A capital paulista foi e tem sido objeto de desejo das câmeras de cinema praticamente desde que a sétima arte chegou ao Brasil.  A partir da década de 50, essa relação passou a ser mais estreita. Por isso, no aniversário de 461 anos da cidade de São Paulo, o Virgula relembra momentos memoráveis em que a metrópole foi registrada pelo cinema.

Produzido e dirigido por Adalberto Kemeny e Rudolf Rex Lustig, o documentário São Paulo, Sinfonia da Metrópole (1929) mostra a cidade em um momento de transição: de entreposto comercial a maior centro industrial e financeiro do país. 

Em 1958, o filme O Grande Momento (de Roberto Santos) já trazia imagens que se tornariam clássicas, como a famosa sequência de Gianfrancesco Guarnieri andando de bicicleta no bairro do Brás.

Nos anos 60, viria o filme cujo personagem central é a própria cidade, até no título: São Paulo Sociedade Anônima (1965, de Luís Sérgio Person), com diversas cenas rodadas em externas na cidade.

Em 68, outra obra clássica teve inúmeras cenas na capital: O Bandido da Luz Vermelha (de Rogério Sganzerla). O filme é um dos marcos do chamado Cinema Marginal, que teve fértil produção no final dos 60 e primeira metade dos 70.

Os filmes do movimento Marginal tinham em comum a fotografia em preto e branco (mais barata que a colorida), atores improvisando, muitas sequências em externas – no caso dos filmes paulistas do movimento, e a cidade de São Paulo como pano de fundo.

Outro “movimento” que colocou São Paulo em foco foi o cinema da Boca do Lixo – região no centro da cidade onde ficavam os escritórios das produtoras de cinema. Os filmes da Boca do Lixo eram baratos, meio “roots” e também rodavam muitas cenas em plena cidade.

Durante a década de 70 e a primeira metade da de 80, a Boca do Lixo teve vasta produção, flertando com o erotismo, antes de desembocar no sexo explícito, a partir de 1982.

Um dos cineastas brasileiros mais paulistanos foi o gaúcho Carlos Reichenbach. Em sua vasta obra, diversos filmes tiveram São Paulo como palco de inúmeras cenas – como Amor Palavra Prostituta (1982), Filme Demência (1986), Anjos do Arrabalde (1987) e principalmente Alma Corsária (1993); sem falar no curta documental Esta Rua Tão Augusta (1968), sobre a Rua Augusta.

Na década de 80, uma jovem geração surgiu, renovando o cinema paulista e realizando o que viria depois a ser chamado de Neon-Realismo Paulista. A chamada “geração Vila Madalena” produziu filmes que imortalizaram a São Paulo da época: Cidade Oculta (1986, de Chico Botelho), Anjos da Noite (1987, de Wilson Barros) e A Dama do Cine Xangai (1988, de Guilherme de Almeida Prado), por exemplo.

E vale destacar a trilogia paulistana O Olho do Mágico do Amor (1982), Onda Nova (1984) e Estrela Nua (1985) – estrelados por Carla Camurati e dirigidos pela dupla Ícaro Martins-José Antônio Garcia, e repletos de locações reais (Parque do Ibirapuera, lanchonete Ritz, sauna gay For Friends, Marginal Pinheiros, Avenida Paulista, centro da cidade), esses filmes registraram o frisson de uma São Paulo efervescente, repleta da energia juvenil que misturava as tendências punk, new wave, dark, gay, pop, e o que mais estivesse em alta.

E assim a capital paulistana continuou servindo como inesgotável cenário para o cinema. Seja na nova safra de documentários (Meu Amigo Claudia, 2009, de Dacio Pinheiro; A Volta da Pauliceia Desvairada, 2012 e São Paulo em Hi-Fi, 2013, ambos de Lufe Steffen), seja no cinema de Anna Muylaert (Durval Discos, 2002 e É Proibido Fumar, 2009), seja em filmes que colocam a cidade em primeiro plano (A Via Láctea, 2007, de Lina Chamie; Antônia, 2006, de Tata Amaral). Vida longa à cidade e ao cinema paulista.

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