e se soma à celebração global Fela Day. Atualmente, o “dia do Fela” rola em várias cidades brasileiras e do mundo.

O lançamento do LP de vinil na Festa Fela se junta a outras conquistas do evento: promoveu o primeiro show da banda paulistana Bixiga 70 (em 2010) e organizou o lançamento da biografia Fela. Esta Vida Puta, do cientista político cubano Carlos Moore, em São Paulo, em 2011.

O Virgula Música entrevistou Ramiro Zwetsch (DJ e jornalista), que forma o núcleo da festa com Maria Valentina (artista plástica), MZK (DJ e artista plástico), Prila Paiva (DJ e artista plástica), Tahira (DJ) e Vini Marson (DJ e designer).

Qual é a importância do Sorrow, Tears and Blood

Esse disco, entre os mais de 70 que Fela lançou, pode ser considerado um dos melhores junto com Zombie, Expensive Shit, Shuffering & Smiling. Todos eles foram lançados entre 1975 e 1977, o período realmente mais criativo do músico e também de maior entrosamento entre os integrantes de sua banda, Afrika 70. A maioria dos discos do Fela trazia apenas uma música de cerca de 15 minutos em cada lado do LP — em alguns casos, o disco inteiro trazia uma música só, com duas partes divididas em cada face do vinil.

Sorrow, Tears and Blood traz duas faixas igualmente potentes, ambas consideradas clássicos de Fela. A faixa-título — que, na tradução, significa “Tristeza, Lágrimas e Sangue” — é uma das mais contundentes respostas musicais que Fela deu ao governo nigeriano — que em fevereiro de 1977, no mais brutal ataque que fez à comunidade do músico, enviou tropas militares à sua residência, incendiou a casa, violentou mulheres e agrediu a mãe do músico (que acabou morrendo meses depois por consequência deste ataque).

Musicalmente, a faixa mostra a química do afrobeat em ebulição com riffs de guitarra em transe, pontuação marcante dos metais e um refrão inspirado. Já o lado b, Colonial Mentality, começa com uma das linhas de baixo mais envolventes da obra de Fela e o arranjo vai acrescentando elementos até um ápice grandioso. Historicamente, o disco também tem um valor especial por ser o primeiro a ser lançado pelo selo de Fela, Kalakuta Records — sua gravadora à época, Decca, não quis lançar o disco justamente por seu conteúdo, digamos, subversivo.

O que faz com que a música do Fela permaneça atual?

Tanto a mensagem como a música de Fela tem algo de transgressor, único e, apesar de atual, ainda não são tão difundidas assim. Entendo que sua contribuição à música negra equivale a de James Brown para o funk e soul e a de Bob Marley para o reggae. Politicamente, Fela foi ainda mais longe que os dois, sem nunca se render ao sistema nem abrir mão de seu discurso de combate à opressão. O som é complexo e envolvente, tem uma marca registrada, tende a fascinar mais e mais pessoas conforme for mais difundido. Pode ser ao associado ao funk norte-americano (que já tinha na sua raiz a influência africana) mas tem elementos rítmicos ainda mais genuínos ao continente e, nesse aspecto, Fela teve a sorte de ter por perto o baterista Tony Allen, o co-arquiteto do afrobeat.

O que acha que Fela estaria fazendo se estivesse vivo?

Pergunta difícil. Mas a Nigéria continua na mesma lama política e Fela certamente estaria direcionando sua música e arte para o protesto e a denúncia contra os governos corruptos e autoritários africanos.

Qual é o alcance mundial da festa, em que cidades ocorrerá no Brasil este ano? Existem particularidades em torno do “culto” ao Fela no Brasil?

A Festa Fela acontece apenas em São Paulo, desde 2007. O Fela Day é uma comemoração mundial, que acontece em vários países e, neste ano, até onde eu sei, terá eventos associados em Porto Alegre, Rio de Janeiro e Santos. Mas essas são apenas as que eu sei, certamente haverá outras. Embora seja uma comemoração global, cada núcleo produz sua festa independentemente em suas respectivas cidades. Quando a Festa Fela surgiu, em 2007, o objetivo era fazer um registro em relação aos 10 anos da morte do músico. A partir de 2008, começamos a fazer a festa em data próxima ao aniversário do músico, 15 de outubro, e isso fez com que nossa festa fosse assimilada pelo público como o Fela Day de São Paulo. Não sei muito bem como descrever as “particularidades”, mas sei que o afrobeat e a música de Fela cada vez mais leva influência para a música brasileira contemporânea (via Metá Metá, Céu, Criolo, B-Negão, Rael, Bixiga 70), entre outros, e uma observação mais detalhada sobre a música brasileira ancestral (de terreiro, por exemplo) pode estabelecer conexões existentes entre Brasil e Nigéria. Nossa raiz é a mesma.

SERVIÇO

Festa Fela 7

Quando: Sábado (12), a partir das 23h

Show: Bixiga 70 (à 1h30)

DJs: Haru, RamiroZ e Vini Marson

Pista B: Nave Groove (DJs Fred e Tiago Z)

Lançamento oficial do LP “Sorrow, Tears and Blood” (1977), de Fela Kuti, pelo selo Goma-Gringa; projeções (Mustaxes); live-painting (Alexandre Keto); bazar afro

Onde: Centro Cultural Rio Verde – Rua Belmiro Braga, 119, Vila Madalena

Quanto: R$ 30

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