Crepúsculo dos Deuses é o nome de um filme de Billy Wilder, de 1950, que mostra uma atriz decadente na transição entre o cinema mudo e o falado. Ele funciona como uma metáfora do que se disse sobre a internet e o digital em relação ao mundo da música: novos ídolos não surgirão. Lana Del Rey é uma prova de que a coisa não é assim.

A cantora norte-americana, que se apresentou sábado (09), no Planeta Terra, é um fenômeno recente, emplacou Video Games em 2011 e rapidamente ganhou o status de musa indie. Referências ao cinema noir dos anos 40 e 50 são comuns e seu nome vem da junção dos nomes da atriz Lana Turner e o do carro Ford Del Rey.

No show em São Paulo, ela fez a simpaticona desde o começo. Veio toda de branco, como na música de Jorge Ben e tal qual uma mãe de santo, evocando uma atmosfera espiritual e foi para galera. Deu beijos e abraços, tirou fotos, enquanto sua banda estendia a primeira música até seu retorno.

“Lana, eu te amo”, gritou em coro parte do público que estava no gargarejo. Alguns indies bocejaram. Tudo que os indies mais odeiam é que a banda que só eles conhecem faça sucesso. Lana teve música na novela Salve Jorge (Ride). O problema é que se um artista é especialmente talentoso, acima da média, seu destino é ser star, como canta Lulu Santos.

“É louco estar aqui. Obrigado por me fazer lembrar por que eu gosto tanto de cantar”, afirma Lana em certo momento, diante das tristes palmeiras naturais que aranjaram para o cenário do palco. 

Diante do mar gótico, uma banda formada por quarteto de cordas, baixo, guitarra, bateria e máquinas de batidas despejava uma cama letárgica onde o sol avermelhado se deitava. Um show musicalmente monótono, com músicas parecidas. Quem não era fã, não ficou.

Quando Lana cantou Young and Beatiful, pareciachorar. Seus olhos  verdes transmitem uma sensação narcótica. Ela não estava fingindo, ela estava atuando. Saem os discos de platina, entra o YouTube, saem os caçadores de autógrafo, entram os fotógrafos de smartphones, os seguidores e as curtidas.

O star system está vivo, os mercadores de ilusões estão a salvo. Nós, que gostamos deste escapismo, da adoração, de viver outras vidas artificialmente, também.

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