“Tudo pronto para a decolagem?” “Não, espera um pouquinho, preciso ver se temos café para a tripulação”.

Você consegue imaginar um diálogo desses na cabine do comandante? Os passageiros podem ficar à base daquelas refeições terríveis e deprimentes, tudo bem; sem café, porém, a máquina não decola, nem adianta reclamar nas redes sociais. O problema é que essa bebida tão encantadora, o café nosso de cada dia, transformou-se num dos maiores responsáveis pelo atraso de voos nos Estados Unidos, de acordo com Robert Isom, chefe de operações da American Airlines, em podcast divulgado aos funcionários da companhia aérea.

“Se não encontrarmos um conserto definitivo, deveremos trocar todas as cafeteiras das naves”, afirmou ele, justificando a severidade da decisão com a perda do poder de concorrência da companhia devido aos atrasos, que atrapalham a vida de muita gente. Cada máquina, porém, custa algo em torno de US$ 7 a 20 mil dólares, conforme a matéria divulgada pelo jornal NY Times. Não se iluda, o problema não é a falta de café para os viajantes. É bem mais complexo que isso, na verdade. Quando uma cafeteira elétrica não funciona, comissários de bordo precisam verificar se trata-se de um problema no aparelho ou um dano grave no circuito elétrico da aeronave, o que poderia causar um incêndio ou problemas ainda mais graves.

Não basta descolar a cafeteira mais barata do supermercado e ligá-la nas tomadas do avião, portanto. Existe toda uma logística especial para avaliar se o produto está dentro das normas de segurança da companhia aérea – entre elas, recipientes capazes de resistir às turbulências sem espalhar a bebida quente para todos os lados, um inconveniente dos grandes. Técnicos e especialistas pensam em tudo o que pode dar errado na tentativa de evitar surpresas desagradáveis nos ares.

Por isso, quando o café simplesmente para de pingar nas jarras de vidro, a equipe de manutenção entra em alerta, desligando o aquecimento de água e a energia da máquina. Nesse ínterim, a nave não decola, simplesmente.

Como se não bastasse, a água utilizada para o preparo da bebida também pode atrasar os planos dos viajantes. Existem duas alternativas: contar com um comissário que alimenta as máquinas com garrafas de água ou depender de um reservatório especial no avião. Nesse caso, a água precisa ser tratada como se fosse uma piscina, controlando bactérias e micro-organismos prejudiciais à saúde. O acúmulo dessas substâncias de tratamento no reservatório pode ocasionar entupimentos nos canos, principalmente se a aeronave não for higienizada da maneira correta e com alguma frequência. Mais um motivo para segurar a decolagem.

Do mesmo jeito que passageiros torcem pela pontualidade britânica de seus respectivos voos, eles também esperam contar com uma viagem abastecida pelo líquido denso e mágico que acaba com o estresse da situação. Tem que ter café, tem que ter segurança e, se for o caso, tem que ter atraso, também – infelizmente. Em resumo, só resta esperar pelo “OK” dos técnicos e apreciar a viagem um pouco à frente dos ponteiros planejados, mas definitivamente mais segura.

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