Ainda é cedo para analisarmos profundamente o que aconteceu de fato no Brasil no mês de junho de 2013. Como todos sabem, foi o famoso mês que virou palco para os protestos e manifestações públicas que varreram o país, detonadas pela ameaça do governo e da prefeitura de São Paulo em aumentar a tarifa de transporte público, de R$3 para R$3,20.

Mas uma coisa já dá para saber, um ano depois de tais acontecimentos: o Brasil mudou, e mudou a postura da população – para o bem e para o mal. E um filme como Junho, que entra em cartaz nesta quinta (05) nos cinemas, aponta essa mudança e traz um grande trunfo: imortaliza um momento único na história recente do Brasil.

O filme é uma produção da TV Folha, do jornal Folha de São Paulo, e dirigido por João Wainer, já veterano fotógrafo e videomaker do veículo. E embora o formato do filme se aproxime do esquema jornalístico televisivo, com os depoimentos sendo tomados no padrão “cabeças falantes” (talking heads), o que não é muito criativo, a produção ganha – e muito – por outro lado: o precioso material coletado ao vivo e a cores em plena rua, na hora dos protestos.

O material é assustador e às vezes desesperador. Chega-se a imaginar que estamos assistindo a um filme de ficção, com direito a superprodução de Hollywood, com mil figurantes, atores devidamente trajados de policiais e tudo o mais. É bizarro perceber que não, não foi ficção. Foi real, e ainda mais real, absurdo e revoltante do que filmes como Tropa de Elite, Carandiru e Cidade de Deus; cujos temas também envolvem a violência urbana e a – infelizmente – eterna guerra entre o sempre oprimido, frustrado e iludido povo brasileiro e a sempre imbecil, arrogante e patética polícia militar brasileira.

Ao longo da primeira parte do filme, desfilam na tela imagens chocantes da selvageria brutal que rolou nos protestos, com os policiais reinando como absolutos gladiadores, destilando violência em quem passasse perto, num festival de burrice, autoritarismo histérico e irracionalidade.

É óbvio que o filme, ao encadear tais cenas, acaba tomando partido na história. A polícia – e por extensão seus mandantes, ou seja, os governantes – surge como a grande vilã dos confrontos. E mesmo que se possa questionar tal visão um tanto maniqueísta, precisa ter muito cinismo para duvidar de que as coisas realmente foram assim. As imagens mostram – e provam, ou não?

Num segundo momento, o filme coloca na mesa o debate sobre a participação da mídia no período. E sobra para ela, pois as contradições e indefinições dos veículos – que ora pisavam em ovos, ora tomavam partido de forma preconceituosa ou tendenciosa – acabaram liquidando suas credibilidades, pelo menos para quem conseguia raciocinar no meio daquele furacão.

Por outro lado, os manifestantes também não escapam da análise. Um terceiro momento do filme coloca-os em evidência, expondo as contradições do próprio movimento, as confusões de objetivos de alguns militantes, e a situação caótica que aconteceu quando os protestos tornaram-se “moda” e acabaram sendo espaço para oportunistas, turistas e perdidos em geral.

Questões de conteúdo do discurso à parte, uma grande qualidade do filme é também o nível das imagens coletadas nos protestos. É impressionante a beleza e a precisão das cenas de rua, tanto em termos de enquadramentos como de movimentos de câmera, precisos e certeiros. Naturalmente, em milhares de minutos gravados, o trabalho de edição do filme foi magistral, selecionando takes e cenas realmente marcantes. E sim, o filme se beneficia de tais imagens, que nem James Cameron faria melhor: a realidade acaba sendo mais impressionante do que a ficção.

Mas seria injusto acusar Junho de “se beneficiar” dessas imagens. Quando se trata de um documentário, é natural que isso ocorra, e praticamente todos os documentários trazem algo de maquiavélico no sentido puro da palavra. O fato é que o registro é precioso, e a realidade do que ocorreu fala por si, é maior do que qualquer documento. Resta ao realizador conseguir captar tudo isso com o máximo de fidelidade e – por quê não? – poesia visual. Junho consegue.

Por fim, vale dizer que independente de opiniões políticas e partidárias, ou preconceitos e valores, o fato é que um filme como Junho vem contribuir para o registro da memória nacional. É um filme que se insere no atual momento do cinema brasileiro, onde o forte está muito mais nos documentários do que nos filmes de ficção. E que faz um retrato importante, que poderá ajudar a entender nossa história toda vez em que fôr revisto, daqui a cinco, dez, vinte, trinta, cinquenta anos.

Junho (Brasil, 2014)
Direção João Wainer. 71 minutos. Produção TV Folha. Distribuição O2 Play. Em cartaz em circuito a partir desta quinta (05)

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