Malévola, que estreia neste fim de semana nos cinemas brasileiros, traz embutido em 97 minutos a nova missão da Disney: revisitar (e, às vezes, regular politicamente) seus clássicos. O mesmo foi feito com as novas versões de Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz. O novo longa-metragem, no entanto, funciona como entretenimento, mas fracassa ao tentar consertar os erros de seu predecessor.

Como já apontou Meryl Streep, não é segredo em Hollywood que Walt Disney era sexista, racista e antissemita. E A Bela Adormecida (1959) é um dos filmes mais machistas da história do cinema. De um lado, uma princesa passiva, ingênua e indefesa – com uma mãe cujo nome sequer é mencionado. Do outro, a vilã Malévola, inteligente e poderosa, mas vil, superficial, solitária e cruel. Entre as duas, homens corajosos que tomam todas as decisões por elas e fadas desastradas que só criam mais confusão.

Malévola tenta, por meio do excelente argumento de Linda Woolverton, dar um novo ângulo ao conto original. A ideia é colocar a narrativa sob a perspectiva da vilã, redimindo suas ações perversas na história. Já o roteiro, escrito a nove mãos (Charles Perrault, Jacob Grimm, Wilhelm Grimm, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Winston Hibler, Bill Peet, Ted Sears, Ralph Wright e Milt Banta) é desastroso. De pequenos buracos que poderiam ser facilmente resolvidos (afinal, se ela não é má, porque diabos se chama Malévola? Valeria explicar) a um final desnecessariamente longo e uma narradora que pouco ou nada acrescenta ao filme.

Na trama, Malévola – interpretada com maestria por Angelina Jolie – surge como uma fada boa. Ainda criança, conhece um garoto humano de um reino próximo, e dois vivem um amor juvenil. Porém, na vida adulta, o rapaz (então interpretado por Sharlto Copley) se distancia de Malévola em sua ambição e busca por poder. Após uma batalha do rei contra seres da floresta, o rei pede a cabeça de Malévola e oferece o trono como recompensa. Stefan, decidido a se tornar rei, retorna à floresta e trai Malévola, cortando suas asas e tomando o reino para si.

Com esta decisão, o roteiro repete o mesmo erro do filme original. Inicialmente boa, Malévola se torna vingativa ao sofrer uma decepção amorosa – a ponto de amaldiçoar para sempre Aurora, a filha do Rei. Mesmo com uma motivação poderosa, a personagem não deixa de ser apresentada como histérica e vingativa, como se nada fosse mais importante para uma mulher (ou fada) do que a vida amorosa.

Passado o confronto e a (deliciosa, diga-se de passagem) cena da maldição, Malévola passa a observar Aurora de perto, nos anos em que ela passa escondida em uma cabana na floresta com as três fadas madrinhas. Aos poucos, seu coração se abre para a garota e, finalmente, as duas se tornam amigas. Em uma cena cômica, Aurora – vivida por uma graciosa Elle Fanning – chama Malévola de “fada madrinha”.

Após a revelação de que Malévola é, na verdade, a pessoa que lhe lançou uma maldição – e que aos 16 anos ela caíra em um sono eterno – o ritmo acelera e a trama entra em espiral. A cena de batalha com o Príncipe Encantado (Brenton Thwaites) da animação original não existe; em seu lugar, Malévola luta com o Rei Stefan, resolvendo o “romance mal-resolvido) entre os dois. Por fim, a ideia de “amor verdadeiro” é transformada – aqui, sim, em uma decisão firme e acertada dos roteiristas. 

Com direção de Robert Stromberg (A Vida de Pi, Labirinto do Fauno), o filme é um espetáculo visual feito por CGI e outros efeitos computadorizados. Em 3D, os cenários são impressionantes, ainda que pouco originais: em certos momentos, a direção de arte parece uma mistura de O Senhor dos Anéis com Avatar. De todo modo, o filme é de Angelina. É facil perceber porque ela se interessou pelo personagem, dando a ele nuances que nem seria necessárias, mas fazem toda a diferença. Chamam a atenção as breves interações entre a protagonista e seu fiel corvo, interpretado em versão humana por Sam Riley. A química, aqui, salta da tela.

É bom ver a Disney assumindo riscos, ainda que falta a Malévola a ousadia necessária para fazer dele um clássico da magnitude de A Bela Adormecida. Evitar didatismos desnecessários e fugir de estereótipos seria um começo.

Sem mais artigos