Valley of Love, 2015

Rodrigo Fonseca, de Cannes, especial para o Virgula

Orgulhoso de ser chamado de o Mister Plus Size do 68° Festival de Cannes, em função dos 126 quilos em alto relevo em sua cintura, Gérard Xavier Marcel Depardieu, mito da interpretação nas telas, encarado nos anos 1970 como um dos galãs mais disputados do cinema, ainda mexe com a libido das mulheres – e mesmo dos homens – a julgar por derramadas declarações de amor e toneladas de suspiros dedicadas a ele em sua passagem pela Croisette. Ostetando um barrigão que mal cabe nos suspensórios, sem culpa nenhuma de andar obeso, o astro de 66 anos faz piada com seu próprio peso ao passar aqui pelo balneário como um forte candidato ao prêmio de melhor ator.

– Cada vez é mais difícil pra mim esconder as marcas do tempo nos meus sentimentos. Mas não há cinismo nem ceticismo em relação aos efeitos do tempo sobre os sentimentos que resistam à verdade do corpo. O corpo fala pela gente – diz Depardieu, que concorre aqui com o longa-metragem “Valley of Love”, uma produção francesa ambientada nos EUA, na qual compõe um ex-casal com outro mito, a atriz Isabelle Huppert.

Do cume de seus 1,80m de altura, Depardieu esbanja charme ao encarar o assédio dos fãs. Consegue se manter charmoso até quando sorve, de uma única e babada golada, uma garrafa de meio litro d’água e ensaia um arroto, baixinho, para não pecar pela deselegância. A fila para conseguir um autografo dele ganhou até da do fã-clube de Matthew McConaughey, astro de Hollywood mais famoso entre as celebridades que passaram pela Croisette este ano até agora.

– Um ator precisa ter respeito com quem reverencia seu trabalho. Tem hora que é preciso parar, dar um basta nos autógrafos dar apenas um “Bom dia, rapaziada!” e seguir. Estou naquele momento da vida em que já não se anda mais tão afim de trabalhar duro. Estou mais interessado em aproveitar os bons momentos que a sorte oferece, inclusive os encontros co, vocês – disse Depardieu ao site VIRGULA na manhã desta sexta em Cannes, ao se retirar da coletiva de imprensa de “Valley of love” em Cannes. – No Brasil, vocês já fizeram grandes filmes. Eu sinto muita falta de ter um Glauber Rocha na ativa hoje.

Qualquer fala de Depardieu é sempre embargada por saudades, mas não de melancolia:

– Um homem deve prazer em comer, beber, cantar, amar e relembrar o tempo em que fazia tudo isso com a dádiva da juventude – diz o ator, repetindo uma frase que já virou seu lema.

Não por acaso, nos últimos dez anos, Gérard vem diminuindo seu compromisso com entrevistas. Aqui em Cannes, ele recusou pedidos do mundo inteiro. O que tinha para falar ele contou nas páginas do livro “Ça s’est fait comme ça”, coletânea de crônicas autobiográficas que lançou em 2014 e virou best-seller na França.

– Eu já fiz mais dez mil coisas na vida. Só entre filmes e séries, foram quase 200 trabalhos. Chega uma hora em que as coisas se confundem na cabeça. Mas a imagem, na tela grande, resolve qualquer confusão. A imagem mostra que cada filme é uma aventura singular para um ator – diz Depardieu, que em “Valley of Love” interpreta um ator às voltas com o suicídio de seu filho.

Na trama dirigida por Guillaume Nicloux, ele é Gérard, um astro em decadência obrigado a viajar aos Estados Unidos e reencontrar sua ex-mulher (Isabelle Huppert) para que os dois realizem a derradeira vontade de seu filho morto.

– Este filme fala sobre a violência do desejo. Nesse caso, o desejo de reparar uma perda que arde na alma. O roteiro me deslumbrou por sua dimensão mística, ao enveredar pelo terreno do fantástico, do sobrenatural… o terreno da Morte – refletia o ator, que começou a carreira em 1967, depois de uma juventude turbulenta, na qual se envolveu com a delinquência mais de uma vez.

A partir de 1970, quando ganhou estrelato ao protagonizar um telefilme de sucesso (“Les aventures de Zadig”), a fama de Depardieu cresceu exponencialmente, conforme ele foi travando parcerias com os maiores diretores da Europa, como François Truffaut, Bernardo Bertolucci, Bertrand Blier, Alain Resnais, Andrzej Wajda, Claude Chabrol e Maurice Pialat.

– Sinto muita falta de não termos mais filmes de Pialat, de Marco Ferreri, de Carlos Saura. Nem vejo mais os novos filmes franceses no cinema. Apenas em DVD ou na TV. Quase sempre eu fico sabendo das novidades pela televisão pois gosto muito de séries. E confesso adorar os filmes que o Bruce Willis faz. Esses eu vejo todos, pois adoro a maneira como ele interage com um mar de efeitos especiais. As coisas mudaram no cinema, mas eu não fico me ressentindo – diz o ator. – O que importa é que as pessoas estão filmando e o cinema segue vivo. Aqui na França, vez por outra surge um grande diretor, como é o caso hoje de Jacques Audiard (conhecido no Brasil por longas premiados como “O profeta”, ele concorre em Cannes este ano com o drama “Dheepan”). Seguir em frente é tudo.

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