Uma orquestra de origem em uma favela de Niterói, no Rio de Janeiro, tem alçado vôos cada vez mais altos. Prestes a completar 20 anos, a Orquestra de Cordas da Grota, nascida na Grota do Surucucu, comunidade do bairro de São Francisco, tem hoje 120 músicos de alto nível, acumula incursões internacionais e prêmios importantes. E tudo começou graças à vontade de uma professora aposentada, Otávia Paes Selles, que nos anos 90 resolveu ajudar os alunos mais carentes, com dificuldades na escola, oferecendo aulas de música. Dona Otávia pediu ao filho Márcio Paes Selles, músico, e à nora, Lenora Mendes, que dessem aulas de flauta doce às crianças. A flauta foi apenas um começo. O professor rapidamente passou para as aulas de violino, viola e violoncelo. O resto é história.

História que ganhou corpo com a fundação do Espaço Cultural da Grota, organização não governamental e sem fins lucrativos, que hoje realiza ações voltadas para promoção da cidadania através da cultura, da arte e da educação, com projetos de formação musical, educação complementar e atendimento e promoção social. Em 1998, com a morte de mãe, Márcio e Lenora assumiram a direção do trabalho, que mantêm até hoje.

O trabalho que começou Dona Otávia há 30 anos cruzou fronteiras e vem se destacando em reconhecimentos e promoções. Da Grota do Surucucu, os integrantes da orquestra já passaram por Portugal, Nova York, Panamá, Nicarágua, Costa Rica, Honduras e Belize. A Orquestra, em 2004, e o projeto Multiplicando Talentos, em 2006, ambos do Espaço Cultural, receberam o Prêmio Cultura Nota 10 do Governo do Estado do Rio de Janeiro. A Orquestra ganhou ainda o Prêmio de Direitos Humanos Aluisio Palhano – PMN 2005, foi semifinalista dos prêmios Itaú-Unicef e Todos pela Educação, em 2007, e em 2008 recebeu o Título de Utilidade Pública concedido pela Prefeitura de Niterói. Em 2009, levou o Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

Qualquer maior de 6 anos que saiba ler pode aprender um instrumento de cordas e fazer parte da instituição. “Este projeto têm mudado a vida de muitos jovens e adultos da comunidade. Muita gente hoje estuda na universidade graças à influência do Espaço Cultural”, conta Kely Cristina, que com apenas 16 anos é professora da orquestra. A jovem toca violoncelo como instrumento principal e faz parte do projeto há dez anos. “Meus pais quiseram que eu entrasse e eu estou muito grata por isso. Toco vários instrumentos e dou aulas. Se não fosse a orquestra, nunca teria estas oportunidades”, comemora. Assim como ela, outros 25 integrantes oriundos da favela são professores de música e instrumentistas profissionais. E outros 15 alunos estão na universidade, atualmente – prova de que o objetivo primeiro de Dona Otávia ao ensinar música aos alunos se concretizou: quem participa do projeto melhora nos estudos.

Embora a Orquestra tenha sobrevivido durante anos graças ao esforço voluntário, Kely explica que, atualmente, patrocínios garantem o pagamento da maior parte dos seus professores. O Espaço Cultural desenvolve esporadicamente outras atividades de áreas diversas, como o esporte, a leitura, a informática e as artes plásticas. Deste modo, funciona também como lugar de convívio para crianças, jovens e adultos da comunidade.

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