Nesta quarta-feira (20) chega às lojas Nuestro grupo podría ser tu vida, uma crônica selvagem da cena musical “underground” dos Estados Unidos entre 1981 e 1991 que retrata a vida de 13 bandas surgidas no calor do “punk” e que firmaram as bases para uma nova cultura independente.

O livro, publicado em espanhol, é considerado um dos melhores relatos do rock e, 12 anos depois de sua primeira edição em inglês, se tornou para muitos músicos uma “fonte de inspiração” para quem quer montar uma banda.

Seu autor, Michael Azerrad, contou à Agência EFE em Nova York a origem de seu extenso relato: “Um dia eu estava assistindo um documentário sobre a história do rock, estavam falando sobre Sex Pistols e Talking Heads e, de repente, pularam diretamente para o Nirvana“.

“Era ridículo – continua -, eles se esqueceram da década de 80, esqueceram todas as bandas que criaram o caldo de cultura que levou ao Nirvana e a toda a cena de rock alternativo. Alguém tinha que fazer alguma coisa”.

Assim foi contatando bandas que poderiam representar “a chave ou a filosofia da cultura” underground “dos anos 80 americano”.

“Escolhi o Black Flag, porque faziam parte dos primeiros movimentos da cena, também o rótulo de SST por sua grande influência. O grupo The Minutemen, sua canção Our Band Could Be YourLife, que dá título ao livro, me interessou a ideia de ser banda modesta e pode fazer o que quiser, sem compromisso”, explicou.

Junto a estas duas bandas, aparecem outras, uma por capítulo, Mission Of Burma, Minor Threat, Hüsker Dü, The Replacements, Sonic Youth, Butthole Surfers, Big Black, Dinosaur JR, Fugazi, Mudhoney e Beat Happening.

Segundo Azerrad, estes 13 grupos, alguns quase desconhecidos para o público latino-americano, iniciaram sua carreira em 1981, justo quando Ronald Reagan chegou à presidência dos Estados Unidos. “A cultura que ele encarnava proporcionou uma espécie de inspiração inversa para muitas das bandas”, acrescentou.

Para começar, os 13 grupos têm duas ideias em comum, uma reinterpretação muito pessoal do “punk” britânico dos anos 70 e, acima de tudo, o slogan “faça você mesmo”.

“O DIY (Do It Yourself) era a chave. Se uma banda faz música não convencional, as grandes gravadoras trabalham com eles. Assim, os grupos tiveram que encontrar uma maneira de existir sem o seu apoio e sem a forma habitual de fazer as coisas”, lembrou o autor.

Era o espírito “encontre a vida”. Por isso, a história de Azerrad está cheia de energia, violência, miséria, jovens ao limite, barulho, raiva e tipos entregues à religião do rock que viviam em condições extremas.

Alguns dos que aparecem no livro lembram ao personagem Ignatius J. Really de A conjuração dos néscios; outros sobrevivem entre urina, álcool e ratos como heróis de Dickens; todos, apesar de tudo e contra tudo, acreditam no poder emancipatório do “punk rock” e vivem histórias fascinantes.

“Conto 13 histórias. Pode-se apreciar o livro sem gostar deste tipo de música. Escrevo sobre como um artista perseverante que tenta fazer qualquer coisa na adversidade. Qualquer um pode apreciar a mensagem em qualquer lugar do mundo. Sempre há resistência quando alguém está fazendo algo original. E isso não se aplica apenas para bandas de rock”, diz o autor.

Esta “bíblia” do “faça você mesmo”, também mostra que ao redor do movimento apareceram selos fonográficos, distribuidores independentes, clubes, salas de música, lojas de discos, fanzines e rádios universitárias que alimentaram o “underground” e criaram uma sólida indústria alternativa que levou o Nirvana e o “grunge” para o altar do grande público.

Para Azerrrad, esta revolução “ainda não acabou”. “A cultura ‘indie’ explodiu, e há inúmeras bandas que seguiram os passos dos pioneiros. Em lugar de fanzines fotocopiados, há blogs; no lugar de rádio universitária, rádio pela internet; em vez de cassetes, listas de reprodução”.

“É o mesmo, mas multiplicado de forma exponencial pela tecnologia digital. É um momento muito emocionante para a música”.

O autor do livro, que atualmente é editor-chefe do site “Talkhouse”, segue defendendo o legado das 13 bandas. Algumas, como Sonic Youth, por demonstrar que se pode fazer música “que te dê gana”; outras, como The Minutemen, por ter sucesso sem ser estrelas, e outras, como Fugazi, por passar do “faça você mesmo” a defender “faça a coisa certa”.

Todos esses grupos, que viveram em uma época que não se repetirá, seguiram o epigrama, frase que lidera o livro, do poeta inglês William Blake: “Devo criar um sistema, se não quero ser escravo de outro homem”. E assim foi.

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