Se Breno Silveira tivesse de optar por uma outra profissão, ele seria músico. O cineasta, que em 2005 dirigiu o filme 2 Filhos de Francisco, sobre a dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano, estreia nesta sexta-feira (10) seu novo longa, À Beira do Caminho, cuja história é inspirada em canções de Roberto Carlos. Em entrevista ao Virgula Diversão, Breno falou sobre a forte relação de seu trabalho cinematográfico com a música.

“Sempre tento encaixar a música como parte do roteiro. Ela não está só como trilha. Ela conta parte do sentimento dos personagens e explica uma coisa que você não está vendo na tela”, disse o diretor, que atualmente prepara um filme sobre a história do músico Luiz Gonzaga e de seu filho, Gonzaguinha.

Outra característica do cinema de Breno Silveira é o forte apelo emocional de seus projetos. “Gosto de filmes que transformam internamente. Para mim, a emoção é o canal mais forte para chegar ao grande público”, argumenta.

À Beira do Caminho conta a história de João (João Miguel), um homem que torna-se caminhoneiro para esquecer os dramas do passado. Ao dar carona para Duda (Vinícius Nascimento), um garoto que sonha em encontrar seu pai em São Paulo, o personagem se vê obrigado a reatar com seu passado. O filme traz novamente os atores Ângelo Antônio e Dira Paes, que trabalharam com o diretor em 2 Filhos de Francisco.

Na conversa com Breno Silveira, o cineasta falou sobre seu novo filme, projetos futuros e de seu amor pela música brasileira. Confira.

Como surgiu a ideia de realizar um filme baseado em canções do Roberto Carlos?

A [jornalista] Léa Penteado, que trabalha com o Roberto Carlos há muito tempo, inventou uma história baseada em algumas músicas dele, e isso foi um plot inicial. A partir disso, eu e a Patrícia Andrade, roteirista do filme, começamos a inventar em cima do que ela havia criado. Há algo muito louco em relação ao Rei, porque todos já sofreram ou amaram ouvindo uma música dele. Havia ali uma história muito legal, de um homem que perde o grande amor de sua vida, enlouquece e, aos poucos, vai entrando em um processo de morte. Só que, no caminho, encontra um menino que faz com que ele entenda que tem de reatar com o passado. Para mim, o filme é a história de um homem reaprendendo a amar.

Você conheceu o Roberto Carlos pessoalmente?

Eu acabei conhecendo o Roberto Carlos porque era muito fã e queria muito que ele assistisse ao filme. Eu comecei a gravar sem autorização alguma dele. Daí, eu tinha feito um filme inteiro com as músicas dele, inspirado nas músicas dele e não tinha qualquer autorização. Tive de pegar um comercial de TV em que gravaria com o Roberto Carlos e, com isso, consegui lhe entregar o filme. Ele se emocionou e deu a autorização para utilizar as músicas. Levou um ano para isso acontecer, não foi simples.

E o que ele respondeu exatamente?

Ele disse que o filme era emocionante e que liberaria as músicas. Eu não queria escutar mais nada (risos). Ele guarda o trabalho dele com muito cuidado; não libera para cinema. Achei que pudesse ter feito uma loucura, porque corria o risco de ter um filme que não poderia ser colocado em cartaz. Isso me criou uma angústia durante um ano inteiro. Mas acabou dando certo. É um tipo de loucura que eu não faço mais (risos).

A canção Sentado à Beira do Caminho, de Roberto Carlos, narra as dores de um caminhoneiro. Quanto dessa música há no filme?

No começo, utilizamos a música para pensar o filme, mas não se trata de uma história sobre um caminhoneiro. Por isso, tiramos a canção. Para mim, o João nunca foi caminhoneiro. Ele é um músico que está caminhoneiro para fugir do seu drama pessoal. É o que ele encontra para fugir do passado. Ele sofre dentro do caminhão, mas a alma dele é de músico.

 
É um roteiro clássico de road movie…

É, sim. É o cara que é obrigado a percorrer o caminho de volta para casa. E isso é bonito porque o Brasil passa por essa janela. A gente se vê filmado desde o interior do Nordeste até chegar em São Paulo. Existem coisas boas do road movie. Você vai incorporando histórias da estrada no próprio filme. Para mim, a estrada é uma metáfora da vida: há buracos,há dias de sol, há vales e montanhas. E, no fim, você vai entender que a vida desse personagem passou por muitas curvas.

