Looking, nova série da HBO que estreou nesse domingo no Brasil, tira do armário o grande paradigma que a comunidade gay viverá nos próximos anos: a heteronormatização. Assumidamente uma versão homossexual de outra atração do canal, Girls, Looking se passa em São Francisco, nos Estados Unidos, cidade historicamente ligada à luta da comunidade LGBT.

Criado por David Marshall Grant, Sarah Condon e Andrew Haigh, o programa narra a história de quatro amigos gays de mais de 30 anos que parecem já ter ultrapassado os dilemas comuns da vida homossexual – a saída do armário e o preconceito da família. Tais problemas, por sinal, inexistem no roteiro. No lugar, está focado nos percalços de suas vidas amorosas e profissionais – em seus dois episódios, Looking, como Girls, mostra personagens cuja vida é privilegiada e cosmopolita.

É aí que mora o paradigma fundamental de Looking. E que reflete, em certa medida, a comunidade gay da atualidade. Por um lado, está representada uma vida normativizada e economicamente privilegiada. Por outro, o afastamento da comunidade LGBT das margens da sociedade elimina também seus aspectos mais reconhecíveis: a liberdade sexual, as inclinações artísticas, a libertinagem e os valores progressistas do underground. São traços históricos da comunidade LGBT que ainda fazem parte do inconsciente coletivo. Em suma, os gays estão mais “coxinhas” do que nunca.

Na série, causa estranhamento os valores convencionais, quase moralistas, dos personagens. Ao fazer um ménage à trois com o namorado, um artista plástico pergunta ao namorado se virou um “daqueles”. Para ele, “aqueles” são os que fazem sexo casual com mais de uma pessoa ou têm relações abertas, já que os dois têm um relacionamento monogâmico. No primeiro episódio, outro personagem tem, aos 29 anos, sua primeira experiência com “pegação” casual em um parque. Dias depois, se explica dizendo que não é um “desses caras” e que está em busca de um amor. Frase que poderia ter saído da boca de Charlotte, a princesinha de Sex And The City.

Assista ao primeiro episódio de Looking:

Um dos riscos que a série corre por omitir questões que, na realidade, ainda são latentes da vida gay (como o preconceito) é o de parecer muito açucarada. Como sua prima-irmã Girls, cairia na armadilha que tratar apenas de “problemas de primeiro mundo’.

Pouca coisa mudaria em Looking se seus personagens fossem homens heterossexuais e não gays. O que deve ser visto como uma coisa positiva. Cada vez menos os gays fazem parte de um gueto social e, portanto, suas questões se tornam mais parecidas com as da sociedade como um todo. Visto deste ângulo, a perda de um certo “brilho” parece um preço justo a se pagar.

Por outro lado, o calcanhar de Aquiles de Looking é o fato dela ser centrada, justamente, na orientação sexual de seus protagonistas – quando, como qualquer pessoa, eles são (ou deveriam ser) muito mais do que fazem entre quatro paredes. 

Tal contradição reside também no coração do ativismo LGBT. A partir do momento em que é conquistado o direito de ser diferente, torna-se irrevogavelmente parte do status quo. É aí que mora Looking

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