O João Miguel e o garoto Vinícius Nascimento tiveram uma boa sinergia durante as gravações, né?

Foi uma química que eu raramente vi acontecer no cinema. A relação desses dois atores é uma coisa absurda, e vejo isso como um presente. Não haverá como criticarem a atuação deles, pois o que eles fizeram nesse filme foi muito bonito.

Em que momento vocês perceberam que a dupla daria certo?

Percebemos o quanto aquilo era potente nos ensaios, com a brincadeira dos dois, com o jogo de cena. No set, aquilo só amplificou. Todos ficaram atordoados com a veracidade que os dois traziam para os personagens. Uma coisa que aprendi em 2 Filhos de Francisco é que quando você traz personagens verdadeiros, em que o ator realmente incorpora o personagem, você consegue um ganho de emoção muito grande.

Como foi a escolha de Vinícius para interpretar o garoto Duda?

Quando conversei com a produtora de elenco, pedi um garoto que fosse a cara do Brasil. Ela trouxe dois da Paraíba, dois de Minas, um da Amazônia e o Vinícius, que veio de Salvador. A partir daí, houve um processo de preparação da Laís Corrêa. Na convivência, o Vinícius me convenceu e me cativou. Ele não era só o melhor ator. Ele tem uma coisa louca de falar com o olhar, com o gesto, com o sorriso. Eu gosto de quando a câmera gosta de um close, mesmo que seja mudo. O Vinícius sustenta isso. Acho que o À Beira do Caminho vive do tempo do silêncio. Não é um filme televisivo, com excesso de verborragia, de texto.

Alguns filmes brasileiros têm resgatado a música popular romântica brasileira, chamada comumente de brega. Alguns exemplos são o próprio 2 Filhos de Francisco, o Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo e o documentário Vou Rifar Meu Coração. Você vê esse movimento com otimismo?

Não tenho nem o que falar, pois a música popular brasileira sempre esteve muito presente na minha vida. Eu sou um cara sem preconceito e sempre estive aberto para tudo que me tocasse através do ouvido. Tenho uma relação antiga com a música do Roberto, que vem da adolescência. Acho bom revisitar isso, porque no fundo acho que a música brasileira é uma das mais fortes do mundo. E não acho isso sozinho. Como cineasta e diretor de publicidade, viajo pelo mundo e escuto a música brasileira em tudo quanto é lugar. Sempre digo que, se eu tivesse de começar minha carreira de novo, seria músico.

 

No cinema, você gostaria de contar a vida de que músico brasileiro?

Na verdade, eu tenho outro projeto filmado, que já está em fase de finalização e deve estrear em outubro. É a história do Gonzaguinha e do pai dele, o Gonzagão. Chama-se Gonzaga de Pai para Filho. É um filme arrebatador, com muita música dos dois. Nos meus filmes, eu sempre tento encaixar a música como parte do roteiro. Ela não está só como trilha. Ela conta parte do sentimento dos personagens e explica uma coisa que você não está vendo na tela.


Luiz Gonzaga e Gonzaguinha é uma baita história para se contar…

É uma história maravilhosa. Há sete anos, me chegaram fitas cassetes, gravadas pelo Gonzaguinha. Ele estava entrevistando o pai nessas fitas. Na conversa, ele perguntava sobre a história de vida do Gonzagão, mas também perguntava: “Por que você me abandonou?” ou “Por que passamos uma vida inteira sem nos falarmos?”.

Muita gente saiu chorando de 2 Filhos de Francisco. À Beira do Caminho parece seguir a mesma linha do mesmo forte apelo emocional. Você diria que é uma característica do seu cinema?

Sempre gostei de assistir a filmes que me deixavam diferentes ao final. Claro que gosto de entretenimento, mas eu provavelmente vi apenas um filme do Batman na minha vida inteira. Gosto de filmes que transformam internamente, que fazem você repensar suas relações na vida. Para mim, a emoção é o canal mais forte para o grande público. É o que eu gosto de fazer, e é o cinema a que gosto de assistir. À Beira do Caminho tem um parentesco com 2 Filhos de Francisco. São filmes que uma hora te fazem rir, depois te fazem chorar. Eu gosto dessa mistura.

Veja o trailer de À Beira do Caminho:



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